A Importância do Mito na Estrutura Psíquica

Os Mitos são narrativas reguladoras da história da Humanidade. Se os Arquétipos, segundo a Psicologia Analítica, são a contraparte psíquica dos instintos, os Mitos são a materialização desses mesmos Arquétipos que se organizam em narrativas estruturantes na vida do Homem desde sempre. Hoje abordaremos o mito de Sísifo.

O Mito de Sísifo

Sísifo, era rei da Tessália e de Enarete, fundador da cidade de Éfira, que mais tarde veio a chamar-se Corinto. Tinha a reputação de ser o mais habilidoso dos homens e dizia-se que era pai de Ulisses. Despertou a ira de Zeus quando contou ao deus dos rios, Asopo, que Zeus tinha sequestrado a sua filha Egina. Zeus enviou o deus da morte, Tanatos, perseguir Sísifo, mas este conseguiu enganá-lo e prender Tanatos. A prisão de Tanatos impedia que os mortos pudessem alcançar o Reino das Trevas, tendo sido necessário que fosse libertado por Ares. Foi então que Sísifo, não podendo escapar ao seu destino de morte, instruiu a sua mulher a não lhe prestar exéquias fúnebres.

Quando chegou ao mundo dos mortos, queixou-se a Hades da negligência da sua mulher e pediu-lhe para voltar ao mundo dos vivos apenas por um curto período, para a castigar. Hades deu-lhe permissão para regressar, mas quando Sísifo voltou ao mundo dos vivos, não quis mais voltar ao mundo dos mortos. Hermes, o deus mensageiro e condutor das almas para o Além, decidiu então castigá-lo pessoalmente, infligindo-lhe um duro castigo, pior do que a morte. Sísifo foi condenado para todo o sempre a empurrar uma pedra até ao cimo de um monte, caindo a pedra invariavelmente da montanha sempre que o topo era atingido. Este processo seria repetido para sempre.

O saber desistir como “humildação do Ego”

O grande pecado de Sísifo não foi desafiar ou até desobedecer aos deuses. Até porque todos nós desafiamos os Deuses ao abandonar as nossas famílias, saindo para a Jornada do Herói. A viagem de autodescoberta chamada vida é sempre um desafio dos Deuses. É sempre uma rotura com as normas vigentes e uma quebra nas correntes familiares. Temos de desafiar os Deuses para nos descobrirmos. Contudo, o problema de Sísifo foi outro. Foi a amplificação do seu Ego. Sísifo não foi capaz de recuar e perceber que no desistir também existe mérito. No largar a corda. No deixar ir. Aceitar que umas vezes se ganham, outras perdem-se. Sísifo não aceitou que homens e Deuses seriam diferentes e quis mais do que a sua Natureza. O castigo é, então, a infinita repetição de um padrão disfuncional. E quantos de nós, como Sísifo, não repetem padrões disfuncionais desde que têm memória, numa espécie de loop psíquico à moda de Sísifo?

O Sacrum Opfício de saber perder

Sacrum Opfício é a origem da palavra Sacrifício. Refere-se ao trabalho sagrado que, no fundo, é o que nos permite transcender o nosso Ego. Por trabalho sagrado entenda-se a renúncia a algo em prol de um sentido maior. O sacrifício que Sísifo não soube fazer foi desistir, porque desistir seria humilhante, seria “dar o braço a torcer”, seria esmagador para o seu Ego frágil que precisava dessa convicção para não desabar. Sísifo não aceitou a sua condição. Não humildou o seu Ego.

Abrir mão e perder uma batalha é sinal de humildade e não de fraqueza. Saber que lutas são necessárias e quais as que são apenas caprichos Egóicos que visam ampliar uma fragilidade interna é uma virtude. Lembrem-se que quanto mais forte a Máscara que cada um usa, mais frágil o Ego, a sua espinha psíquica. E, por isso, mais dificilmente se irá humildar. Não se humildando, irá perpetuar como Sísifo, a repetição das suas falhas até não ser mais tolerável.

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Tatiana Santos – Psicóloga Analítica

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