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Comentar no online: discursos à direita que encontram votos

De ato em ato, o discurso ganha formato. Palavras que se usam aqui em tom mais descontraído para chegar à ideia de que um discurso se constrói com uma acumulação de atos. Na verdade, não apenas com atos comunicativos materializáveis, ou não, como também com ditos e não ditos. André Ventura, presidente do partido CHEGA, comentou recentemente que são necessárias mais “Suzanas Garcias”. Não será isto aderir a e promover um discurso?

Suzana Garcia iniciou a sua conquista de visibilidade com a sua participação nas manhãs do canal TVI. A comparação de um caso muito falado de um cabo-verdiano morto em Bragança ao de um português morto em Lisboa ou o uso de termos como “gentalha” puseram a comentadora numa posição de destaque. Conhecida pelo seu estilo assertivo e direcionado, a advogada de profissão disse, numa recente entrevista, que quer mudar o concelho da Amadora, em Lisboa, ao qual se candidata no âmbito das próximas eleições autárquicas, com o apoio do PSD. Apesar do apoio, noticia a ‘Visão’, o vice-presidente do PSD Amadora apresentou a sua demissão na sequência da candidatura de Garcia. É pertinente ainda dar conta de que se trata de uma área geográfica caraterizada pela multiculturalidade, que, segundo dados oficiais de 2016, conta com a presença de pessoas de mais de 99 nacionalidades.

O objetivo deste artigo será perceber o que se veicula discursivamente em comentários ao artigo noticioso do jornal ‘Observador’ intitulado de ‘Autárquicas. Líder do Chega espera que “haja mais Suzanas Garcias no PSD”’, por leitores e leitoras do mesmo. Para o efeito, com base nos contributos de Zara Pinto-Coelho [1] e Teun van Dijk [2], foram escolhidos os três comentários mais votados daquele artigo numa zona do sítio dedicada ao mesmo propósito, a partir dos quais se procura analisar o que se percebe dos comentários, qual o seu estilo e contexto e que mensagens estão subliminares. Os comentários mais reagidos serão aqueles que terão mais apoio também, podendo, segundo a investigadora Ana Cabral [3], uma reação a uma publicação numa dada rede social ajudar a legitimar um discurso associado a uma mesma publicação.

O primeiro comentário tem a autoria de Antonio Monge. Começa por escrever que as declarações de Ventura vêm “mostrar que é bem mais tolerante e democrata que a pocilga do BE [Bloco de Esquerda]”. Sugerindo uma inscrição no que diz o dirigente partidário, tolerância e democracia saem reforçados no imaginário do utilizador, menosprezando estas caraterísticas por parte do Bloco de Esquerda, o qual inclusive trata por “pocilga”. Demonstra aqui um afastamento ideológico do partido. Questionando se “ainda havia dúvidas”, o que se traduz numa comprovação da ideia que defende, associa “a intolerância e o autoritarismo doutrinário” ao “Fascismo e Trotskismos” provenientes da “esquerda radical que nunca trabalhou”. Alude, portanto, à ideia de que as pessoas militantes e apoiantes do partido nunca trabalharam ou viveram, ou vivem, a trabalhar para o Estado. Nas palavras de Antonio, “vivem às custas de quem trabalha”. Tolerância e democracia são, por conseguinte, aqui atribuídas ao partido CHEGA, ainda que este proclame no seu manifesto oficial uma “IV República”, sugerindo um novo regime diferente daquele que é a democracia contemporânea. As palavras de Antonio Monge recebem a adesão de 18 pessoas.

Figura 1: recorte de ecrã do comentário de Antonio Monge, a 5 de maio de 2021.

O segundo comentário é assinado por Zacarias Bidon. Afirmando expressamente que “Ventura tem toda a razão”, deixa a sua palavra de defesa a Suzana Garcia, destacando ser merecedora de “admiração”. Zacarias indica, porém, que Garcia deve olhar para o CHEGA não como “inimigo”, sendo antes inimiga “a ditadura xuxa, comuna e bloqueira”, referindo-se à ação das iniciativas partidárias PS, PCP e BE. Numa onda de defesa do que é nacional, entende viver-se numa “ditadura multiculturalista e maçónica”, apontando que “todo o patriota que erga a voz para defender Portugal e Civilização (…) tem que ser apoiado, seja ele membro que partido for ou da sociedade civil”. Depreende-se que alude aqui à ideia de qualquer pessoa que venha reforçar a proteção do que é ou quem é português ou portuguesa mereça mais proteção do que quem não é, algo a que quer Garcia quer Ventura mostram recetividade, o que pode ajudar a explicar a afirmação do segundo sobre a existência de mais pessoas como a primeira. A atitude evidenciada por Zacarias é de apoio e de subscrição. O seu comentário, com 15 votos, termina com o escrito de que “é de um homem desta têmpera que Portugal precisa”.

Figura 2: recorte de ecrã do comentário de Zacarias Bidon, a 5 de maio de 2021.

