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Crónicas

Considerações de Pub…

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Há um anúncio de uma marca de fraldas que ficou cravado a fogo na minha memória. Suponho que seja esse o objetivo supremo da publicidade em televisão: agulhar pela vista, ricochetear cérebro adentro e estourar tipo fogo-de-artifício na amígdala.

Creio que biológica e quimicamente tenha sido isso que se passou aqui dentro da minha noz-moscada. Tudo o que era sinapse a absorver o que as vistinhas transmitiam em not-at-full-HD.

O anúncio intitula-se “Stairs” e dura 35 segundos. Começa numa sala de estar com a mãe e o filho. No chão da sala, brinquedos espalhados. O catraio, de fraldas, óbvio! A primeira ação a que assistimos é a do bebé que se lança com toda a confiança em direção às escadas e, no mesmo microssegundo que acompanha aquele passinho, levanta-se a mãe e daquela boca sai apenas um som, duas letras em inglês (é uma marca americana): No! (a ênfase é dela, da mãe, o ponto é meu, o de exclamação). E repete num total de três no, no, no.

A criança recua 3 passos e ambos olham para o topo da escada onde estamos nós a ver a cena de cima. A perspetiva vai ser sempre esta: ele em baixo a olhar para cima, para o inatingível. Um homem que entope as escadas rolantes, os outros que se atropelam atrás dele, ele de boca aberta, estagnado.

Noutra cena, lâmpada na mão, escadote montado, boca aberta a olhar para cima, inerte.

No ginásio a turma sobe e desce do degrau de step, ele imóvel.

À porta do estádio, gorro e cachecol, pronto para a festa que já se ouve lá dentro. Mas há um lanço de escadas para subir. Mãos nos bolsos, cabisbaixo, parado.

Dentro de água na piscina. Saltou para entrar, mas como fará para sair? As luzes apagam-se e ele continua a olhar para as escadas da piscina, de boca aberta, emerso e quieto.

Fato completo, mala na mão, o avião que aguarda que ele suba as escadas. A porta que se fecha, a viagem que não fez.

“As tuas decisões são muito importantes para o futuro do teu bebé.”– é a frase que fecha o spot antes de aparecer o logo da marca.

Leva lá este anunciozeco, aninha-o na parte de trás do teu cérebro, vai viver a tua vidinha, conhece alguém, apaixona-te, faz um filho e numa daquelas noites em que a criatura resolveu dar tréguas por mais uma hora e antes que passem as duas horas e o Ogre precise de comer outra vez, deixa-te embalar na promessa de uma soneca… respira fundo, mas baixinho e entrega-te ao descanso…

– Olha! Tu queres ver!? Parece que vou ter tempo para sonhar e tudo! Que bom, o meu cérebro quer presentear-me com qualquer coisa…

– Quero pois! – diz ele, sorriso sarcástico.

E eis que do túnel se aproxima uma silhueta diríamos que um soldado camuflado, mas daqueles com um manto de musgo, tipo o Ferrão da Rua Sésamo.

Prepara-te, que este spot despiu-se e vai andar todo nu na tua cabeça!

Cai-te a ficha e percebes que, faças o que fizeres, absolutamente tudo o que decidires vai influenciar aquela vida que geraste. P*ta de responsabilidade! E é válido para pais, mães, avós, tios, professores, todos sem exceção. Todos temos o poder de influenciar e a maioria das vezes fazemo-lo mesmo inadvertidamente. É o que é. A pressão que recai sobre um pai ou uma mãe é realmente enorme. Ter consciência dela pode ser assombroso, mas estar alerta também nos mantem vivos. É preciso saber dosear, encontrar equilíbrio, mas isso, deixo para a pedopsicologia.

O que queria mesmo deixar aqui para a posteridade é que depois de incutir meios, receios, hesitações e passos atrás (todo o supramencionado é importante, não sejamos hippies alucinados!), importa sermos os maiores impulsionadores de experiências.

Depois do período da “bolha” em que os resguardamos das bactérias, dos fungos, credo, até do sol direto!…bora arrumar o Vigantol e procurar trampolins, escadas, cordas, troncos para trepar, bichos para tocar, ranho para provar, crostas para lamber (ai, aquele sabor metálico…deve ser por isso que gosto de gomas ácidas…hum…).

Temos a obrigação, o dever de lhes dar mundo para que ponham os (nossos) medos e hesitações para trás das costas e fechem a mochila com beijinhos da mamã, pacotes de lenços de papel, o passaporte e uma camisola grossa e se façam à vida! Vão, vejam, falem, explorem, vivam!

Têm todo o nosso apoio, queremos o melhor para os nossos filhos e que, quando eles desfizerem a mala, nunca encontrem a metade do coração que enviámos com eles no dia da partida… é que aquilo vai estar uma nojeira com sangue e gosma no fundo do saco!

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

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Mónica Santos
Em miúda gostava de inventar, agora escrevo; colava as vistinhas nos intervalos para devorar publicidade, agora sou copywriter; lia em voz alta na escola, agora faço locuções, destaquei-me na praxe quando pediram que dissertasse sobre "Pistões e panelas de pressão" e com isso ganhei rodadas; um dos empregos que tive, consegui-o com um texto sobre flatulência, e era autobiográfico...sou locutora, narradora, produtora de rádio e pagam-me para escrever. Gosto muito de ser mercenária e dos desafios que me arremessam. Lutei contra o Acordo Ortográfico mas agora damo-nos muito bem. Quis experimentar a liberdade de brincar com a escrita e encontrei no Repórter Sombra o perfeito parque de diversões: aberto todo o ano e sem torniquete à entrada....ah, e tenho os bolsos cheios de fichas!

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