fbpx
CulturaLiteratura

Entre o sagrado e o profano

Um dos grandes mistérios da criação literária é de onde e como surgem as ideias para as histórias.

Quando me questionam sobre este assunto, instigo o meu interlocutor a viver em modo Sherlock Holmes, com os cinco sentidos bem despertos ao que o rodeia — às conversas cruzadas nos cafés, nas filas, nos detalhes daquela pessoa que passou por nós em qualquer esquina da vida, ao artigo de jornal onde o nosso olhar se demorou.

 O material das histórias está no palco da vida, mas não só.

Como afirma António Lobo Antunes, «Toda a invenção é memória. […] Quem nos arranja os materiais é a memória. As tais coisas de que a gente não fala e aparecem nos livros, de maneiras desviadas.».

E assim, entramos num patamar mais profundo do «mistério da criação literária»: o que experienciamos no mundo lá fora mistura-se com o mundo dentro de nós, com as nossas memórias. São as nossas vivências e as nossas reminiscências que nos auxiliam. Por isso, viver e ler são tão importantes para quem deseja escrever.

É curioso como certas rememorações ficam em nós e surgem-nos no papel quando menos esperamos. Talvez já tenha ouvido falar da psicografia, nas descrições da alma, na escrita dos espíritos pela mão de um médium, mas não irei por esse caminho. Ficarei num meio-termo.

Na criação artística há o lado racional, da oficina, da escrita e o inesperado que nos conduz, um lado mais irracional. Quem não sentiu já uma personagem a assumir um rumo diferente daquele que tinha inicialmente previsto? Ou, que o digam os poetas: para eles, o primeiro verso não lhes pertence, «é a mão que escreve».

A inspiração anda lado a lado com a transpiração, com o trabalho; isto é indissociável, principalmente para os romancistas. Não se pode negar a existência de uma ideia transcendental. O grande problema é quando se fica à espera da inspiração e ela não surge. É aí que a rotina e o hábito da escrita nos salvam.

O escritor é como um atleta de alta competição. Tem de treinar, treinar sempre, todos os dias, mesmo que não vá a jogo. É esta perceção, que separa um amador do profissional, seja qual for a profissão. O ofício da escrita não é exceção.

As memórias vibram e manifestam-se fora de nós nas histórias que criamos.

Quando observo os meus textos, apercebo-me, que na maioria das vezes, viajam entre o sagrado e o profano. E eu sei o por quê. Filha de emigrantes, parte da minha infância foi passada com a avó paterna, senhora mui religiosa, que estudava a Bíblia, e me ofereceu aos quatro anos o meu primeiro livro, onde conheci Adão e Eva, Abraão, Moisés, Sansão e Dalila, Noé, Jesus Cristo, os cavaleiros do apocalipse e tantas outras «personagens» e «histórias bíblicas» de forma serôdia. Quem conhece as histórias da Bíblia sabe como por lá habitam a traição, a luxúria, o adultério, a vingança, o mistério, o sofrimento, a dor, mas também o amor, a esperança, a redenção, a humildade e a amizade. E são essas histórias, misturadas com o que vivo, sinto, vejo, leio, sou, pressinto e interpreto, que transparecem nas páginas que escrevo quando me sento no meu recanto. É assim comigo. É assim com todos nós.

Aprende-se a escrever, lendo. E também é necessária uma grande humildade face ao material da escrita. É a mão que escreve. A nossa mão é mais inteligente do que nós. Não é o autor que tem de ser inteligente, é a obra. O autor não escreve tão bem quanto os livros.

– António Lobo Antunes

O que acabei de ler: Dom Casmurro, de Machado de Assis, Guerra & Paz

Prescrição literária: Um clássico da literatura de língua portuguesa de um dos maiores nomes da literatura do Brasil, que deve mesmo ler. Dom Casmurro é a alcunha de Bento Santiago, que, velho e só, desvela as suas memórias. Uma promessa da mãe, D. Glória, traça-lhe o destino como padre, mas Bento Santiago (Bentinho), apaixonado por Capitu, abandona o seminário. Estuda Direito e casa-se com o seu grande amor, mas o ciúme e a desconfiança adensam-se. Suspeita que não é o pai biológico do filho do casal, Ezequiel, mas sim o seu grande amigo Escobar… A dúvida de uma traição é o grande mistério de Dom Casmurro. Afinal: existiu ou não existiu traição. Leia e delicie-se com esta historia repleta de personagens que vão ficar na sua memória.

O que estou a ler: A Louca da Casa, de Rosa Montero, Livros do Brasil

Prescrição literária: Um romance? Um ensaio? Uma autobiografia? A Louca da Casa é, em qualquer dos casos, a obra mais pessoal de Rosa Montero: uma viagem através do misterioso universo da fantasia, da criação artística e das recordações mais secretas da própria autora, que neste livro empreende uma viagem ao mais profundo do seu ser através de um jogo narrativo pleno de surpresas, onde literatura e vida se misturam num cocktail afrodisíaco de biografias alheias e de autobiografia romanceada. E assim descobrimos, por exemplo, que Goethe adulava os poderosos, que Tolstoi era um energúmeno, que Rosa, ela própria, em criança, se julgava anã, e que, com vinte e três anos, manteve um extravagante e arrebatador romance com um ator famoso. Todavia, não devemos fiar-nos por completo em tudo o que a autora conta sobre si mesma: as recordações não são sempre o que parecem.

O que vou ler a seguir: Requiem para o Navegador Solitário, de Luís Cardoso, Dom Quixote

Prescrição literária: Quando Catarina chegou a Timor em busca do seu príncipe encantado trazia consigo o livro A la Poursuite du Soleil, relato da viagem de circum-navegação realizada pelo próprio Alain Gerbault, o navegador solitário francês que, entrando em Díli em busca de um porto de abrigo, ali haveria de morrer no dia 16 de Dezembro de 1941. Tendo-se transferido para o veleiro do francês depois da sua morte e por lhe terem incendiado a casa por suspeita de espionagem a favor dos japoneses, Catarina deixou no livro de bordo o relato dos acontecimentos que ali tiveram lugar nos anos em que a Terra esteve em brasa.

Analita Alves dos Santos

Nasceu na Alemanha a 20 de Outubro de 1974. A leitura e a escrita foram sempre grandes paixões. Desde pequena que sonha escrever livros e partilhar histórias com miúdos e graúdos. Em 2019 publica o seu primeiro livro infantojuvenil, «A Irmandade da Rocha - Daniela e o Ouriço-do-mar» que condensa outra das suas paixões: a Natureza. Já participou em várias coletâneas e escreve para diversas publicações. Foi mentora do primeiro Concurso de Escrita Criativa Poeta António Aleixo. Faz a curadoria do clube de leitura «Encontros Literários O Prazer da Escrita» e ministra formações para promoção da escrita e da leitura. Complementando o seu trabalho de autora, realiza ações de incentivo à leitura e à educação ambiental junto de escolas, bibliotecas públicas e feiras do livro.

One Comment

Responder a Clara Maia lopes Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Veja Também
Fechar
Botão Voltar ao Topo
%d bloggers like this:

Adblock Detectado

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.