O terceiro comentário faz alusão a algumas pessoas, sendo elas as pessoas defensoras das políticas de José Sócrates, ex-primeiro-ministro pelo PS, de 2005 a 2011, Mamadou Ba, dirigente da associação SOS Racismo, por quem Suzana Garcia mostrou repugnância na entrevista já mencionada, Robles, antigo deputado do BE e conhecido pela sua polémica que envolve um prédio em Lisboa, e Francisco Louçã, ex-dirigente do BE. Recorrendo ao uso de vários pontos de interrogação e exclamação ao longo do comentário, Sergio Coelho entende que Louçã se trata de “um ignobil patetico e inapto mentacpto, aldrabão compulsivo e que adora os comunas que mataram MILHOES!”. A morte de milhões de que fala tem que ver com o passado histórico do comunismo ditatorial, como retrata ‘O Livro Negro do Comunismo’ [4], em países como a URSS, cujas ditaduras promoveram, a título de exemplo, guerras civis massivamente mortíferas. Empregando ironia, o seu questionamento final pergunta se tais pessoas “é que são fixes”.

Figura 3: recorte de ecrã do comentário de Sergio Coelho, a 5 de maio de 2021.

Estes três comentários têm diferentes formas de argumentar posições que, de modo igual, se manifestam a favor de André Ventura. O recurso ao passado e à História ou à adjetivação e à categorização são algumas das estratégias adotadas, como forma de dar força a discursos. Uma nota na primeira pessoa deixo para dizer que já expliquei noutro artigo da minha autoria que um discurso representa, é um todo representativo resultante de um todo de atos comunicativos. Acrescento apenas a noção de representação de Michel Melot: “Representar, é tornar presente aquilo que o não é” [5].

Parece haver uma necessidade de escrever comentários sob nomes que não se sabem ser verdadeiros ou falsos e sob avatares sem fotografias reais e de seres humanos nelas representados. Isto também pode apontar para uma maior descontração na forma de expressão pessoal, já que se demarcam de responsabilidades sob o que dizem, uma vez não terem a sua identificação real em causa. De modo geral, num artigo de análise de comentários, Ana Cabral [3] defende tal perspetiva e entende que o anonimato associado a uma descontração na publicação de comentários tem-se verificado em plataformas online.

Os comentários aqui analisados, os mais votados da caixa, destacam um apoio a Ventura, que, por sua vez, apoia Garcia. O tratamento diferenciado sobre pessoas portuguesas e não portuguesas ou a elevação do nacionalismo são alguns dos ideais em causa. Enunciam-se ideias como “extermínio”, de Suzana Garcia, ou de “castração química ou prisão perpétua”, do CHEGA, aliás valorizadas por Ventura ao ver o PSD a parecer aceitar candidaturas defensoras de tais práticas. De acordo com o que relata o ‘Observador’, o dirigente refere inclusive que “é um bom avanço para o PSD”.

Muito embora não sejam conclusões, as que se retiram deste exercício de análise, que se possam generalizar, podem ser estas pistas para que se possa compreender a seguinte dualidade: podem servir as caixas de comentário, por um lado, como espaços de expressão de ideias, sobretudo de forma mais oculta e subentendida e, por outro lado, como potenciadoras de discursos existentes e produtoras de outros de apoio a quadros político-ideológicos de fações diversas. Para concluir, uma pergunta fica: não são de detalhes que se veem ou não que se faz todo e qualquer discurso?

[1] Nota bibliográfica (artigo em ata de congresso): Pinto-Coelho, Z. (2019). Análise (crítica) do discurso e análise de contéudo: afinam pelo mesmo diapasão? In P. Serra & A. Gradim (Eds.), Anuário Internacional de Comunicação Lusófona 2017/2018 (pp. 21-44). LABCOM. http://labcom.ubi.pt/book/344

[2] Nota bibliográfica (livro): Van Dijk, T. A. (2005). Discurso, Notícia e Ideologia. Estudos na Análise Crítica do Discurso. Campo das Letras. http://www.lasics.uminho.pt/ojs/index.php/cecs_ebooks/issue/view/192

[3] Nota bibliográfica (artigo): Cabral, A. L. T. (2019). Violência verbal e argumentação nas redes sociais: comentários no Facebook. Caleidoscópio, 17(3), 416-432. http://revistas.unisinos.br/index.php/calidoscopio/article/view/cld.2019.173.01

[4] Nota bibliográfica (livro): Courtois, S., Nicolas, W., Panné, J., Paczkowski, Bartosek, K. & Margolin, J. (1999). O Livro Negro do Comunismo: Crimes, Terror e Repressão. Bertrand Brasil.

[5] Nota bibliográfica (livro): Melot, M. (2015). Uma breve história… da imagem. Húmus. http://www.cecs.uminho.pt/publicacao/uma-breve-historia-da-imagem/

Pedro Ribeiro

Vimaranense, 24 anos e recetivo a desafios, ocupo a maior parte do meu tempo em torno das áreas dos Média e da Comunicação. Sou estudante de doutoramento em Ciências da Comunicação e procuro oferecer a minha perspetiva da forma mais íntegra possível. Numa sociedade de pouco sentido crítico e muito moralismo, procuro trazer debate com conhecimento, procurando perceber e aprender mais. Não fosse isso um motor para a vida, o conhecimento. Já escreve Nietzsche, na sua obra 'Assim Falava Zaratustra': 'O Homem só existe para ser superado.'

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