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Aos olhos de Deus

As pedras da calçada, por vezes, contam-nos histórias tristes e longínquas, que nos fazem pensar sobre o mundo e sobre as diversas sociedades que temos espalhadas por este planeta. Enquanto me preparava para escrever estas palavras, informando-me do tema que trago, li a carta que Reyhaneh Jabbari escreveu para a mãe, em Abril, meses antes de ser executada por enforcamento por ter matado o homem que a tentou violar. Confesso que senti um aperto no coração e comoveu-me, não por ser aquela situação em específico, mas sim por ver que, em pleno século XXI, o ser humano ainda é capaz de tanta falta de amor e de tanta discriminação.

Há 7 anos, esta mulher iraniana foi presa, após ter confessado o seu crime, o de se ter defendido dum homem que a tentou violar. Tinha apenas 19 anos. A sua confissão foi obtida por ameaças e tortura, segundo a ONU, e ficou 7 anos numa prisão iraniana, enquanto viveu um julgamento pouco claro, pouco justo, pouco sério, e, no Sábado, tornou-se mais uma das mais de 250 pessoas que já foram condenadas à pena de morte no Irão, só este ano. Sem uma investigação precisa e com uma parcialidade que só se justifica pelo total desrespeito e diminuição dos direitos das mulheres, que ainda é tão normal no mundo islâmico.

Nada tenho contra o islamismo, ou contra os países islâmicos, muito pelo contrário, são países com uma cultura belíssima e uma riqueza espiritual maravilhosa (espiritual, não religiosa, note-se bem). Contudo, torna-se cada vez mais flagrante a mentalidade restrita, fechada e discriminatória, que nada tem a ver com o Islão, mas sim com a vontade dos homens. Sim, dos homens, que continuam a dominar uma sociedade profundamente patriarcal, machista e, infelizmente, muito fechada. Olhar para este mundo real lembra-me a nossa própria história ocidental e os mais de dois milénios que vivemos em sociedades fechadas, com especial enfoque nos vários milénios de profunda e enclausurada mentalidade religiosa.

O Islão nada tem de diferente de nós, apenas 7 séculos de diferença, mais coisa menos coisa. Se pensarmos onde nós, sociedade ocidental estávamos há 7 séculos, provavelmente chegaremos à conclusão que eles até estão um pouco mais avançados do que nós estávamos por volta de 1300, ou 1400, ainda a caminho do Renascimento, ávidos de expansão, o que nos fez partir em busca de novos territórios, escravizar África e América, dizimar populações indígenas e explorar territórios até ao tutano. Não somos santos, mas hoje, com tudo o que já vivemos, temos a obrigação de trazer à luz a informação, a realidade, e mantermos acesa a esperança de que se mudem os tempos, que as discriminações terminem e que não vejamos mais em sexo, orientação sexual, religião, crença, ou cor da pele qualquer tipo de ameaça a uma suposta supremacia.

Reyhaneh Jabbari não foi uma vítima, nem uma mártir. Reyhaneh Jabbari era uma mulher que, na realidade, morreu aos 19 anos e passou 7 anos à espera que um sistema sedento de mostrar ao mundo o seu poder a executasse. O que ela passou em 7 anos numa prisão iraniana é inimaginável e incompreensível do ponto de vista de quem, como eu, nem sequer concebe que exista ainda, mesmo pelo mundo ocidental, países, ou estados com pena de morte. O problema da discriminação das mulheres não existe só no Médio Oriente, existe também no resto do Oriente, mas também ainda no Ocidente. A solução passa por olharmos de forma diferente para cada ser humano, vê-lo, precisamente, como humano e não como homem ou mulher, preto, branco, amarelo, hétero, homo, bi ou transsexual, cristão, católico, islâmico, budista, evangélico, hindu ou outra coisa qualquer, por aceitarmos que somos todos diferentes e por mostrarmos ao mundo que, ao mesmo tempo, podemos viver em prol de um bem comum. Contudo, para isso, é preciso largarmos a necessidade de poder, de riqueza, de ego.

Na carta que fez chegar à sua mãe, Reyhaneh Jabbari escreveu o seguinte: “Ensinaste-me que cada um de nós vem a este mundo para ganhar experiência e aprender uma lição e que cada pessoa que nasce tem uma responsabilidade depositada nos seus ombros. Aprendi que, por vezes, temos de lutar.” No entanto, eu digo, temos de continuar a lutar, sim, mas as armas têm, definitivamente, de ser diferentes.

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