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A Paciência tem Limites

Jean Jacques Rosseau disse que “a paciência é amarga, mas o fruto dela é doce.”

A tamareira leva entre setenta e cem anos a dar os seus frutos e podemos dizer que é um dos mais gulosos. Quem a planta não lhe colhe os frutos, cultiva para que a próxima geração e as seguintes possam usufruir dela.

A paciência é um estado de espírito, uma virtude na personalidade de algumas pessoas e, com o tempo, esse dom tem vindo a desvanecer, habitualmente quem é paciente é visto como submisso ou estranho.

A chegada da era digital não coadjuvou com este aspecto, sobrecarregando assim as expectativas de encaixar as vinte e quatro horas para todos os afazeres.

Em tempos, por exemplo, escreviam-se cartas para comunicar com familiares, amigos ou conhecidos distantes, levasse o tempo que fosse, existia resposta e aguardava-se ansiosamente para voltar a escrever, agora com a acessibilidade na palma da mão, estão muito ocupados, fazem-se de esquecidos ou realmente não querem saber.

“Mensagem lida às 11h10”, sem resposta…

O facilitismo dos tempos tornou a humanidade insuportavelmente instantânea.

Não há paciência para chegar do ponto A ao ponto B sem protestar, ela não existe para acontecimentos que contrariem as expectações pessoais. Não há suporte para gerações que querem tudo para ontem, não é ao acaso que uma das maiores doenças da atualidade é a ansiedade, o excesso de pensar no futuro e nas suas consequências que se querem ou não.

Ser paciente é ser educado e saber agir com calma e tolerância perante os momentos mais confrangedores. É cada vez mais visível os dilemas das filas de supermercado, o bufar incessante começa após cinco minutos. Esperavam o quê de uma reunião em massa?

Já não se aprecia um bom vinho em silêncio, emborcam a garrafa porque querem a chegada do torpor rapidamente.

Nascemos já com a ideia de competição e as pessoas que carregam esta dádiva fazem parte de dois extremos, elas são benevolentes ou muito vingativas.

Agora respondo ao potencial desta aprendizagem que nos torna pessoas persistentes, resilientes, capazes de dominar emocionalmente as consequências do dia-a-dia, independentemente do seu desfecho, ao mesmo tempo eleva a sabedoria de alguém que tem a capacidade de registar com calma o que acontece ao seu redor, solucionando com mais precisão.

Segue-se adiante e sem medo de errar, já com um não garantido e se não resultar, não se chora, vai mais uma vez, aperfeiçoa até conseguir.

Faz falta esta capacidade, a paciência traz equilíbrio e harmonia à vida que já de si é caótica. Estamos na época do barulho social, da poluição sonora, visual e outras tantas que conseguem dilacerar este efeito.

Uma sociedade que quer apenas gerar números não importa como, só o já, esquece-se que as melhores obras de arte levaram anos a ser criadas, as absides não se pintavam de um dia para o outro, a Mona lisa levou cerca de três anos a ser criada e uma das obras mais conhecidas da capela Sistina, “A criação de Adão”, foi idealizada e finalizada em quatro anos.

As próprias redes sociais estão em constante desenvolvimento, começam por ser um espaço limitado e vão expandindo até se tornarem úteis a nível mundial, o trabalho é constante até dar os seus frutos.

A determinação é aliada do sacrifício que poucos estão dispostos a fazer, o desejo era que tivessem nascido em berço de ouro movidos pela preguiça, desabituaram-se a reter conhecimento, a memória parece que já não tem espaço porque num arrastar de dedo na tela obtêm a resposta para tudo.

Nasci entre o fim e o início de duas gerações, passei de um século para o outro e apesar de não guardar muito do século XX ainda vivi um pouco do que era saber esperar que a publicidade passasse para acabar de ver o filme na televisão, ter somente meia dúzia de canais, usar a imaginação para passar as horas, sempre pacientemente e atenta ao que me rodeava.

São tempos que não voltam mais, e a humanidade já não se contenta com o que tem, procura sempre mais, almeja o que o próximo tem, mas quer dado de bandeja, sentada na sombra e enfurecida como uma criança birrenta que não foi educada para saber agir e esperar.

Enfim… paciência.

Nota: Este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo acordo ortográfico.

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Comments 12
  1. A pressa é inimiga da perfeição! É um provérbio que continua válido. Para colhermos bons frutos, temos de deixar amadurece-los. Parabéns pela crónica sobre a paciência. Haja paciência !

  2. Diana, artigo oportuno e urgente para ser lido e analisado por esta geração que, pelo visto, tendo tudo de mão beijada, não valoriza o sacrifício e não é conhecedora da opressão, assim como da luta diária daqueles que sofrem para ter o que almejam, algo, que agora têm num piscar de olhos. Facilitismo absoluto sem valorizar quem não tem absolutamente nada. Parabéns pela mensagem!

    1. Ora nem mais Olinda. No fim grande parte da humanidade não consegue ver com clareza que são mais meio termo do que desafios completos. Obrigada.

  3. Sim, haja paciência para tanta falta de paciência!
    Este assunto é mais um cancro da sociedade atual.
    Parabéns pelo artigo.

    1. Muito obrigada Margarida, sim de facto é um assunto inesgotável nos debates e perspectivas, mas até para o debater há falta dela. Ironia não é?

    1. Obrigada eu Paula por ter apreciado. Há quem nasça com ela, há quem vá aprendendo com o tempo e sempre é melhor assim do que para quem não aprende.

  4. Cada vez mais os jovens são impacientes, o que gera intolerância, o que gera atrito social, o que gera discórdia e discurso de ódio. Ninguém se ouve, porque as pessoas não têm paciência para compreender o ponto de vista do outro. Que falta faz a ponderação na sociedade actual, que leva tudo cada vez mais ao limite.

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