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Anime: não é um género, é um meio.

Death Note e Death Parade

Anime (em japonês: アニメ): refere-se à animação em desenho animado. Erradamente do que se pensa, o Anime não é um género japonês. No Japão produzem-se filmes animados com conteúdos variados, dentro de todos os géneros possíveis: comédia, terror, drama, erótico, ficção científica, entre outros.

Numa noite…

– Já viste Death Note?

– Não.

– Já viste Ergo Proxy?

– Não.

– … E Paprika?

– Não.

– Já viste, alguma vez, algum Anime?

O olhar estende-se para o balcão do bar e imagina de imediato a conversa por terminada, uma vez que não tem qualquer argumento para expor nem razões plausíveis para justificar a não ser um bacoco “porque não gosto”.

– Não me digas que tens o preconceito estabelecido na tua cabeça em relação a Anime… – pergunta retoricamente após ver a involuntária expressão facial.

– Não tenho preconceito nenhum. Não gosto e não tenho tempo para ver desenhos animados japoneses.

– Alguns Anime não são apenas “desenhos animados”. Nem eróticos, como muitos pensam. – disse-o como se tivesse poderes telepáticos. – Podem ser, é certo, mas não é o caso de Death Note. Definitivamente, não é.

– Está bem…

– Vê o Death Note. Faz um favor a ti própria. Tu vais gostar. Eu sei. Eu conheço-te.

– Não tenho tempo.

– Ok… Vê três episódios. Vê e agradeces-me depois.

Numa outra noite…

– Então? Já viste os três episódios de Death Note como te pedi?

– Sim.

– E…?

– Já vou no décimo episódio!

E a minha jornada para o mundo de Anime deu-se, após este diálogo.

Em conversa de circunstância e após ceder ao pedido de alguém que me conhecia – e conhece – efectivamente, tanto a mim como às minhas preferências, consegui ver numa outra óptica e perceber que, afinal, os Anime não são apenas desenhos animados japoneses ocos e vazios, como eu tanto crera durante anos, sem dar qualquer chance nem qualquer benefício da dúvida.

Claro que não poderia ter começado melhor esta viagem… Death Note, uma série de Mangá escrita por Tsugumi Ohba e ilustrada por Takeshi Obataelevou, elevara de tal forma a fasquia, tanto a nível de enredo, plot twists e jogos psicológicos que será, talvez, a melhor série de Anime já lançada, até onde vai o meu conhecimento.

Death Note

Entre regras escritas como prólogo no caderno, entre diálogos e conversas de Light, personagem principal, e Ryuk, o Shinigami, deus dos mortos e proprietário original deste caderno, a inteligência e poder de raciocínio de L, detective privado, a história, a trama e o enredo é, indiscutivelmente, soberba!

“Um estudante, de repente, encontra um caderno que caiu do céu. Trata-se do Death Note, que permite ao seu portador matar qualquer pessoa a partir da mera anotação do nome do alvo em uma das suas páginas. Sob a influência de Ryuk, dono do caderno, ele passa a usá-lo para eliminar criminosos e pessoas que escaparam da justiça. A súbita onda de assassinatos faz com que ele seja endeusado por muitos, que o apelidam de Kira, mas também atrai a atenção de um enigmático e brilhante detective, chamado L.”

Sinopses à parte, imaginem este enquadramento no mundo real?

Ou imaginem-se com este poder?

Imaginem-se ter um caderno que vos permitisse assassinar as pessoas apenas colocando o nome completo no caderno e visualizando mentalmente o rosto delas? Imaginem-se escolher a causa da morte? Ou, ainda mais simples: se não escolhessem o modus operandi, após 40 segundos do nome ser escrito, a pessoa morreria de ataque cardíaco. Simples.

Imaginem-se a brincar de Deus, todo poderoso? Pensando de través, seria a oportunidade da qual muitos desejariam: justiça seria feita e, com este caderno sobrenatural e poderoso, o mundo seria limpo de criminosos hediondos.

Contudo, o Homem não é tão linear e, na série de Anime, isso é retratado de forma divinal. O simples facto da possibilidade de ter este poder como um deus, escolher quem vive ou quem morre, independentemente das razões, levariam o portador do caderno à loucura.

