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Água e amor

De novo encontraram-se, ele e ela, cena repetida sem qualquer intento. Encontraram-se no começo daquele caminho de terra ladeado de árvores e arbustos. Era um caminho belo, de piso dourado e o verde pontuado pelas cores alegres das amoras. Mas era também um caminho difícil, pouco usado, com íngremes subidas e descidas. Encontravam-se ali muitas vezes, sem nunca o combinarem, apenas por um repetitivo acaso proporcionado pela vida que levavam. Cada um surgia com um balde na mão, para cumprir a sua tarefa de ir buscar água ao poço.

Como sempre, sorriram timidamente quando se colocaram lado a lado e iniciaram a caminhada. Iam ensaiando temas de conversa que os faziam sorrir enquanto combatiam a timidez. Levou-lhes muito tempo aprender a ter o outro ao lado naquele caminho. Naquele dia, a meio do percurso, tocaram-se. Ele na mão dela, ela na mão dele. De novo sorriram, agora nos olhos um do outro, sem conseguirem mascarar a inocência própria da jovem idade que ambos partilhavam. Deram as mãos que se haviam tocado e continuaram num silêncio confortável.

Findo o caminho, chegaram ao poço. Lançaram à vez o balde atado a uma corda. Primeiro ele. Sem esforço viu subir o balde cheio de água fresca. Depois ela. Ele ajudou-a a puxar a corda com o balde cheio. Entregou-lho e ela agradeceu-lhe com um beijo na face. Silenciaram-se e sorriram. Ele deu-lhe um fugaz e envergonhado beijo nos lábios e correu em volta a cantar. Ela riu-se, ele alegrava-se e ambos libertaram-se da timidez. Então ele pegou nela num momento inesperado. Segurou-a pela mão e puxou-a consigo correndo para o ribeiro que corria calmo ali ao lado.

Tiraram as roupas entre olhares envergonhados e banharam-se nas águas límpidas do ribeiro. Riram, gritaram, brincaram. Perderam a noção do tempo enquanto atiravam com água um ou outro. Dançaram naquelas águas sem sinais de timidez ou embaraço pela nudez. A inocência ensinava-lhes a viver. Então ele segurou-a, puxou-a para si e tomou-a nos seus braços. Ela sentiu-se agradecida por ser quem era e por lhe ser permitido estar ali. Olhou para ele, viu um rei que há pouco tempo era um campónio e beijou-o. Beijaram-se com a paixão que nunca haviam conhecido.

Mas sentiram o peso do tempo. Vestiram-se rapidamente, pegaram nos baldes com a água fresca e correram de volta pelo caminho de terra. Ele na frente segurando-a pela mão, ela atrás deixando-se levar, mas exteriorizando uma preocupação crescente. “Espera, estás a ir muito rápido” disse-lhe. Ele respondeu sem nunca abrandar o passo, “O sol está a pôr-se. Temos que chegar depressa para contar ao mundo que descobrimos este nosso amor.” Continuou em ritmo apressado, os baldes balançando perigosamente e salpicando cada vez mais água para o chão poeirento. Foi então que ele tropeçou na raiz de uma árvore que rasgava o caminho na sua frente. Tropeçou e caiu. E não teve tempo de soltar a mão dela. Acabou por a arrastar consigo para o chão. Os baldes tombaram e a água fresca secou e perdeu-se.

Quando chegaram ao fim do caminho, ele tinha uma lágrima no olho. Estava envergonhado e triste consigo próprio. Ela, também de semblante triste, disse-lhe com simplicidade: “Esta tarde foi maravilhosa! A melhor da minha vida. Mas agora os baldes estão vazios. Esqueceste-te que tínhamos uma tarefa para cumprir.”

Despediram-se com silêncio.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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