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Berlim

Arquitectura que Ensina

Espreito na minha memória a tentar encontrar uma que pudesse ser a minha cidade favorita, mas não encontro, até agora. Gosto de tantas, por razões tão variadas, e, de todas as grandes cidades que visitei, de todas elas saí com vontade de voltar. Viajar é um movimento a dois passos, o externo e o interno, nem sempre em sincronia. Enquanto estamos em trânsito, apreendemos, sentimos e conhecemos coisas novas e, muitas vezes, regressamos e essa incursão balizada no tempo continua a dar frutos pelo rolar dos dias, pela vida fora. No meu caso, essa maturação faz falta. Gosto de ir, beber tudo, e depois dar tempo para a sedimentação. Num primeiro passo é lúdico, depois é ensinamento perene.

Lembro-me de ter estudado a História da Segunda Guerra Mundial e ter ficado fascinada com a matéria, de tal forma que era tema recorrente nas minhas opções de estudo e pesquisa em tempos escolares. Nessa altura também era claro que os alemães eram os maus da fita e só mais tarde comecei a perceber melhor que os alemães não eram só maus. A História é complexa; apenas quem se fica pelos grandes títulos a pode dividir com facilidade entre bons e maus, certos e errados. Considero até que, quanto mais  nos debruçamos no estudo sobre o assunto, mais baralhados ficamos – as certezas desaparecem rapidamente. Logo, as lições da História não devem ser lembradas com um indicador em riste, mas como um apontamento na sebenta de alertas, sobretudo na História da Europa, onde tantos dedos seriam necessários.

Sendo eles, alemães, os maus da fita, a minha vontade de visitar Berlim, veio tardia, mas, como os alemães fizeram o luto da sua História, eu fiz o meu. E ainda bem. Chegou o dia em que visitei essa cidade outrora dividida por um muro. (Os tempos pedem-nos que nos lembremos disto, não?) E que cidade!

Obedece àqueles requisitos comuns de uma boa cidade: amigável, com vários parques e jardins, uma boa rede de transportes, bike friendly, variedade de bares e restaurantes para todos os gostos e a um preço acessível, galerias, grandes museus, mercados e uma cena artística pujante. Contudo, o que mais me deslumbrou nesta cidade foi a Arquitectura. É um ser vivo, está sempre a acontecer, ora mundana, ora Arte, em todo o lado e, numa determinação darwinista, adapta-se ao ecossistema. A Arquitectura é viva.

Tomei-a como um símbolo físico, visível, sólido, permanente, do que os alemães fizeram da sua História, criando o hoje sobre um estrato de memória vívida, ao invés de o fazer no borrão de um passado apagado. Tudo isto se sente andando pela cidade e há exemplos maravilhosos que o ilustram.

Reichstag
Reichstag

O Reichstag, o parlamento alemão (Bundestag), e a sua cúpula projectada por Sir Norman Foster, onde, sobre um passado de incêndios e destruição, assenta uma abóbada de cristal que invoca a transparência: nós, o povo, podemos olhar o interior do parlamento, no qual recordo umas cadeiras banais, em baixo, ilustrando uma frugalidade que agrada. Esta cúpula foi projectada de forma a captar a luz solar e está apetrechada com tecnologia moderna para o poder fazer com a máxima eficiência. A modernidade assenta eticamente sobre o passado.

Memorial do Holocausto
Memorial do Holocausto

O Memorial do Holocausto. Projectado pelo americano Peter Eisenman para dar forma à memória dos seis milhões de judeus mortos durante o regime nazi. O primeiro impacto não deslumbra, parece um rude e vazio campo de blocos estendidos sobre o chão, configurando um cemitério povoado de túmulos escuros e desprovidos de qualquer ornamento. À distância nada vemos. É preciso ir, penetrar. À medida que progredimos, o solo desce sob os nossos pés e começamos a ser engolidos por aquele labirinto de túmulos, que são agora mais altos que nós. A incursão naquele parque de minotauro mostra-nos que o chão pode fugir e que o horizonte se pode perder rapidamente. Estamos no centro de Berlim, ao ar livre, e à medida que avançamos, deixamos de estar na cidade, deixamos de a ouvir e, se a presença ali for prolongada, pode haver até quem se sinta sufocado. A analogia é imediata, o mundo pouco se deixou impressionar quando se deram os primeiros passos em direcção à II Guerra e, sem darmos conta, fomos submergidos.

