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Conhecimento do Inferno – António Lobo Antunes

Muitas vezes imponho-me a ler mais livros, a procurar novos autores e descobrir novas histórias. Contudo, como creio acontecer àqueles que gostam de ler, há certos livros que nos provocam uma ressaca literária demasiado forte, não conseguimos sair deles, mesmo que passem muitos anos desde que os lemos pela primeira vez ou mesmo que nos cheguem às mãos outros bons livros.

Desses livros de ação prolongada, o que mexe mais comigo ainda hoje é o Conhecimento do Inferno, escrito pelo António Lobo Antunes. Foi lançado em 1980 e chegou-me às mãos por volta de 2014. Nunca o achei datado, apesar de falar da Guerra Colonial e do Portugal dos anos 80. O certo é que a própria história do nosso país é de ação prolongada. Por cá, os eventos históricos e as transformações sociais demoram muito tempo a passar e mesmo quando passam, permanecem em todos nós como uma espécie narrativa comum.

Conhecimento do Inferno foi o primeiro romance que li do Lobo Antunes. E não podia pedir por melhor forma de começar a ler os livros deste autor. Calhou-me uma obra que é daquelas de andarem sempre atreladas a nós e que vale sempre a pena reler. E de tão autobiográfica que é, assemelha-se a um diário que não se esgota num esquema típico de princípio, meio e fim.

A linha narrativa é simples. Um psiquiatra, recém-divorciado ou pelo menos recém-separado, viaja sozinho, de carro, pelas estradas nacionais, desde o Algarve até à Praia das Maçãs. Durante essa viagem, surgem as memórias da Guerra do Ultramar e do seu emprego como psiquiatra no Hospital Miguel Bombarda. Todas essas memórias não são propriamente infernais, como poderia pensar-se dado o título do livro. Antes, são memórias que nos fazem pensar na nossa condição humana e social. O narrador ataca os outros psiquiatras que idolatram Freud como um Deus e se esquecem da empatia e da piedade pelos seus pacientes. E claro, também na guerra, a humanidade é posta de lado e a crueldade vem à tona. No meio de tudo isto, permanecem os medos, as incertezas, os arrependimentos e os cansaços.

Não raras vezes, a voz que comanda o livro resume-se a um porquê gigante e a uma revolta contra aquilo que é julgado como certo e imutável. A certa altura, o narrador, de tão se sentir deslocado na vida que leva, sente-se mais um paciente que é friamente dissecado pelos seus pares. E a forma como luta para sair do papel de paciente e voltar ao de médico, revela-nos a surdez coletiva dos seus colegas psiquiatras para com a generalidade dos pacientes. Os diagnósticos são livrescos, os tratamentos são maquinais e o busto de Freud parece, uma vez mais, aprovar tudo aquilo.

Seja qual for o sítio em que o narrador esteja, lembra-se invariavelmente da vida hospitalar e do tempo em que serviu na guerra. Neste último caso, os temas da morte e do medo e da crueldade não são explorados de forma gráfica e direta, mas antes de forma piedosa e quase filosófica. Aliás, a forma de escrever de Lobo Antunes é rica em imagens de enorme beleza e originalidade, e essas imagens servem para nós, leitores, sermos levado aos lugares que o autor quer que visitemos, para vermos o que ele viu e nos pormos no lugar dele e no lugar daqueles que ele vê a definhar e a não serem ouvidos.

Numa entrevista, Lobo Antunes afirmou que escreve para dar voz àqueles que não a têm. Este livro é a prova disso mesmo. Apesar de, como referirmos, ser talvez o romance mais autobiográfico do autor, é igualmente dos que mais dá voz a um grupo de pessoas que tende a ser esquecido. Tudo ali é real, não paira sobre o texto nenhum sentimento de haver um artifício por detrás daquelas palavras. Conhecimento do Inferno é feito de verdade e literatura, ainda que alguma ficção ande por ali. E ao lermos esta obra, damos também nós voz aos nossos pequenos infernos.

Quanto ao estilo do livro, não há nenhum defeito a apontar, pelo menos a meu ver. Só quem leu Lobo Antunes, sabe do que estou a falar. As palavras parecem postas uma a uma com todo o cuidado, e todas têm uma função e lugar, não há ali nada a mais, não há gorduras literárias. O ritmo da escrita harmoniza-se perfeitamente às histórias que vão sendo contadas. Apesar de este ser o terceiro livro lançado pelo autor, a sua mestria a escrever já aqui estava presente.

Este romance serve perfeitamente como exemplo do que um outro autor, António Gregório, referiu numa entrevista, a propósito da escrita e da forma de se contar uma história:

Para mim, a literatura não pode ser o moço de fretes de uma história. Não pode servir só como veículo. Em tempos, o texto era apenas um acessório de memória. Já não é assim. O meio tornou-se a própria arte. A história é um combustível barato que leva o livro para a frente, mas eu prefiro o que está para lá da história; ou seja, o trabalho de escrita, a linguagem.

Com isto pretendo mostrar que, em Conhecimento do Inferno, as imagens e o trabalho de escrita servem magistralmente a história que o autor se propõe a contar. Cada parágrafo tem uma força única e lentamente o leitor passa também a estar naquele carro que viaja do Algarve à Praia das Maçãs e as várias paisagens que fazem parte dessa viagem misturam-se fantasiosamente nas memórias e a leitura desta obra torna-se, assim, uma experiência única.

Para acabar, deixo uma passagem do livro, que resume e ilustra perfeitamente o que referi:

É a viagem, pensei eu, andei quilómetros a mais, sozinho demais, ao longo deste dia, é o vodca do bar de Lisboa a trabalhar-me na cabeça, são os meus ouvidos que zumbem de cansaço, é o protesto, o gemido, a zanga, a revolta do meu corpo. É o vento do Algarve, o murmúrio dos campos do Alentejo, o rumor das folhas e do mar que se confundem, se combinam, se mesclam, num chamamento semelhante a um apelo ciciado, e que cuido ouvir aqui, deitado no colchão semi-adormecido na manhã que cresce, sob a forma de uma voz que me desperta.

Conhecimento do Inferno

História e Enredo - 100%
Estilo da Escrita - 100%

100%

Avaliação Final

"Cada parágrafo tem uma força única e lentamente o leitor passa também a estar naquele carro que viaja do Algarve à Praia das Maçãs e as várias paisagens que fazem parte dessa viagem misturam-se fantasiosamente nas memórias e a leitura desta obra torna-se, assim, uma experiência única."

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Afonso Castro

Nascido em 1996; estudante de Direito; feroz apreciador de bitoques e grelhadas mistas; leitor incondicional dos livros de Jack Kerouac; e praticante da filosofia "A Vida É Um Livro do Bukowski".

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