A imoralidade da Europa

A Europa vive nos resquícios das feridas nunca saradas das duas Grandes Guerras, que no século passado assolaram este recanto do mundo.

O fim da Segunda Guerra Mundial dividiu o mundo em dois. A carne dilacerada e estropiada nos campos de batalha nunca foi devidamente enterrada, nem o devido luto foi efectuado, e, tal como a I Guerra Mundial despoletou a II Grande Guerra, vivemos entre essas feridas profundas e nunca devidamente tratadas.

O presente é herança do passado, tal como o futuro será herança do presente. A Europa construiu-se sobre ilusões e com as desilusões se destrói. Portugal não é excepção.

O futuro de Portugal, nos actuais moldes, depende do que se sucederá na Europa, mas possuí a Europa salvação ou cumprirá o seu destino há muito delineado? É uma questão para outra altura e outro artigo.

A nulidade política portuguesa

Após a transição da CEE para o formato UE, Portugal iniciou a sua decadência social, política e económica.

Durante perto de duas décadas, a classe política portuguesa recebeu a fundo perdido, em forma de dívida e a troco da soberania e independência, milhares de euros, que se destinaram primariamente a hipotecar o futuro e a destruir as estruturas existentes. Destruíram-se os sectores económicos predominantes, com o extermínio da agricultura, das pescas e da pecuária, terraplanou-se a indústria e aumentou-se a precariedade laboral. Como vantagens de tais políticas benevolentes, construíram-se estradas, pontes e aldeamentos de luxo, investiram-se em carros, casas de férias e férias paradisíacas. Para além dos milhões europeus, desinvestiu-se na saúde, na educação e na justiça.

Em contrapartida, potenciou-se o sector terciário da economia (bens não transacionáveis), enveredando pelo capitalismo especulativo e apostando no turismo, com todos os erros de cálculo que o turismo acarreta. Formaram-se doutores e licenciados em escala industrial, para servirem de estatística e se obter um aproveitamento nulo, uma vez que zero é o ganho práctico dessa “indústria” e zero é por si só um prejuízo de monta.

Empobreceu-se a sociedade, aumentou-se a divida, quer externa, quer interna, e aposta-se no cavalo errado diariamente, mas o pior resultado nem é político, nem da classe política, é da sociedade.

Daniel Estulin, jornalista galardoado, nomeado para o Nobel da Paz em 2015, autor e investigador, crítico de política e geopolítica, ou, puxando o maniqueísmo para o papel, um gigante teórico da conspiração, negacionista, chalupa e demais epítetos que lhe couber, tem na sua visão (que partilho) da sociedade ocidental, um rótulo para a classificar, que é de facto certeira: “los aborregados”.

As consequências de dobrar na estupidez

Política e socialmente, vivemos no país do faz de conta. Faz de conta que construímos aeroportos, ferrovias e hospitais. Faz de conta que somos um país e uma sociedade rica e que vivemos o esplendor da democracia.

Importamos o que comemos, exportamos a pouca (raríssima) massa crítica que se consegue formar academicamente. Perdemos milhões directa e indirectamente no covil da corrupção europeia e numa guerra que se perdeu logo no dia 22 de Fevereiro de 2022. Investimos milhões na prostituição da comunicação social e fechou-se portas há saúde, quando supostamente dela mais se necessitava.

Anuncia-se com pompa e circunstância mais um rombo no erário público, com o circo romano eclesial e, agora, outro circo, o mundial de futebol, mas não existe dinheiro para o SNS, para o alívio de impostos e para a educação. Tenta-se aumentar o IUC para financiar o clima, que afinal eram para corrigir disparidades orçamentais. Contudo, das centenas de quilómetros de caminhos de cabras, com e sem portagens, nem se fala, as SCUT que afinal são CCUT, continuamos a suportar negócios e negociatas da banca privada e alimentamos o voraz e insaciável despesismo público com o Estado Social, a forma mais simples de nada resolver e assaltar a sociedade.

Quando entregamos jogos de adultos a crianças, o preço a pagar continua a ser o de adulto e a estupidez é cara, mais ainda se a dobrarmos.

Vamos (talvez) voltar a privatizar a campeã das privatizações, a TAP. É uma boa notícia até lermos todas as alíneas do negócio, por certo, vai-nos custar mais IUC, IMI, IRS e mais taxas verdes, que mesmo maduras, lá irão continuar no prego.

Portugal tornou-se uma inutilidade política de proporções catastróficas, mas não devemos inculcar na classe política a culpa do sucedido. O aparelho político e partidário existe nestes moldes por um singelo motivo e esse motivo é o pai e a mãe incultos, ignorantes e aborregados, que promovem a mediocridade política, o descalabro económico e a chocadeira social.

Discutir qualquer política em Portugal actualmente é o mesmo que abrir um orfanato numa ilha deserta, longe e inacessível, não tem nenhuma utilidade, é moral e eticamente criminosa e não serve a curto, médio e longo prazo. E do todo que é a sociedade, só uma fracção minúscula obtém ganhos. A restante fracção, paga e perde, porque esse é o seu desejo, o seu vicio doentio, com o alto patrocínio da UE.

O mundo é global desde as rotas da seda e das rotas marítimas. Portugal já foi um império, ainda é o único país que venceu o terrorismo (século XX) e mudou o curso da história mundial recente. No entanto, elegemos um filho do fascismo como Presidente da República (Marcelo Rebelo de Sousa) e simultaneamente abnegamos o fascismo, deixamos de estar no lado certo da história, deixamos de ser “pensantes”.

Agora, como se resolve este paradoxo que é Portugal, um terceiro mundo da modernidade? Não será com a actual configuração societária por certo.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico
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