A minha vida e as minhas experiências com a verdade, de M. Gandhi

Este livro foi uma surpresa. Não esperava tanto detalhe, imensos detalhes em demasiados capítulos, nem esperava uma autenticidade tão crua, algo anormal em autobiografias. Gandhi explora a sua dimensão física, mental e espiritual, levando-nos para uma viagem onde a verdade, a dieta, a preocupação pelo próximo e a não-violência são as dimensões fundamentais. Por isto, era esperado algo mais, não em quantidade, característica bem explorada no livro, mas na mensagem que não foi conseguida.

O início dJM_aminhavidaeasminhasexperienciascomaverdade_1o livro é prometedor. Gandhi transporta-nos para a sua terra natal, uma pequena povoação indiana, e retrata, ainda que de forma breve, alguns episódios da sua infância e consequente relação com os seus pais e irmãos. A primeira grande viagem surge ainda na adolescência, com o objectivo de estudar advocacia em Inglaterra, deixando para trás a família, esposa e filho – sim, Gandhi casou-se aos treze anos, “lembrança amarga” para o autor. Para meu desânimo, as aventuras de Gandhi em Inglaterra foram curtas ou pouco exploradas. Toda a atenção centra-se nos problemas, trabalhos e projectos iniciados, entre viagens constantes, tanto na Índia como na África do Sul. Com o intuito de trabalhar na área de formação, Gandhi utilizou a advocacia apenas como porta de entrada. Todo o seu trabalho de destaque centrou-se no trabalho comunitário junto dos indianos, no seu país natal e na África do Sul, na defesa dos direitos dos emigrantes indianos nesse país africano, e na comunicação e inspiração de um estilo de vida dedicado ao próximo e à verdade espiritual.

Ainda assim e com muita pena minha, a discussão teológica não é muito explorada. Gandhi preferiu explorar a sua vida até à altura onde já se tornara reconhecido em todo o globo, mas pecou em optar por demasiados detalhes, demasiados episódios sem interesse, uma diversidade de nomes que poucas vezes nos relembramos e, por isso, Gandhi pouco explorou a sua vida pessoal. A sua relação com a esposa podia e devia ter sido mais explorada – neste aspecto, Gandhi não escondeu os seus preconceitos iniciais e os problemas na relação com Kasturba. E aqui, começa, não termina, a aventura de Mohandas K. Gandhi.

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