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Crónicas

As histórias por trás de quatro artigos de 2020 (incluindo deste)

Sim, estou sem tema. Ainda pensei em falar sobre a angústia que é não ter tema. E isso levou-me a recordar o poema que um colega escreveu no segundo ciclo da escola. O primeiro verso era algo como: “Não sei o que escrever”. Do resto não me lembro. Só sei que, no final, bati palmas.

No meio desta linha de raciocínio, veio-me à memória um artigo da revista “Gerador”, em que a autora se lamentava, precisamente, sobre o facto de não saber sobre o que escrever naquela semana. O artigo era – pasmem-se – bastante extenso, metendo sociologia e muitas outras coisas interessantes pelo meio. Consciente de que talvez o meu artigo sobre nada pudesse vir a ser só mais um, abandonei a ideia.

Depois, pensei que o que era mesmo divertido de se fazer era um top dos anúncios de Natal que com mais lágrimas me haviam presenteado. Entretanto, acobardei-me ante a perspetiva de os rever e aqui estamos. Num sábado de manhã, com o sol surpreendentemente a bater na janela do quarto, após ontem ter nevado durante dois minutos. Assim, a solução mais consensual foi a criação básica de uma lista.

A selecção de artigos que se segue não tem em conta o número de (poucas) leituras alcançadas por cada um deles, mas, sim, as condições em que foram escritos. E, claro, são dos meus preferidos de 2020.

Quantas chaves tem o armário? A família, a educação e a política na vida de três portugueses homossexuais

Em fevereiro deste ano, apresentei ao editor do “Repórter Sombra” um artigo sobre a maravilha que é usar auscultadores no meio da cidade, de forma a ignorar mães a gritar, o barulho dos carros e as corridas para o metro. No e-mail de resposta, ele desafiava-me a escrever uma reportagem sobre um de dois temas: a vida de pessoas homossexuais ou a vida de artistas. Obviamente que o meu lado mordaz me levou a dizer sozinha que, muitas vezes, essas duas vidas são uma só. E a verdade é que as entrevistas feitas para a reportagem lançada em novembro acabaram por comprová-lo. No entanto, escolhi cingir-me ao primeiro tema.

Entre fevereiro e novembro, muito e nada se passou. Fui teimosa e disse que queria fazer as entrevistas cara a cara, que queria estar nos espaços que os entrevistados pisavam, que só assim é que poderia calçar melhor os seus sapatos e entender o seu dia-a-dia. Pois bem, um bicho que nem se vê foi mais teimoso do que eu e, no limite para a data de publicação da reportagem, convenci-me de que tinha de dar o braço a torcer. Sem precisar de usar auscultadores, sem as estradas apinhadas de carros e sem corridas para o metro.

As entrevistas foram feitas entre o Zoom e o Teams. Emocionei-me numa, fiquei de boca aberta, umas quantas vezes, noutra. Nada profissional, portanto. Ainda assim, no que escrevi, procurei manter a imparcialidade e cumprir os princípios jornalísticos que os meus pais pagaram para eu aprender.

Espero que isso esteja reflectido na reportagem, que veio reconfirmar que o jornalismo é uma paixão que não se perde. Mesmo quando a lei diz que não podemos pertencer-lhe a ele e à publicidade.

A COVID-19 já nos deu muitas oportunidades. Oportunidades para estarmos calados

Corro o risco de entrar em conflito com a entidade patronal, ao contar esta história, mas a verdade é que o meu trabalho não estava a ser aproveitado, nos minutos em que escrevi este artigo. E, verdade seja dita, foi escrito em tempo recorde. Levou-me uns quinze/vinte minutos, se tanto. Foi assim:

Após horas sentada numa cadeira imprópria para se estar sentado a trabalhar, sentei-me em cima da cama, com o computador sobre as pernas, durante mais uma interminável chamada pelo Teams. Este, aliás, foi um gesto que repeti várias vezes, em teletrabalho, no meu minúsculo quarto alugado.

Nessa ocasião em específico, não me recordo se o colega com quem estava a trabalhar partilhava o ecrã. É provável. Tenho a certeza é de que estavam três pessoas na chamada, eu não podia desligar, mas também não estava a ser muito útil. Horas antes, alguém tinha dito que estarmos no meio de uma pandemia era “uma oportunidade”. E eu ainda estava angustiada por ter ouvido isso, ao que se somou a chatice da dor das costas e os nervos por não estar a ser produtiva.

Então, as palavras começaram a sair de rajada na minha mente e, depois, pu-las todas no Word. Num instante, perguntei ao editor se podíamos adiar o artigo que deveria sair naquela semana e substituí-lo por este. Precisava que o meu “statement” fosse ouvido (lido). E assim foi. Tanto foi que, no dia seguinte à publicação, a minha ideia de que os erros de carácter pré-COVID serão os mesmos pós-COVID gerou discussão no Teams. Ai, o que me ri então, sentada naquela cadeira desconfortável!

Amor e uma cabal Distância

Amor e uma cabal Distância

Há dias que este título andava a martelar a minha cabeça (e no coração… ohhhh!). Faltava era sentar-me a desenvolvê-lo. Mas, por mais emoções que o artigo espelhe, desengane-se quem pensa que foi escrito no cenário idílico que associamos aos grandes romances. Ou, neste caso, às histórias de desamor que nos partem o coração.

Era uma sexta-feira à tarde e eu já estava finalmente a poder passar a semana na terra que me pertence, ajudada por um router que o patrão disponibilizara. O problema é que os dados da Internet eram limitados e rapidamente os esgotei no Teams. Desenrascada como um português digno desse nome, já havia passado a manhã na esplanada de um bar, com o Wi-Fi ligado. Mas, depois, o portátil ficou sem bateria e trabalhar no interior do bar era impossível, por causa da música alta. A solução foi ir para o café dos meus pais, sentar-me na ponta mais próxima da porta e rezar para que a Internet da Câmara Municipal não falhasse. Foi difícil, mas lá se aguentou.

Por isso, escrevi um dos artigos mais emotivos do ano sentada na ponta de um tasco, cheia de homens a beber copos de vinho e com o meu pai a avisá-los de cinco em cinco minutos para porem a máscara, para não se encostarem ao balcão e para rasparem as raspadinhas na rua. Pelo meio, lembro-me que discutiam quem estava em casa a receber sem fazer nada e quem estava em lay-off.

Tudo, enquanto eu despedaçava a minha alma ferida, na esperança de que a escrita a colasse aos poucos. E esse é, por norma, o objectivo dos artigos que aqui escrevo.

Florbela Caetano

Ligar o rádio é a primeira coisa que faço ao acordar. E isso já diz muito sobre uma jovem adulta, no século XXI. Como se este desajustamento não bastasse, gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Trabalho no primeiro. Procuro formas de me manter ligada ao segundo.

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