Quem teria capacidade de controlo sobre tal domínio? Uma coisa é matar criminosos vis que já por si, esta decisão, teria pano para mangas pois a pena de morte não é defendida por todos; outra coisa é ter a possibilidade de matar o carteiro porque o nosso cão não gosta dele. E, só com este exemplo, iniciar-se-ia a bola de neve…

Se em contexto normal, o desejo do poder e de dominação é um desejo comum a quase todos os seres humanos, quanto mais com um artefacto que oferecesse, verdadeiramente, o poder, de forma literal, nas mãos. Por mais boas intenções que se tivesse inicialmente, seria de esperar que a médio/ longo prazo, as coisas não poderiam correr de feição e esse deus justiceiro inicial rapidamente nos transformaria como espelho dos tais criminosos hediondos.

Ao longo desta série de Anime, encontramos várias facetas de Light, o proprietário do caderno no mundo dos humanos. Vemo-lo, inicialmente, como um justiceiro e defensor dos pobres e oprimidos, vemo-lo com o desejo de poder e dominação, instintos provocatórios e desafiadores vão surgindo, a frieza e a extrema inteligência calculista será notória e cativante até chegarmos, no final, à frustração, conflito e desespero. Tal e qual como seria com o Homem, no mundo real.

Curiosamente, este Anime foi banido na China, devido ao elevado sucesso que teve entre as crianças. Estas começaram uma busca incessante a cadernos semelhantes ao de Death Note e escreviam uma lista de nomes de pessoas que, enfim, queriam que morressem. Tem tanto de incrível como de assustador esta sede de querer tal poder, mesmo referindo-nos a crianças…

Note-se que Death Note foi adaptado em séries, filmes, live-actions e, até, em musicais.

É de referir, no entanto, que, sem a menor dúvida, o que vale a pena ver – para quem não conhece ou para quem nunca viu -, é a série de Anime produzida pela Madhouse e dirigida por Tetsurō Araki, em 2006, composta por 37 episódios.

Embora a 2ª Temporada de Death Note seja alvo de críticas pois, para alguns – onde a minha opinião se inclui – seria desnecessário certas e determinadas situações (e personagens) que só quem conhece e viu me compreenderá (e concordará, tenho a certeza), não deixa de ser, de todo, uma história com uma lição para preservar.

Daqui, retemos que o Homem não tem auto-domínio suficiente para escolher, em sua perspectiva o bem e o mal, o bom e o mau, e que, infelizmente, não teríamos, de todo, a capacidade para lidarmos com tal poderio.

Death Note

Posto isto e como dito, foi com esta história para a qual fui brindada em Anime. Dei a mão à palmatoria e admito que os Anime não são aquilo que idealizara, sem qualquer motivo legítimo.

Curioso é o facto pelo qual este género de animação ter um nome próprio, pois “Anime” é o único termo usado para definir um desenho animado em específico. Contudo, como o Japão é peculiar no seu mais variado sentido, porque não ter a exclusividade em um nome? É de interesse, também, referir que o primeiro formato de Anime de que há registo no Japão, foi criado em 1907.

Histórias mais famosas saídas de Mangás (banda desenhada japonesa lidas de trás para a frente) e, consequentemente, criações em Anime são o Dragon Ball, Pokemón, Yu-Gi-Oh! – géneros, dos quais, já pouco me interessam ou cativam (não me condenem!) e, por essa razão, não posso ser chamada, de longe, de Otaku: termo usado para referir a todos aqueles que são fãs – muito fãs -, no seu real sentido da palavra.

Contudo, porém, além da magnifica história de Death Note, apresentou-se uma outra história de elevada fasquia dado à sua essência profunda: Death Parade.

Death Parade

Esta série, de 2015, criada, escrita e dirigida por Yuzuru Tachikawa e produzida, também, pela Madhouse, surgiu a partir da curta Death Billiards. Esta responde à pergunta para um milhão: o que há depois da morte? Há um bar e o seu bartender Decim…

“Sempre que duas pessoas morrem em simultâneo, são enviadas para a reencarnação ou para o vácuo. Acabam por parar no Quindecim, um bar onde um bartender misterioso de cabelos brancos, chamado Decim, trabalha. Todos que vão para este lugar são desafiados a jogar vários tipos de jogos mortais, onde as suas verdadeiras personalidades são reveladas, sendo que no final, é decidido pelo árbitro se os participantes irão para a reencarnação ou para o vácuo.”