O Museu Judaico, repartido por vários edifícios, dos quais se destaca o prédio em ziguezague, de zinco titânio, projectado por Daniel Libeskind – não precisamos de entrar para perceber o impacto que a história judaico-alemã tem ali; a Ilha dos Museus, sobre o rio Spree, onde se destaca o Pergamonmuseum, que alberga  o Altar de Pérgamo; a Philarmonie de Berlim, uma das salas com melhor acústica de todo o mundo, desenhada por Hans Scharon; a Neue Nationalgalerie de sua eminência Mies Van der Rohe; o icónico Checkpoint Charlie, outrora fronteira entre Leste e Oeste; AlexanderPlatz, onde se pode ver as horas no World Time Clock; e continua…

Potsdamer Platz
Potsdamer Platz

PotsdamerPlatz, um centro nevrálgico que nos dá em altura – obrigando-nos a olhar o céu – o trabalho de Renzo Piano, Hans Kollhoff e Helmut Jahn. Aqui pulsa a vida berlinense, sobre a memória de uma estação onde os comboios de Berlim Ocidental passavam sem parar, onde ninguém podia entrar ou sair, perante a vigia de soldados armados; Brandemburger Tor, ou a Porta de Brandenburgo, cenário em 1990 de um concerto que ficou na memória de todos, com um Roger Waters a fazer uma produção megalómana na outrora terra de ninguém…

 

A East Side Gallery, a maior extensão de muro sobrevivente, cenário de tantas fotografias, ilustração de uma história tão assustadoramente recente (muitos de nós fomos contemporâneos deste muro, que mais foi uma parede a dividir o Mundo), é uma galeria a céu aberto com imagens icónicas que pode ser percorrida livremente. Um fruto da iniciativa artística endógena que deu cor a um muro negro.

A Igreja da Memória, vítima de ataque aéreo durante a II Guerra, cujo destino era ser demolida para dar lugar a uma nova, mas foi salva pelos protestos locais que a quiseram preservar como símbolo da destruição causada pela Guerra. Assim, construiu-se uma nova torre, desenhada por Egon Eiermann, num design moderno, que co-habita com a torre antiga, que se ergue orgulhosamente quebrada. O improvável faz sentido.

Ainda que possa pecar por exaustiva, a lista não está completa, nem perto disso. Berlim tem muito a oferecer e só exige do interlocutor que deambule pela cidade. Se essa for a sua opção, o visitante pode não pagar senão bilhete de transporte, e aceder a uma aula magistral a céu aberto. A História está por toda a cidade, fora, gratuita e acessível a todos, assumindo na manifestação arquitectónica, para mim, a máxima expressão. Berlim vale por muitas coisas, mas a Arquitectura é Viva. Fala connosco. E ensina.

Joana Martins

Sou a Joana, fácil de convencer com Sol, mar (tão cliché e tão verdade), viagens, leituras, aprender, animais, conhecer, pessoas, yoga, crossfit (a aprender a lidar com os meus paradoxos), caminhadas, Arte, boas conversas, amigos, Música (nem toda), amores, chocolate, Filosofia, palavras, Ericeira, Literatura, alimentação saudável, Natureza, bons encontros e uma insatisfação latente em fase de mitigação. Não compreendo quem continua a deitar lixo no chão e no mar. Aviso aos incautos: posso pensar demais...

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