Asteroid City (2023)

Asteroid City é o nome do mais recente filme de Wes Anderson. O realizador — que se afirmou no mundo do cinema após o sucesso de trabalhos como Grand Budapest Hotel e Fantastic Mr. Fox —, conhecido principalmente pela excêntrica estética visual que todas as suas obras partilham e pela vibrante paleta que adotam, regressa aos cinemas com uma longa-metragem igualmente singular.

O filme decorre numa cidade ficcional situada num deserto norte-americano, por volta da década de 1950, e alterna entre dois planos: o plano da história e o plano dos atores. Tal dinâmica confere à obra um caráter único que evita o aborrecimento dos espectadores, já que Asteroid City é, na verdade, uma história dentro da história, na qual temos frequentemente a oportunidade de ver como esta se desenvolveu.

A longa-metragem tem início com a apresentação dos atores fictícios que darão vida às personagens de Asteroid City — uma obra escrita pelo também fictício dramaturgo Conrad Earp — e prossegue com a apresentação de um ato da peça, interpretada já pelos atores selecionados e num cenário realista. Inicialmente, a combinação de todos estes aspetos contribui para que nos esqueçamos de que o que estamos a observar não é real, mas apenas um filme dentro do filme. Ainda assim, à medida que este se desenrola, vamos presenciando cada vez mais cenas relativas à preparação de Asteroid City, como a audição do ator que interpreta a personagem principal, que reforçam a ideia de que é tudo uma obra de ficção.

O plano da história segue o itinerário de um grupo de jovens — todos estes de extrema inteligência e aspirantes a astrónomos — que, convidados a visitar o observatório existente na região de Asteroid City, presenciam um raro fenómeno que virá a ter consequências a nível global. Para além das dinâmicas entre o pequeno grupo de adolescentes, aborda também as relações entre os pais das personagens, seguindo principalmente o ponto de vista de Augie Steenbeck, um fotógrafo de guerra que lida com a recente perda da esposa e que, ao longo da sua estadia na cidade, acaba por se envolver com a famosa atriz Midge Campbell.

Sendo os trabalhos de Wes Anderson geralmente povoados por uma miríade de personagens únicas, excêntricas e defeituosas, este não é uma exceção: desde as três filhas de Augie até ao dono do hotel em que este fica hospedado, todas cativam os espectadores e têm um momento de destaque. Ademais, o elenco de excelência da longa-metragem — com Jason Schwartzman, Scarlett Johansson, Edward Norton, Maya Hawke, Steve Carell e até mesmo uma breve aparência de Margot Robbie — faz com que a interpretação das personagens seja magistral, tendo cada uma as suas peculiaridades e características distintivas. Para além disso, a presença já constante de certos atores nas películas do diretor — como Tony Revolori, cujo papel nos relembra Zero em Grand Budapest Hotel — transmite uma certa nostalgia e parece, por vezes, uma subtil piada privada entre o realizador e os espectadores fiéis ao seu trabalho.

De forma ainda mais intensa do que as anteriores obras do realizador, Asteroid City reúne as comuns características de um filme realizado por Wes Anderson: a simetria e geometria cinematográfica, as vibrantes cores pastel que conferem à obra um certo caráter retro e o cuidado na organização de todo o cenário — todos aspetos que deixam claro quem o dirigiu — enriquecem a experiência e tornam-na visualmente muito agradável, não existindo um único elemento que pareça deslocado.

Em suma, a mais recente obra de poesia visual de Anderson não fica atrás dos seus sucessos anteriores: com o distinto elenco e a mestria da execução, esta tem o potencial para se tornar mais uma das obras-primas do realizador.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Aquele verão mágico

Next Post

O sonho independente

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Nada em ti

Não há nada de nada em ti. Nada. Esse olhar que guarda tudo aquilo que eu quero compreender, que exige silêncios…