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Depressão, maldita depressão

Este artigo pode conter frases que podem ferir a susceptibilidade de jovens ou pessoas que estejam a sofrer de depressão e automutilação. Pretendo dar o meu testemunho como jovem que sofreu (e sofre) de depressão. O artigo irá ter algumas passagens do diário que mantive na pior altura da minha vida.

Segundo uma das muitas psicólogas a que fui, sempre tive depressão, mas ela apenas surgiu (vá-se lá saber porquê), no final do meu secundário.

Já tinha ouvido falar em depressão. Sabia o que era. Sabia que afectava várias pessoas. Sabia o que era o suicídio e todas essas coisas. Desde tenra idade que sabia que usava uma “máscara”, que havia coisas que os amigos/colegas e família não queriam nem precisavam de saber. Porque raio é que os iria chatear com a informação de que não me sentia feliz?

Desde cedo que tive que ir ao médico. Fui uma bebé/criança com alguns problemas de saúde. Estes só me começaram a afectar a saúde mental a partir dos quinze anos. Como dito anteriormente no artigo que fala da minha síndrome rara, os médicos duvidaram de mim. Diziam que eu inventava as dores, que era tudo uma chamada de atenção.

As inúmeras idas ao médico, os constantes gastos de dinheiro em vacinas para as alergias, em idas ao alergologista, as operações ao pé fizeram com que me sentisse um peso nos meus pais, que sentisse que só lhes causava problemas monetários e que estava a mais. Eles nunca fizeram nada para que eu me sentisse assim, muito pelo contrário; mas o sentimento de culpa sempre fez parte de mim. O facto dos médicos dizerem que eu é que era desastrada, que as dores eram uma invenção minha contribuiu para esse sentimento de culpa.

04/02/2013 às 9.35:

Acho que preciso de ajuda médica. Sempre fui muito falsa. Sorriso falso,gargalhadas falsas. Mas há uma altura em que tudo quebra. Tudo termina. Acho que, realmente só quero ir abaixo quando tudo terminar. Não temos dinheiro para eu ir para um hospital psiquiátrico ou tomar medicamentos ou ir ao psicólogo. O que me custa é eu não saber quem sou. Já não me consigo demarcar. Nunca tive a certeza de quem era mas sempre soube quem não era e hoje… já nem isso.

Na escola nunca tive verdadeiros amigos. Sentia-me distante deles, sentia que não me conseguiam compreender verdadeiramente e era isso que eu queria: alguém que me entendesse, com quem pudesse ser eu mesma, com quem não precisasse de esconder todos os sentimentos e mágoas que tinha. Fingia ser quem não era, fingia ser “bubbly”, extrovertida e sempre com muitas piadas para que não adivinhassem o que se passava cá dentro.

20/08/2013:

Sou gorda, fria, auto-destrutiva e um incómodo para toda a gente. E sou inconstante.
Tão depressa estou feliz, como estou a deprimir. Shame on you, Maria.

Todos estes sentimentos de culpa e os sentimentos de não me enquadrar levaram a que desenvolvesse muito ódio por mim mesma. Esse ódio próprio era dissimulado, obviamente. Sorria, fazia piadas, dava-me bem com toda a gente, tirava notas boas, participava em imensas actividade extracurriculares mas odiava-me, e esse ódio consumia-me. Fazia algum comentário menos afortunado e a vozinha na cabeça começava: estúpida, parva, idiota, cabra, puta, és mesmo conas. Não fazes nada bem. Não mereces aquilo que tens… És uma merda. – tudo enquanto sorria e seguia a minha vida

 

Obviamente que essa vida dupla teria que chegar ao fim. Alguma das minhas partes teria que ceder. E a depressão ganhou.

Em Agosto de 2012 comecei a escrever um diário. Comecei a registar todos os meus pensamentos negros e todo o meu ódio próprio. Nesse mês saí de Portugal durante quatro meses. Fui a um intercâmbio para a Holanda e, após esse tempo, voltei diferente. Creio que essa diferença, o eu ter vindo com novas experiências e o chegar cá à mesma vida, aos mesmos sentimentos de solidão, foi a (perdoem-me o cliché mas eles existem por alguma razão) gota de água. Aqueles quatro meses passaram num rodopio, cheios de novas relações, novas aprendizagens e quando voltei às mesmas relações, aos mesmos momentos, como se nada tivesse acontecido, quebrei. Era demasiado estranho o mundo ter-se alterado para mim, mas as pessoas de cá terem-se mantido exactamente as mesmas. Era esperado que eu voltasse ao mesmo, eu que ocultava os sentimentos de tristeza e de vazio?

