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Diz que é uma espécie de análise a um debate televisivo sobre o humor

Todos nós já nos apercebemos de que vivemos uma época em que os nossos comportamentos são alvo de um escrutínio constante, que vai desde as nossas palavras aos nossos comportamentos. Algumas profissões são também alvo desse escrutínio, que se torna mais fácil, quando estas têm mediatismo. É o caso do humor. Em Portugal, tem havido um aumento de profissionais nesta área, muitos destes auxiliados pelas redes sociais – quem não conhece a famosa “Bumba na Fofinha” ou o Guilherme Duarte, também conhecido pelo blogue “Por Falar Noutra Coisa”? A verdade é que a web traz a possibilidade de utilizar diferentes suportes: Youtube, Twitter, Facebook e Instragram são apenas algumas das hipóteses. A televisão continua a ser um meio a que muitos querem aceder (apesar de algumas previsões catastróficas), mas está reservada só para alguns. Entretanto, os espectáculos ao vivo proliferam. A sociedade é a fonte e o consumidor final do que é produzido.

Se é verdade que a web é uma ferramenta muito útil na divulgação de diferentes conteúdos, não é menos verdade que deu um grande poder ao cidadão para opinar no momento. Trata-se de um caminho bidireccional e as consequências já se fizeram notar: Kevin Hart deixou de apresentar os Óscares por piadas homofóbicas que tinha feito há mais de oito anos, o realizador de “Guardiões da Galáxia” foi despedido pela Disney por ter publicado tweets humorísticos sobre violação e pedofilia em 2009 – James Gunn fez um pedido de desculpas público e conseguiu recuperar o cargo meses depois. Os casos são inúmeros e resumem-se a isto: o público tem acesso à piada, não gosta e indigna-se ao ponto de exigir o despedimento do autor de tais palavras como consequência.

Como é que o humorista, que tem nas piadas a sua paixão, lida com isto? Deixa de fazer piadas ofensivas e recorre ao humor consensual, simpático e bem-comportado? Pede desculpa pelas piadas que ofendem? Eventualmente, muda o meio utilizado para divulgar o humor? Herman José, o gigante do humor em Portugal, defende que não se deve pedir desculpa por uma piada. Pelo contrário, deve-se assumi-la! Rui Sinel de Cordes partilha desta posição e optou por abandonar as redes sociais, após uma piada com a tragédia de Orlando. O humorista diz ter percebido que as redes sociais não são a plataforma ideal para divulgar o seu trabalho e pretende dedicar-se exclusivamente aos espectáculos ao vivo. Desta forma, pode dedicar mais tempo à preparação dos eventos e chegar melhor ao seu público que pode usufruir de todos os sentidos para absorver a piada. Com o contexto certo, faz piadas sobre cegos, anões e paraplégicos – não sobre invisuais, pessoas de estatura baixa e pessoas com deficiência motora – porque pratica um humor inclusivo. Mariana Cabral, a famosa “Bumba na Fofinha”, admite sentir a pressão do escrutínio público no seu trabalho – nunca foi vítima de censura propriamente dita, mas já se autocensurou. É Maria Rueff quem aprofunda o tema da censura ao dizer que, na sua perspectiva, o mais grave é quando se trata de uma censura cobarde, sem rosto, uma censura que vem de grupos económicos e que pede para não falar de determinada pessoa ou de determinado clube. Não é isto revelador do poder do humor?

No fim de contas, o humor é mais uma forma de comunicação que implica que conheçamos bem o nosso público e escolhamos com cuidado a plataforma que queremos utilizar. Comunicar na rádio é diferente de comunicar na televisão e certamente muito diferente de comunicar através da web. A web tem a vantagem de chegar a todos e desvantagem de chegar a qualquer um. Neste ponto, os artistas parecem estar de acordo no que diz respeito às vantagens dos nichos e dos espectáculos ao vivo, onde menos se faz mais.

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