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“Consentimento”

Preâmbulo

Quando surgiu o MeToo, eu não só resisti à militância do que me pareceu uma manifestação de ódio aos homens, como me retraí perante as acusações de abuso, assédio e violação feitas (sobretudo) a homens, que se viam na impossibilidade de se defender.

Este sentimento prolongou-se por meses, com alguns casos públicos a levantarem-me dúvidas sobre o modo de actuar perante uma denúncia e os ataques parciais e automáticos que desencadeiam (contra o(a)s queixoso(a)s ou contra o(a)s acusado(a)s, no habitual tribalismo dos nossos dias – e eu estava claramente de um lado da tribo).

Quando uma acusação de abuso (por um jovem de dezassete anos) caiu sobre Asia Argento, uma das líderes do MeToo, a uma sucessão de mentiras, que soubemos depois virem acompanhadas de uma tentativa de comprar o silêncio do jovem com quem havia tido relações, seguiu-se o silêncio. Por outro lado, a brutal quantidade de casos que o MeToo denunciou, surpreendeu-me. A realidade era diferente daquela em que eu julgava viver.

Casos como o de Harvey Weinstein são fáceis de condenar. Difícil é traçar a fronteira entre uma acusação que, mesmo sem provas, merece ser tratada com isenção, seriedade, respeito e compaixão, e a presunção de inocência necessária ao funcionamento de uma vida em comunidade, ao respeito pelo próximo e à aplicação da justiça.

Casos como o do professor da Madeira acusado em 2015 por uma aluna de lhe pedir favores sexuais, inocentado em tribunal; ou dos quatro portugueses em Gijon, acusados em 2021 de violar duas jovens espanholas, num julgamento público sumário, que se extinguiu quando surgiu um vídeo do acto (outra questão pertinente: deverá o direito à intimidade sobrepor-se ao direito de autodefesa?), e foram sendo libertados da prisão preventiva (à data em que escrevo, nada mais foi adiantado), levantam-me mais dúvidas do que certezas.

Com o tempo e o contacto com programas e literatura sobre o assunto (como o livro de Nelson Marques Os Homens Também Choram), a complexidade destes temas foi substituindo a resistência e simplismo iniciais. Dois documentários, The Keepers e At The Heart of Gold, abanaram-me no sofrimento agonizante das vítimas de abuso sexual, no efeito devastador para as suas vidas e no prazo de prescrição destes crimes. Ver e ouvir as vítimas para lá do mediatismo muda tudo, trazendo até nós a revolta por décadas (séculos?) de abusos e impunidade, e fazendo da luta também um acto de humanidade.

O Livro de V.

A nossa história era, no entanto, única e sublime. De tanto o ouvir repeti-lo, eu acabara por acreditar nessa transcendência, a síndrome de Estocolmo não é um mero boato. Porque é que uma adolescente de catorze anos não haveria de amar um senhor trinta e seis anos mais velho do que ela? A minha cabeça dera cem voltas a essa pergunta. Sem ver que a formulação estava errada, à partida. Não era a minha atracção pelo G. que se devia pôr em causa e sim a dele.

Consentimento abanou-me de consciência, compaixão e revolta, afastando-me um pouco mais dos preconceitos, e acrescentando uma intimidade que normalmente, no digladiar dos argumentos, tantas vezes fica para trás.

Vanessa Springora fala abertamente da sua vida familiar desestruturada, do modo como o escritor Gabriel Matzneff abusou dela quando tinha catorze anos e ele cinquenta, como ela “consentiu” tal relação por se sentir atraída por um homem mais velho, como reconhece o controlo e todas as técnicas de chantagem psicológica que ele, mais experiente, exercia sobre ela, como ela mostra o impacto devastador que tal iniciação sexual teve no desenvolvimento da sua afectividade, sexualidade e confiança no sexo oposto, como o predador se vitimizava, mascarava de benfeitor que iniciava as jovens de uma forma “saudável” e vangloriava de coleccionar relações com menores, de ambos os sexos, como foi por ele perseguida durante anos, e como a sociedade, na herança do Maio de 68, sob o lema de um aparente ataque ao moralismo e de uma defesa da liberdade e da libertação sexual, defendeu, sobretudo no meio artístico, a despenalização da relação entre adultos e menores.

Dez anos antes de eu conhecer G., no final da década de setenta, um grande número de jornalistas e intelectuais de esquerda assumiram publicamente a defesa de adultos acusados de terem relações “culpáveis” com adolescentes. Em 1977, uma carta aberta a favor da despenalização das relações sexuais entre menores e adultos, intitulada “A propósito de um processo”, é publicada no Le Monde (…)

O tempo era outro, mas, ainda que retiremos as lentes de hoje através das quais olhamos e julgamos o passado, é difícil aceitar uma normalidade apenas considerando “outra época”. Ao meio artístico sempre foi permitido mover-se para além da legalidade, desculpando-se com a excentricidade, criação artística ou exercício da liberdade. Seja nas drogas ou no sexo, a condescendência com que a um artista se aceitam determinados comportamentos sempre foi alargada, e Springora refere-o explicitamente:

Se as relações sexuais entre um adulto e um menor com menos de quinze anos são ilegais, porquê esta tolerância quando elas são o feito do representante de uma elite: fotógrafo, escritor, cineasta, pintor? É como se o artista pertencesse a uma casta à parte, fosse um ser de virtudes superiores ao qual oferecemos um mandato de omnipotência (…)

Assistimos a esta atitude espalhada um pouco por todos os estratos da sociedade: para não atacar a liberdade, não me vou insurgir contra algo que a pode beliscar, tal como não vou condenar a guerra da Ucrânia porque não quero apoiar a NATO ou não vou dar razão a um dirigente do Sporting por assim estar a atacar o Benfica. Quem actua desta forma não entende, por inépcia ou fanatismo mais ou menos tribal, que são coisas distintas e que o exercício da liberdade está precisamente em separar o trigo do joio e sim, de vez em quando entrarmos em contradições, as mesmas que nos permitem crescer, mudar de opinião.

A escrita de Vanessa Springora é escorreita, de uma extrema leveza e dureza ao mesmo tempo. Toda a sua confusão enquanto vítima está exemplarmente retratada, tal como a exposição da sua intimidade, que respeitamos com naturalidade tal o desnorte desta jovem perdida num vendaval das paixões da adolescência que derivaram num tornado para a vida. Num ponto, reconhece em Matzneff também uma vítima (foi abusado por um familiar aos treze anos), mas ainda que o afirme, a prisão em que a síndrome de Estocolmo a reteve durante demasiado tempo é mais forte: ela sofreu calada enquanto ele foi sendo reconhecido, desculpado, premiado, idolatrado, apesar da publicação dos seus diários em que descrevia as relações que tinha com menores.

Curioso como uma sociedade pode conviver em tamanha normalidade com um agressor, talvez pelo mal por ele praticado ter sido, durante tanto tempo, silencioso (ou silenciado), ou talvez por ele ter prestígio. Não havia aqui nada escondido: quer a relação com Springora quer os diários de Matzneff eram públicos.

O que caracteriza os predadores sexuais em geral, e os pedocriminosos em particular, é precisamente a negação da gravidade dos seus actos. Têm o hábito de se apresentar ou como vítimas («seduzidas» por uma criança, ou por uma mulher provocadora), ou como benfeitores (que não fizeram nada, a não ser «bem» à sua vítima).

É difícil não sentirmos uma enorme empatia pela angústia silenciosa de quem vê amputada uma parte tão central do desenvolvimento, tenhamos ou não experimentado algo próximo. É que existem muitos graus de abuso ou assédio sendo por vezes difícil à vítima reconhecer a sua condição de vítima. Mais tarde, quando tal acontece, vem a revolta. Não ter sido ouvida nem protegida por quem o deveria ter feito só a aumenta; os familiares seriam os protectores mais óbvios, mas para lá deles, quando é toda uma sociedade a fechar os olhos, duvidamos: ou o mundo inteiro está errado ou somos nós quem tem um problema.

Muitas questões se me levantaram nesta leitura tão rica e fluente, lúcida e sofrida, parcial e vivida. Continuo sem resposta para o modo como devo considerar uma denúncia. Condenações sumárias que não sejam validadas em tribunal resultam normalmente num “não ficou demonstrado ou provado o assédio” em vez de um “é inocente”, e isso dá pela certa, direito a condenação na opinião pública. Conhecer os dois lados é um primeiro passo para arrefecer os preconceitos com que partimos (ou eu parti) para esta questão. Foi por isto que Consentimento se tornou para mim num texto fundamental (continuando uma reflexão que A Caça, The Keepers ou At The Heart of Gold haviam iniciado).

Consentimento foi-me oferecido pela Odete, a dona da Livros & Companhia, a livraria no centro da Marinha Grande que se tornou um ponto de visita obrigatória a cada viagem mensal à terra. Trazemos, a Sofia e eu, quase sempre de lá algum livro, maioritariamente presentes para outros pois continuamos nesta luta permanente contra a tentação (tal como acontece com os doces) de comprar a enormidade de livros que nos apetece ler, e para os quais seria necessária uma vida infinita. Talvez a biblioteca infinita do conto de Borges exista nas infinitas possibilidades do provir e não no mundo real, que se reduz a acumulação e estantes bonitas.

Na dúvida entre Consentimento e A Balada de Iza, de Magda Szabó (sobre o qual também escreverei), a Odete, ao ver-me hesitar com as duas obras na mão no momento de pagar (juro que não foi técnica, mas acabou por surtir efeito) escolheu por mim – Eu ofereço-lhe este! – e soube que teria que o ler. Trouxe os dois, pagando apenas um. Mas recebi muito mais do que dois livros: recebi duas experiências profundas.

Não existiu aqui acaso, mas sim a curiosidade que me levou a procurar aprofundar um tema, bem com uma associação imediata a uma recomendação de João Miguel Tavares no final de um Governo Sombra de há um ano ou dois, onde ele falava da importância deste livro. Em boa hora registei o nome do livro na lista (crescente) que tenho no telemóvel. E em boa hora a Odete cedeu ao generoso impulso de cativar um cliente.

Consentimento é um livro muito importante. Pelo menos para mim.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico
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