 

Em Janeiro de 2013 comecei a automutilar-me. Esse foi o ponto mais baixo da minha depressão, da minha vida. Todo o meu ódio próprio foi usado contra mim mesma – culpava-me e castigava-me de tudo o que acontecia na minha vida, todos os meus comentários infelizes, os meus problemas de saúde.

Comecei a ser seguida por psiquiatria e psicologia. Sabia que eu não estava bem, que não estava okay, sabia que precisava de ajuda. E ajuda foi-me dada. Desengane-se quem pensa que, por tomar medicamentos e ser seguida por psicologia, melhorei imediatamente. Não, nada disso.

As doenças mentais não precisam apenas de medicamentos. Precisam que o doente queira melhorar, que o doente queira mudar,. Não é tudo um mar de rosas. As consultas psicológicas doem – é preciso ir bem bem fundo e perceber o que está mal, o que está erado, o que se passa para nos sentirmos assim. Não basta só querer melhorar, ou querer ficar bem – é preciso sofrer inicialmente, é preciso chorar muito, é preciso conversar e, muito muito importante, ouvir. Se um psicólogo só servisse para “conversar”, para explicarmos o que sentimos, qualquer pessoa poderia ser o nosso psicólogo, correcto? Não. É preciso ouvir o especialista. Deixá-lo entrar nos nossos segredos mais obscuros, deixá-lo saber o que se passa, mas ouvir, e deixá-lo guiar.

 

Lentamente, com ajuda psiquiátrica e psicológica, comecei a melhorar. Conheci e comecei a namorar com o meu actual companheiro. Continuei a cortar-me. Cortei-me durante vários meses, mas fui melhorando. Tive dias melhores, outros piores. Dias em que sentia-me bem, outros em que não me queria levantar da cama. Mas tudo fez parte do processo de “recuperação”. Mas, focando-me no meu namorado, que ninguém vos diga que, assim que parte de vocês fica feliz, têm de recuperar imediatamente. Há demasiados filmes e demasiados livros que têm como protagonista uma personagem que tem uma depressão e que, assim que começa a namorar, recupera imediatamente e “já tem uma razão pela qual viver”. Tretas, tretas, tretas, tretas.

Sim, fiquei feliz. Sim, ainda hoje sou feliz com o meu companheiro. Mas não foi unicamente por começarmos a namorar que melhorei, que me deixei de cortar. Existiram diversos factores, e ele foi um deles. Mas o psicólogo, o psiquiatra, a medicação e algumas amizades foram outros factores. Naqueles meses, tudo contribuiu para que eu melhorasse. E, a partir do momento em que deixei de ir à psiquiatra e deixei de ir ao psicólogo e de tomar medicação, o meu companheiro e os meus amigos e eu própria foram as razões para continuar okay.

 

Não creio que possa dizer que, hoje, seis anos depois, já não tenha uma depressão. Ela vai e vem. Já não tomo anti-depressivos mas continuo a tomar medicação para me ajudar a adormecer, para ajudar a calar as vozinhas que surgem nos momentos em que estou mais calma. Não suporto momentos de silêncio, momentos em que não estou a fazer pois é nesses momentos, nessas horas calmas, naqueles minutos antes de adormecer, que elas surgem. Que me começo a auto-recriminar, que me critico por tudo o que possa ter feito desde que nasci.

 

Cada caso é um caso. Que ninguém se desespere por pensar que nunca se vai “livrar” da depressão. Não sou psicóloga nem psiquiatra. Não sei como funciona, se a depressão é para toda a vida ou não. Sei que ela irá, provavelmente, continuar sempre aqui, como um rádio baixinho sempre a tocar. Mas também sei que, se voltar a ir abaixo, tenho com quem contar. Sei que há ajuda disponível caso precise e, no fim do dia, não há mais nada que possa pedir.

 

 

 

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Maria Capitão

Licenciada em Estudos Clássicos, passo o meu tempo livre a ler livros, ver séries e filmes e a ser voluntária numa associação de animais. Adoro jogar videojogos, jogos de cartas e de tabuleiros com amigos.

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