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Deu Match. 2000 & 2050 – um matrimónio de Portugalidade.

– Gertrudes, aprochega-te.
– Que me queres?
– Não vês a Aldegundes. Vai além dando de vaia.
– Tarde! – cumprimentaram-se todas. Com a tarde e o assento de cabeça. O boa, antes da tarde, é melhor que se cale. Para hipócritas já bastam as outras circunstâncias. Assim nada se deseja, constata-se o facto da tarde. Melhor assim, mais verdadeiro.
– Pedi-te aprochego para isto te contar: sentou-se a Aldegundes ontem aqui no pial falando comigo. Deu-me conta de que vai sair da casa dos pais.
– Sério Antonieta, a uma altura destas?
– Assim é Gertrudes, disse-me aqui neste mesmo pial. Diz que já vai sendo hora.
– É mais nova que tu não é, Antonieta?
– Fez cinquenta um destes dias, mas estava apoquentada, sabes. Que não ia abandonar os pais, repetiu isto umas vezes para se justificar, mas que alugou uma casita. Pena que lhe morreu a gata Catita, já não a leva.
– Sabe-se lá onde arranjou ela o dinheiro para uma aventura dessas.
– É coisa que também me faz espécie, Gertrudes. Diz que anda para aí aprendendo a mexer na internet.
– Ai, Antonieta, e a Augusta?
– Que tem? Essa é mais nova, se não me falha a lembrança tem quarentas e piques
– São sete esses piques. Quarenta e sete. Diz que mais dois aninhos e quer ser mãe. Agora ainda não que quer aproveitar a vida. Contou-me ela além na praça, vinha de uma daquelas matinés que fazem nas praias, sabes. Vai lá um artista e lá se levam bebendo e dançando.
– Não perde uma a Augusta, Gertrudes.
– Não te arranjaste hoje, Antonieta?
– Para quê mulher, a internet foi um descanso. A Aldegundes é que tem décadas de atraso. O melhor que me deu foram estes namoros à distância. Nem preciso de andar para aí aperaltada.
– Ainda tu andas nisso? Quantos já tiveste tu?
– Gertrudes, os que me apeteceu.
– Não gosto nada da internet. O meu Álvaro, meti-o como quis. Não perdi cá tempo.
– Mas quanto tempo te dura a bateria?
– As coisas estão evoluídas mulher! Já dura vinte e quatro horas mais duas.
– Esse namoro vai durando, Gertrudes.
– É amor para a vida toda, já a outra piquena cantou isso há uns bons anos. Vem cá o rapaz da fábrica de cada vez que quero mudar-lhe qualquer coisa.
– Que lhe mudas?
– O feitio. Andei aí apoquentada uns dias. Aborrecida, é daquelas coisas que nos dá. Apetecia-me que o meu Álvaro fosse mais carinhoso. Chamei cá o moço que o programou para lhe aumentar a meiguice. Foi em menos de nada.
– E não estranhaste, Gertrudes?
– Ai, muito! Não gosto nada de ter homens em casa. Mas o moço tinha mesmo de cá vir fazer isto que eu não me entendi com os fios do Álvaro. Vá lá que o meu Álvaro não é ciumento, programei-o logo sem isso dos ciúmes.
– Já pensei foi num casalinho de gémeos.
– Para casar, Antonieta?!
– Disparate mulher! Para filhos.
– Agora até me assustaste! Fazes bem, esses assim, robôs humanoides como o meu Álvaro, ou lá como lhe chama a ciência, são um descanso. Nem livros para a escola precisam!
– Dormem a noite toda! Ai, mulher, eu cá espero é que a Aldegundes dê agora conta do recado sozinha.
– Bem verdade Antonieta, que o mundo vai estando perdido.
– Pois vai.

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Gabriela Pacheco

Licenciada em Ciências da Educação e Formação. É Gestora de Formação. Tem Certificado de Competências Pedagógicas, Certificação Internacional em Practitioner PNL – Programação Neurolinguística e curso de Graduação em Direcção Hoteleira. Escreve por inevitabilidade. Cultiva a paixão desmedida pela Arte, a Educação e a Formação naquilo que acredita ser a poção mágica para o desenvolvimento humano.

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