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PolíticaPortugal

A importância de um nome.

Comecemos esta crónica com este exercício analítico: uma empresa está a precisar de um colaborador para determinado departamento. Fico interessada nesse cargo, tenho as qualificações necessárias, logo, envio a minha candidatura para o email disponível no anúncio. Noutro ponto da cidade, existe uma outra pessoa interessada neste cargo. Esta pessoa tem também as qualificações necessárias mas para além disto tem um nome dito influente. A candidatura é também enviada, mas em vez de seguir para o email que consta no anúncio, segue directamente para o email do director dos recursos humanos da empresa pois quem tem apelidos influentes, de uma maneira geral, tem acesso aos emails mais certeiros. Escusado será fazer uma análise exaustiva ao candidato que fica com o cargo pois é quase óbvio.

Feito o exercício, esta situação é-vos familiar? E em que dimensões da sociedade já assistimos a situações semelhantes? Podemos dizer, com alguma segurança, que praticamente em todas. Esta dinâmica é de tal forma recorrente que já ganhou contornos de brincadeira nacional. É habitual o comum cidadão olhar para a classe política ou intelectual e afirmar: são sempre os mesmos. São sempre os mesmos a ter conhecimentos políticos passíveis de fazer análise política na televisão. São sempre os mesmos a chegar a cargos públicos relevantes. São sempre os mesmos a ter acesso a lugares intelectuais de destaque. Salvo algumas excepções, pois já se sabe que não existe regra sem excepção, parece que existe um muro erguido pela própria elite intelectual como se estes fossem os únicos cujas opiniões fossem válidas e esclarecidas de forma a chegar ao grande público.

Não entrando em populismos e afastando por completo posições sociais discriminatórias de alguns portugueses “de bem” (tendência que infelizmente se tem vindo a verificar no nosso cenário político), é preocupante a falta de abertura a novas formas de pensar, a novas maneiras de analisar a sociedade, a novos estímulos intelectuais. Por outro lado, para o cidadão comum, a entrada ou o acesso à elite intelectual como novo membro ganha contornos de processo kafkiano onde tudo se revela tão complicado e labiríntico que a bem da sanidade mental o mais sensato é pura e simplesmente desistir. Existe uma cortina invisível que separa a sociedade intelectualmente esclarecida e de onde advém um estatuto tido como superior, da restante sociedade que também opina de forma conhecedora e sensata mas cuja opinião não é tida em conta porque não tem um apelido sonante ou não é afilhado de alguma personalidade influente. Este muro estende-se ao mercado laboral, ao acesso igualitário a novas oportunidades e até mesmo à participação activa na vida pública.

Sendo a igualdade de todos os cidadãos um princípio constitucional, é condenável um Estado que se diz de direito limitar, mesmo que inadvertidamente, as pontes a nível intelectual entre todos os sectores da sociedade. Existe claramente um conjunto de privilegiados a quem tudo é ouvido e considerado e uma sociedade que resta com vontade, bom senso e capacidade mas sem acesso à porta principal.

Rita Ramos

Escrevermos sobre nós próprios, no sentido de nos darmos a conhecer a quem nos lê, acaba sempre por ser ingrato. Somos um nome? Uma idade? Uma formação académica? Eu quero acreditar que somos tudo o que vivemos, que somos tudo o que nos rodeia e que absorvemos, que somos quem amamos, que somos os livros que lemos e as viagens que fazemos. Somos um conjunto de tudo e de nada. Quanto a mim, sou a Rita, tenho 37 anos, sou licenciada em Relações Internacionais, sou casada, sou filha e mãe, e as palavras têm sido a minha maior companhia ao longo da vida.

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