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CrónicasSaúde

Como superei a minha ansiedade

Um testemunho verídico

Em 2009, a minha vida mudou para sempre. Foi neste ano que eu entrei na Universidade de Coimbra e realizei um dos meus grandes sonhos de vida. Lembro-me da primeira vez que fui a Coimbra, depois de saber que tinha sido aceite no curso que desejava, e fiquei assoberbada com a quantidade de informação nova que teria de dominar nos próximos tempos, a começar pelo comboio que deveria apanhar para chegar a Coimbra. Tudo era uma novidade: a cidade, o sítio onde iria morar, os meus colegas de curso, as matérias que iria estudar, a tradição académica.

Apesar de ter sido na Universidade que vivi alguns dos momentos mais felizes da minha vida, a verdade é que também foi ali que vivi muitos períodos de infelicidade e de grande ansiedade. Na realidade, tenho a certeza de que a ansiedade era algo que me acompanhava há já muito tempo, mas foi apenas nas consultas de psicologia que fiz durante uma parte deste período que dei um nome ao que sentia – até ali, encarava as minhas emoções como um grande desconforto e não tinha a consciência do que se tratava. Ainda assim, não tenho dúvidas de que foi durante a Universidade que a minha ansiedade atingiu o seu pico, devido à nova realidade a que estava sujeita, à grande quantidade de exames que teria de realizar todos os semestres e (devo confessar) a algumas opções que fiz durante o meu percurso académico. Eu sentia níveis de ansiedade excessivos que me faziam ter dificuldades em dormir, recusa de enfrentar o dia e adiar ao máximo as tarefas que tinha em mãos. “Se não pensar no problema, ele não existe”, pensava certamente o meu inconsciente.

No último ano da minha licenciatura em Jornalismo e sob supervisão médica, comecei a tomar ansiolíticos, que me foram receitados em caso de picos de ansiedade. Era durante a época de exames que eu me servia deste recurso, sendo que a quantidade de comprimidos que eu tomava era mínima – nunca houve nenhum tipo de dependência da minha parte. Quando iniciei o Mestrado, decidi que iria agir como se fosse o meu primeiro ano da Universidade: ia deixar no passado tudo aquilo que tinha ficado no passado e iniciar um novo percurso do zero. Apesar disso, os ansiolíticos tinham-se tornado um aliado em dias de grande ansiedade e eu não abdiquei deles. Depois veio a tese – esse bicho de sete cabeças -, a vida profissional com todo o stress associado e os ansiolíticos continuavam na equação.

Nesta altura, já não tinha acesso aos serviços médicos da Universidade e ainda não estava inscrita no Centro de Saúde em Coimbra, pelo que tive alguma dificuldade em adquirir aquela que foi a minha última caixa de ansiolíticos – felizmente este tipo de medicação requer receita de um médico. Foi aqui que tomei consciência de que estava a desenvolver uma dependência psicológica em relação ao medicamento, já que precisava de o ter disponível (ainda que não o utilizasse) para me sentir confortável. Nesse momento, decidi que nunca mais iria tomar um comprimido que fosse, independentemente de se tratar de um ansiolítico ou de um calmante de origem natural. E assim foi.

O primeiro passo para resolvermos um problema (seja de que espécie for) é admitirmos que temos o problema e que isso nos condiciona. O segundo passo é a nossa vontade de superar o problema, já que é muito fácil cair na tentação de o usar como desculpa para os nossos fracassos. “Não tive boa nota no exame, porque estava ansiosa e isso dificultou a minha concentração”, “Não passei no exame de condução, porque estava ansiosa e isso levou-me a cometer alguns erros”, “Não estive bem na entrevista de emprego, porque estava ansiosa e não dei as respostas mais acertadas”. A ansiedade é a desculpa ideal para justificar qualquer insucesso, se a quisermos usar nesse sentido. Ao invés, eu aprendi a utilizar todos os recursos para combater a minha ansiedade: “Eu sei que a minha voz vai ficar fraca durante a apresentação que farei, por isso, vou fazer pausas sempre que achar necessário e beber um gole de água”, “Eu sei que vou ficar nervosa, quando encarar o público, por isso, vou praticar a apresentação no ambiente mais aproximado à realidade possível”, “Eu sei que as minhas mãos vão tremer durante a minha apresentação, mas não vou dar importância a isso”. Foi assim que eu preparei a minha última apresentação em público: com antecedência, com atenção aos pormenores e, mais importante do que tudo o resto, com a clara consciência das minhas limitações. Deste modo, alcancei o sucesso: comecei nervosa, senti as minhas mãos a tremerem e, quando decidi ignorar que as minhas mãos estavam a tremer, o meu corpo descontraiu e eu comecei a interagir diretamente com alguns elementos do público, de forma totalmente improvisada. Foi um dos momentos mais desafiantes e gratificantes deste ano.

A verdade é que desde que iniciei o meu Serviço Voluntário Europeu a minha ansiedade tem registado níveis muito baixos, sendo muitas vezes inexistente. Porquê? Porque sinto que estou a ser fiel a mim mesma, ao ter dedicado um ano da minha vida a fazer aquilo que realmente gosto. Porque estou a trabalhar num sítio onde, pela primeira vez, sinto que tenho total liberdade criativa e onde tenho uma grande margem de manobra para experimentar e errar – o que é muito difícil de acontecer em empresas, já que todos os erros equivalem a custos para a empresa. Além disso, sinto que tenho tempo para mim própria: o facto de conseguir ter tempo e disponibilidade mental para alimentar o meu gosto pela escrita é algo que me faz sentir mais realizada. Não vou esconder que no início do meu Serviço Voluntário Europeu andava todos os dias em stress, mas sei que isto acontecia por que ainda não sabia muito bem ao que ia. Agora que conheço o projecto e sei o que esperam de mim, sinto-me muito mais confortável.

Ao contrário do que o título possa sugerir, a ansiedade nunca se supera totalmente – lamento desiludir-vos. De resto, a ansiedade é uma emoção natural do ser humano em diversas situações do quotidiano. Eu sei que a ansiedade me vai acompanhar ao longo da minha vida e que possivelmente vou ter crises de ansiedade no futuro, porém, hoje tenho meios para a combater. Sem precisar de ajudas externas.

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Carla Sofia Maia

Olá! O meu nome é Carla, tenho 27 anos e nasci em Vila do Conde, uma pequena cidade no Norte de Portugal. Talvez por ter crescido numa cidade pequena, desde cedo tive o sonho de viajar pelo Mundo e conhecer outras pessoas e culturas. Aos 18 anos, mudei-me para Coimbra onde estudei Jornalismo e Comunicação. Ao longo dos meus estudos, tive a oportunidade de conhecer pessoas de todas as partes do Mundo, o que reforçou a minha vontade de ter uma experiência além-fronteiras. Foi em 2017 que conheci o Serviço Voluntário Europeu e tive a certeza de que era algo que fazia todo o sentido na minha vida: fazer voluntariado noutro país, tendo a oportunidade de aprender outra língua era algo que eu desejava. Actualmente estou a viver em Bordeaux, onde sou voluntária de uma instituição europeia e posso dizer que estou muito feliz por ter sido aceite neste projecto, em que sou embaixadora dos valores europeus. Escrever é uma paixão que vi reforçada com esta nova experiência, em que há tanto para contar. Boas leituras!

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