Uma série tanto agitada como conflituosa, a frustração e o lado mais negro de cada pessoa é invocado à medida que o jogo decorre e o egoísmo psicológico e ético é despertado.

Colocando as pessoas em situações extremas durante os jogos, Decim, o juíz, consegue revelar a verdadeira personalidade de cada pessoa em jogo, o quão negra ela pode ser, conseguindo, de forma justa (ou não, quem sabe?), assim, julgar e enviar cada alma para onde é merecida: para a reencarnação ou para o vácuo.

É impossível o espectador não se envolver com cada personagem, com cada história, colocando-se, involuntária e inconscientemente, no papel do próprio juiz.

De forma impressionante e dramática, esta série, de 12 episódios, mostra-nos como uma pessoa pode ser desumana, sombria, impiedosa e cruel se a vida e alma de cada um é colocada em jogo.

Death Parade

Para mim e é manifestamente a minha opinião e preferência, tiro o chapéu a estas duas séries e qualquer uma que se assemelhe a este género. Verdade seja dita: há muita oferta de Anime para os mais variados gostos. Quero acreditar que haverá um, pelo menos um, que seja do agrado para quem é como eu fui outrora: nunca viu por ter algum género de conceito pré-concebido.

No Japão, os Mangás, as bandas desenhadas, são impressionantemente importantes e respeitáveis: além de praticamente todos os Mangás serem desenhados à mão, a verdade é que há mais papel a ser impresso para os mesmos que propriamente papel fabricado para o papel higiénico!

Por outro lado, como em tudo, o lado negro da indústria do Mangá/ Anime é desoladora e sombria.

Além da habilidade incrível para desenhar à mão, já para não falar da história e enredo, e da experiência para fazê-lo em tempo sónico, não há propriamente profissionais qualificados a sobrar para tal proeza. O que há são freelancers completamente apaixonados por Anime.

A ameaça industrial e económica contra a perfeição artística obriga os criadores/ animadores a tal pressão que se pode traduzir em exploração, escravidão e, até, em suicídio. Que fique ciente: um desenho pode levar até uma hora a ser elaborado se levarmos em conta todos os pormenores e detalhes inerentes à história, ignorados muitas vezes pelo Ocidente, como por exemplo, as paisagens, a comida, a arquitectura…

Entenda-se que as condições de trabalho ficam aquém do que é considerado ideal e merecedor.

Há menos de um ano, o estúdio Madhouse foi acusado de violar o código de trabalho, quando foi apurado que funcionários estariam a trabalhar mais de 400 horas por mês e com 37 dias de trabalho consecutivos, sem folgas. Em 2014, um suicídio de um animador foi classificado como um incidente relacionado com o trabalho, após a investigação ter levado a cabo à descoberta de que o mesmo teria trabalhado 600 horas no mês anterior da sua morte.

Posto isto e colocando o lado sombrio na borda do prato, os Anime ganharam terreno e muitos fãs, a nível mundial.

A sua característica própria, traços exagerados, onde as expressões faciais e sentimentos são predominantes e a onomatopeias dominam, este conceito de ser um meio – e não um género -, pode significar a exploração de um outro mundo, domínio e ensinamento, dependendo, claro está, de qual Anime escolhem.

Escolham com sabedoria e comedimento, tendo em conta as preferências de cada um, e prometo que irão apreciar.

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Rita Morais de Oliveira

Sem apresentações hollywodianas, nasci em 1988 no Nordeste Transmontano, Portugal. Encontrei o meu habitat na escrita desde que comecei a ler e a escrever. Nos meus tempos livres, além de Freelancer de Conteúdos, também sou uma aspirante escritora em (eterna) construção e indiscutivelmente contra o Novo Acordo Ortográfico. Com dois contos editados nas Antologias "À Margem da Sanidade" e "O Penhasco"; outro publicado na Revista Pulp Fiction e um livro em criação. Prevalece sempre o mesmo género literário: policial, thriller, suspense e algum terror psicológico. Como o nosso velho amigo Albert Einstein disse: "Criatividade é inteligência divertindo-se."

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