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Auto-Mutilação

Quando precisamos calar a intolerável dor interna

Alguém dizia em algum local que li que “a única coisa verdadeiramente intolerável, é nada ser verdadeiramente intolerável”. De facto, o ser humano e a sua pulsão para a vida e para a homeostasia, são incríveis. O Homem aguenta tudo, até o que parece ser impossível de aguentar. No entanto, para que tal aconteça, são precisas estratégias. Estas estratégias psíquicas, às vezes, não são entendidas por quem está próximo. Como diriam na Psicanálise, todas as disfunções são, em última instância, fugas ao grande e negro lobo da depressão. Passamos a vida a fugir da depressão quando, na verdade, poderíamos aprender com ela e resignificar as nossas vivências.

Contudo, voltando ao intolerável… é neste domínio que surge a auto-mutilação. Muitas vezes achamos que quem se auto-mutila quer morrer. Deixem-me que vos diga que é precisamente o oposto. É preciso querer muito viver para alguém tentar sobreviver à inominável dor psíquica que sente, transpondo-a para o corpo, onde é muito mais fácil processar e cicatrizar. Mas a sociedade tem uma enorme tendência para a atribuição de rótulos. Uma ferida cicatrizada de alguém que se auto-mutilou, não é sinal de fraqueza, mas sim um marco de superação. Lembra quem a ostenta do seu passado difícil e de como é um / uma sobrevivente contra todas as expectativas. Olhar para uma cicatriz destas só nos mostra que temos um passado. Dá-me vontade de citar Leonard Cohen ao dizer que “há uma fenda em tudo, é assim que a luz entra”.

Ao longo da minha vida, tenho-me cruzado com muitas pessoas que passaram por momentos indescritíveis de perda, dor e melancolia. Quer próximos de mim, quer no consultório, eu procuro ver sempre estas pessoas como uma espécie de semi-deuses. Um tipo de Héracles, passando entre Cila e Caríbdis, lutando contra sereias, ciclopes e monstros diversos. A maioria, residentes no seu próprio inconsciente. Outros tantos, implantados por terceiros ao longo dos anos. Que desiguais parecem estas batalhas Olímpicas. Como podemos ganhar, como podemos manter a sanidade em alguns duros momentos? Ouço as suas histórias e, de cada vez que me falam de auto-mutilação (com a vergonha associada que isso acarreta), lembro-me do pião usado no filme Inception. O corte, a queimadura, é como um voltar à realidade. Uma forma de sair da própria mente, quando não há mais força para aguentar uma batalha. A dor é tão grande e difícil de explicar e simbolizar na terapia, que a auto-mutilação assume assim esse papel de facilitar o processamento de toda a vida psíquica. É função da psicoterapia e do psicoterapeuta, ajudar cada pessoa a traduzir o que sente. A dar um significado à dor. A integrar a perda. A colar as partes fragmentadas.

A maior barreira a uma abordagem eficaz é o medo e a vergonha. O medo do julgamento e a vergonha da exposição. Quem o faz, fá-lo em privado. Não o expõe. Não usa como medalha. Não vê como sinal de resistência, mas como falha, inutilidade, insuficiência, tristeza e solidão. Como tal, é isso que espera do terapeuta. Um olhar julgador e de moral reprovadora. Contudo, não é isso que deve acontecer. O psicoterapeuta deve criar um espaço seguro para essa partilha íntima, sem qualquer julgamento. O terapeuta sabe que as dores internas não são fáceis de processar e sabe a forma interrelacional como corpo e mente funcionam num só. O psicoterapeuta é aquele que mergulha na finisterra, no fim do mundo, para resgatar a estrutura do paciente. É quem, muitas vezes, corre risco de afogamento simbólico, para retirar a pessoa que tem à frente, do fundo do poço. Ao terapeuta podemos mostrar tudo, sabendo que ele ou ela irão ver-nos para além da cicatriz. Ou melhor, irão ver a luz que dela emana.

Há um forte desejo de mudança e de vida em cada uma destas pessoas. Contudo, muitas delas encontram-se perdidas, sem direção que as ajude a ver soluções por entre o breu. A saída, como costumo dizer, é sempre para dentro. Na terapia aprenderá a ver no escuro e a vislumbrar a luz em cada fenda, reconhecendo as várias partes de si, assumindo-as e integrando-as com a convicção de quem parte rumo à individuação na sua jornada do herói.

Tatiana A. Santos

Analista Junguiana, Docente, Investigadora Académica

santostatiana@edu.ulisboa.pt

Tatiana Santos

Tatiana A. Santos é Licenciada em Jornalismo (ESCS), ex jornalista do DN e de A Bola. É, actualmente, produtora do programa de Rádio "O Martelo de Jung", na ESRADIO; Psicóloga Analítica; Docente na International Academy of Analytical Psychology e Doutoranda em História das Religiões, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A autora não usa o acordo ortográfico

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