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Este país não é para velhos

A minha madrinha de casamento tem 89 anos e é uma segunda mãe para mim. Teve um papel fundamental no meu crescimento e continua a ser um grande apoio na minha vida. Apesar de ter uma saúde de ferro e uma atitude sempre positiva e autónoma, a verdade é que a idade já vai fazendo das suas e a vitalidade evidente de antigamente já começa a tremer. Nos últimos tempos, tenho ajudado a minha madrinha em algumas tarefas que se podem revelar mais complexas, tais como idas ao centro de saúde ou ao banco. Até aqui, tudo bem, à partida são assuntos de fácil resolução, só que não é bem assim.

A minha madrinha não tem e-mail, nem redes sociais, nem sequer um smartphone.  A minha madrinha vai ao balcão do seu banco para levantar a sua reforma e vai ao seu centro de saúde levantar uma receita. É assim que os idosos de Portugal (quase 25% da população, segundo dados do INE de 2022) tratam dos seus assuntos.

O balcão do banco em que a minha madrinha tem conta fechou no início do mês de Dezembro sem qualquer tipo de aviso, à excepção de um papel afixado na porta do mesmo. Por acaso, passei na porta do banco em questão e, quando ela me disse que precisava de levantar a reforma, informei-a de que o balcão tinha fechado. Ontem à tarde, por volta das 14h00, fomos a outro balcão na zona para levantar a reforma, mas, qual não é o nosso espanto, a caixa do banco só funciona até às 12h00. Voltámos para casa com nova visita programada para hoje de manhã.

Hoje de manhã, lá fomos ao dito balcão fazer o levantamento da reforma. Fomos simpaticamente recebidas e questionámos o senhor que nos atendeu onde poderíamos levantar um livro de cheques que já tinha sido pedido no balcão que, entretanto, fechou. O senhor do banco informou-nos que todos os assuntos pendentes no balcão que fechou, foram transferidos para um outro balcão. Já um pouco fartas de andar “a fazer piscinas”, mas com vontade de despachar o assunto, lá fomos calmamente até este outro balcão. A distância não é exagerada e o caminho até se faria bem, não fosse o percurso de 20 minutos a pé revelar-se um verdadeiro campo de minas.

A calçada portuguesa, que até pode ser muito bonita nas zonas turísticas, é tudo menos prática. Tem buracos e desníveis a perder de vista, é escorregadia e está coberta de folhas próprias do outono, o que ainda a torna mais perigosa. Para além disto, metade do caminho até este novo balcão está em obras, fazendo com que os peões tenham de andar na estrada com os carros a circularem. Finalmente, a entrada deste novo balcão é feita através de uma rampa de madeira improvisada, pois existe um buraco por baixo, devido às obras na rua. Tratámos do que tínhamos a tratar e voltámos para casa, fazendo o mesmo percurso acidentado.

As óbvias questões ficam no ar e sem resposta. A minha madrinha tem a sorte de ter uma filha, um genro, um neto e uma afilhada que a podem ajudar, mas, num país em que a maioria dos idosos se encontra sozinha, é esta a mobilidade e simplicidade que queremos oferecer aos nossos velhos? Uma velhice activa e saudável não é um idoso conseguir ir sozinho ao seu banco, sem se habilitar a bater com o nariz na porta e atravessar meio bairro esburacado? Este tipo de descuido e desconsideração por quem já não tem a destreza necessária para a vida quotidiana dá origem a uma velhice triste e desligada. E por muito que às vezes nos pareça distante, se tudo correr bem, todos chegaremos a velhos.

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