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Cancro

É cancro!

É cancro nos pedidos de ajuda do Facebook, é cancro nas páginas pessoais, é cancro na Matilde, na Mafalda, no André, no José. É cancro na criança, é cancro na mulher, é cancro no homem. É cancro e o que se sabe dele é que assusta. Faz cair o cabelo, é incapacitante, é triste. Por favor, ajudem! É isso que se sabe dele.

Sabemos dele o que olhamos, sabemos dele o pouco, o muito pouco que os nossos olhos vêem, o tão pouco que a nossa mente imagina.

Biopsia! Põe “pause” em tudo. O mundo fica em “pause”, pelo menos aquela cabeça manda isso.

É cancro! STOP em tudo! Não tem como viver da mesma forma. Por mais sorrisos, por mais demonstrações forcadas de vontade, nada é mais como há 5minutos do cancro. Não tem como ser.

Não existe forma de dizer que alguém venceu o cancro ou ganhou o cancro. Ele esteve lá e sempre um bocadinho dele vai estar. O cheiro dele vai estar, o medo vai estar, as diferentes sensações não vão ser esquecidas. Ele vira te ao contrário e faz-te olhar para dentro de ti como outro.

Poderá haver o depois dele, ou não!

Havendo que seja um depois libertador, de aproveitamento, um depois de cortar a respiração, um depois que de tão normal seja de paz, de vitoria. Que todo esse depois seja apenas e só, cheio de vida.

Para muitos não há a promessa do depois… é um dia, mais um dia. Mais um dia daquele cheiro, daquele sabor na boca, daquele som que te vai direitinho à alma. Mais um dia que tentas tranquilizar o olhar assustado dos que estão á tua volta, mais um dia que sorris, tentando contornar a revolta que está aí dentro. Mais um dia que ganhas força para levantar, tentar fugir ao espelho, mais um dia que ignoras o corpo modificado, mais um dia que escondes o que dói.

É em ti que ele está, és tu que te sentes pressa a ele e sabes que és tu que vás embora. As outras pessoas, aquelas que sentem pena da dor que irão sentir ao ver-te ir, essas pessoas, elas ficam. Elas vivem! Se não acordares amanhã, o sol vai brilhar igual, a lua vai aparecer no lugar de sempre, os dias vão passar um após o outro, a vida vai andar. Apenas tu, apenas tu é que sentes que poderás não estar.

Ninguém vive o dia-a-dia imaginando que daqui a nada pode ser último, ninguém vive a pensar que tem que aproveitar os bons momentos até a última gota, ninguém está sempre a contar com o pior, ninguém se lembra que em algum momento um dia após o outro poderá não ser o normal. Guardamos a roupa nova para um momento especial, aguardamos o momento certo para agradecer, esperamos até que haja tempo para aquele cafezinho, marcamos aquele jantar para uma data especifica… e o tempo passa.

Vivemos aprisionados a regras, simples, normais, repetitivas. Amarrados ao que uma sociedade exige de nós. Juntar, ter filhos, trabalhar, pagar contas, tentar sorrir encontrando um motivo para tudo isto fazer sentido. Vivendo uma correria assustadora, reclamando da falta de tempo, mas o reduzindo cada vez mais. Correndo, sempre á espera do momento certo para tudo, momento esse que não é certo, não é garantido.

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