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A Estrada Para Los Angeles – John Fante

A Estrada Para Los Angeles, apesar de ser o primeiro romance de Fante, é um livro que bem podia ser o seu último, pela maturidade da escrita, pelo olhar atento da realidade que se mostra a base desta obra e porque tanto parece um conselho como uma sátira. Porém, um conselho e uma sátira a quem? A todos os escritores em geral e a um certo tipo de escritores em particular.

Nesse aspeto, é um livro que pode ser pouco apelativo ao público em geral. No entanto, o conselho ou conselhos presentes no livro podem ser alargados a toda a gente, basta pensar que ninguém quer ser como a personagem principal deste romance, ninguém quer mesmo ser Arturo Bandini.

Antes de avançar em mais considerações sobre esta obra de John Fante, deve ser aproveitado o que é dito na contracapa do livro, na edição portuguesa da Alfaguara:

Aos dezoito anos, Arturo Bandini vive com a mãe e a irmã em San Pedro, o porto de Los Angeles. Obrigado, pela morte do pai e pela grande crise de 1929, a trabalhar em empregos duros e mal pagos, tem nas revistas pornográficas o seu único alívio, um hábito muito censurado pela beatice da mãe e da irmã. As suas outras leituras consistem nos livros que procura na biblioteca, obras de grandes autores como Nietzsche e Schopenhauer, que Arturo mal compreende, mas que gosta de se gabar de ter lido. Lê-as, ao mesmo tempo que emprega um vocabulário forçadamente erudito, na esperança de cumprir o sonho de ser escritor. Arturo Bandini, um italo-americano a tentar vingar na vida em plena Grande Recessão (…).

Através do carácter execrável e completamente mesquinho de Arturo Bandini, temos uma crítica àqueles que, para compensar a falta de amor próprio e felicidade, sobem a um escadote de intelectualidade (aparente) e, defendidos por esse lugar alto, mas tão baixo na verdade, cospem azedume e raiva para cima dos que estão à sua volta. Um exemplo disso são os artistas falhados que põem a culpa no sistema cultural ou na falta de inteligência e incompreensão dos leitores e críticos. E Arturo Bandini é um falhado, um escritor falhado. Apesar de ser ele, em parte, a sustentar a mãe e a irmã, é um falhado no que toca a ter valores e uma conduta social aceitável. A isso juntam-se ainda os delírios, tanto os de grandeza como os depressivos. Bandini tanto arranja uma pressão de ar para dizimar caranguejos nas rochas como rói o seu dedo polegar até o desfazer em sangue. E o próprio reconhece que é louco e que é uma criatura de estranhos hábitos. Mas a sede de realmente subir ao pódio dos grandes escritores e de sair vitorioso dos problemas do dia a dia, não o permitem refazer-se e mudar o seu comportamento. A vergonha de se sentir e ser, de facto um falhado, tanto o comove como o enfurece. E no fim do livro, Fante mostra-nos que lado de Bandini sai vencedor, se o lado do arrependimento e da vergonha, se o lado da maldade, da raiva e da mesquinhez.

Uma vez que esta obra está escrita na primeira pessoa, temos acesso direto à cabeça de Bandini. No entanto, a mão satírica e trocista de Fante está lá. O autor, de certa forma, ridiculariza a personagem que criou e fá-la mostrar, abertamente, as suas incoerências. É isso que faz de A Estrada Para Los Angeles um bom livro. No fundo, Fante está a dizer-nos o seguinte: se querem ser escritores, não sigam o exemplo deste tipo. E até se pode perfeitamente alargar a mensagem do livro para o seguinte: se querem ser alguém na vida e respeitados, façam exatamente o oposto do que este tipo faz.

A sátira é tão genial nesta obra que vai ao ponto de nos serem mostrados excertos escritos pelo próprio Bandini, sendo que nesses momentos parece que estamos a ter uma aula de escrita criativa e, mais uma vez, parece ser-nos dito que aquele não é um exemplo a seguir, de todo.

Outro bom conselho presente neste livro é o de que não devemos achar-nos superiores aos nossos semelhantes, muito menos tendo por base aquilo que lemos. Sobretudo, se pouco entendermos do que foi escrito pelos autores que usamos como escudo social e moral. Bandini apelida os outros, muitas vezes, de “paspalhus americanus”, entre outros conceitos que, muitas vezes, são roubados dos livros que lê, sendo que na sua boca soam vazios, inócuos e ridículos. Por mais livros que traga da biblioteca, o personagem principal continua o mesmo energúmeno de sempre.

A verdade que nos é tentada passar é que os bons escritores não levam a sua existência a dizerem-se bons escritores. Os bons escritores escrevem bastante e muitas vezes duvidam do talento e da qualidade do que foi escrito até ao fim das suas carreiras. Para além disso, muito semelhante ao epitáfio de Bukowski (“don’t try”), Fante parece querer-nos dizer que para se escrever um grande livro é preciso escrevê-lo (“don’t try, do it”), em vez de se passar os dias num falso êxtase literário apenas a proclamar que se vai escrever um grande livro, tal como Arturo Bandini faz.

Quanto ao estilo do livro, não se pode dizer muito, uma vez que, sendo escrito na primeira pessoa, tem de obedecer à linguagem, às loucuras e ao carácter da personagem principal. No entanto, partes há que são repetitivas e que pouco acrescentam à obra. Se no início a linguagem erudita de Bandini tem alguma piada, depois de alguns capítulos, essa mesma linguagem torna-se aborrecida e a maior partes dos leitores, de certo, terão a tendência a acelerar a leitura para saberem mais do que vai acontecer a seguir em vez de se apreciarem a escrita em si.

Por fim, há que referir que Fante foi uma espécie de mestre para Bukowski. Tanto em entrevistas como no romance Mulheres, o aprendiz enaltece o seu mestre. Do que é sabido, é graças da Bukowski que Fante foi republicado e levado às massas.  A importância e originalidade de Fante é facilmente vista através das palavras de Charles Bukowski:

I was a young man, starving and drinking and trying to be a writer. I did most of my reading at the downtown L.A. Public Library, and nothing that I read related to me or to the streets or to the people about me.

Then one day I pulled a book down and opened it, and there it was. I stood for a moment, reading. Then like a man who had found gold in the city dump, I carried the book to a table. The lines rolled easily across the page, there was a flow. Each line had its own energy and was followed by another like it. The very substance of each line gave the page a form, a feeling of something carved into it. And here, at last, was a man who was not afraid of emotion. The humour and the pain were intermixed with a superb simplicity. The beginning of that book was a wild and enormous miracle to me.

A Estrada Para Los Angeles

História e Enredo - 65%
Estilo da Escrita - 60%

63%

Avaliação Final

"O autor, de certa forma, ridiculariza a personagem que criou e fá-la mostrar, abertamente, as suas incoerências. É isso que faz de A Estrada Para Los Angeles um bom livro. No fundo, Fante está a dizer-nos o seguinte: se querem ser escritores, não sigam o exemplo deste tipo. E até se pode perfeitamente alargar a mensagem do livro para o seguinte: se querem ser alguém na vida e respeitados, façam exatamente o oposto do que este tipo faz."

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Afonso Castro

Nascido em 1996; estudante de Direito; feroz apreciador de bitoques e grelhadas mistas; leitor incondicional dos livros de Jack Kerouac; e praticante da filosofia "A Vida É Um Livro do Bukowski".

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