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Abanar a árvore para as folhas velhas caírem

Há pessoas e pessoas (nem sempre percebemos isso), mas a verdade é que há pessoas, de momentos, de fases e há as outras que são de vida.

Costumo pensar muitas vezes que tenho muita sorte com as minhas pessoas e tive ainda mais nas que já foram “minhas” e já não são – mesmo essas foram importantes e tão “minhas”.

Penso muitas vezes que, ao fim de tantos anos, consigo ler melhor os outros, olhar para mim e escolher, o que implica escolher-me a mim. Na prática, o exercício seria fácil se quiséssemos realmente perceber “quem está”, “quem finge estar”, “quem está, mas nunca esteve” e, o pior de tudo, “quem esteve e já não está”.

O que é tão difícil neste processo é que temos que abanar a árvore para fazer cair as folhas velhas (sem desprimor ou desprestígio), mas ver, aceitar e desapegar das pessoas tóxicas, das pessoas que te levam para trás e nunca para a frente, que dizem mal de tudo e todos – as chamadas pessoas “cemitério”. Sim, estas pessoas estão relacionadas com a morte, porque acrescentam tão pouco ou nada, que só estão bem num sítio escuro debaixo da terra e querem-te lá com elas. Estas são fáceis de identificar: olha à tua volta e vê quem tem contigo conversas sobre os outros e pouco sobre elas ou sobre ti. Sabes o que elas fazem depois? Falam mal de ti como falam a ti dos outros.

Enterra-as. Tiveram o seu propósito, mas avança sem dó nem piedade.

Depois temos as mornas, que não aquecem nem arrefecem e que não sabem nada da tua vida, mas fazes questão de as convidar para o teu aniversário, jantar de natal e manter todas as tradições que faziam há 20 anos. Só que isso já não faz qualquer sentido, mesmo que seja a tua melhor amiga de infância ou a tua vizinha de sempre. Seja quem for, não a mantenhas só para manter a tradição e apenas para marcar passo. Liberta-te e também as vais estar a libertar. Não duvides, continua a sacudir a árvore.

Existem ainda aquelas pessoas de estão e fazem parte, mesmo que não seja diariamente na tua vida, mesmo que não falem um mês inteiro, mas, quando é preciso, estão e quando não é preciso parece que o tempo não passou. Estas, são as que encontras por acaso na rua e as abraças como se as tivesses visto ontem, contas-lhe a tua vida em três tempos e percebes que elas te continuam a conhecer e a reconhecer. Estas valem a pena, porque estão e ficam. Estão à distância de um telefonema e nunca suficientemente longe que não se possa fazer perto.

Por fim, existem aquelas pessoas que nem ficam, nem vão… simplesmente, estão. Só que estar é muito mais que falar, ou ligar, ou partilhar. Estas são mesmo raras, por isso, para e pensa quantas pessoas tens destas na tua vida. Agarra-as com toda a força e nunca as deixes fugir.

Estas reconhecem-se facilmente. São aquelas que olham para ti e que te conhecem como a palma das mãos. Conhecem os teus piores defeitos, as manias mais nefastas e gostam de ti como és, não te trocariam por nada, por ninguém. És a sua prioridade, quando precisas e sabem respeitar o teu espaço sem invasões ou perguntas. Estas são as pessoas Sol, as pessoas Luz e são raras:

  • Porque ficam realmente felizes por ti, sem qualquer egoísmo ou inveja – só felizes.
  • Porque muitas vezes fazem sacrifícios que tu nem tens de pedir.
  • Porque apoiam-te incondicionalmente, mesmo que não concordem com as tuas escolhas.
  • Porque te dizem as verdades, por mais duras que sejam.
  • Porque estão lá para te limpar as lagrimas, segurar o cabelo em cima de uma sanita, ou simplesmente a dar-te colo em silêncio.
  • Porque não te mentem, não te escondem, defendem-te e nunca deixam de se sentir orgulhosos de ti, mesmo que o teu maior feito seja ter ganho o campeonato de berlinde já só no lar de idosos.

Reconhecer estas últimas é do mais fácil que há, mesmo que às vezes o grupo vá reduzindo, porque existiam pessoas que não o eram de facto. As que realmente o são, com o passar do tempo, não abandonam e têm um lugar cativo com testamento até à morte.

E nenhum destes grupos de pessoas, se identifica “temporalmente”. Existem pessoas cemitério que conhecemos desde sempre e outras só conhecemos ontem. Existem pessoas no último grupo que conhecemos na semana passada e vieram para ficar. Todas valem a pena, todas deixaram a sua marca, mas sem culpa deixa-as ir ou convida-as delicadamente a ir. Não te martirizes com enganos ou erros na catalogação, porque isso é o menos importante no caminho.

O importante é parar um minuto. Podes parar agora e pensar quantas pessoas tens? Que tipo de pessoas tens à tua volta?

Eu já parei e sou uma sortuda, abano a árvore de tempo em tempos, reorganizo-me e indiretamente também me tiram de jogo, mas, quando faço uma retrospetiva dos últimos anos da minha vida, é tão fácil perceber que, nos momentos mais felizes e nos mais tristes, são sempre as mesmas pessoas que estão ao meu lado, sempre com as suas mãos, para me bater palmas ou para me estenderem um lenço.

A estas pessoas, às que foram, às que não foram, mas deviam ir, às que estão e, principalmente, às que vão continuar a estar, obrigada, porque, como alguém sábio disse, não importa o que tens na vida, mas quem tens na vida.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico

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