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À Conversa com Patrícia Rodrigues

Patrícia Rodrigues, pessoa ainda muito jovem, aventurou-se nas artes da escrita e lançou o seu primeiro livro, Maria do Mar. Em tempos de tecnologia e sendo ela uma profissional do ramo, é interessante saber o que leva alguém a colocar em papel os seus pensamentos.

Um sonho começa quando um professor acredita num aluno. A frase pode soar a batida, mas foi exactamente isso que aconteceu. A Patrícia mostrou, desde cedo, este gosto e nunca o largou. Corporizou-o agora. Esta terapia ancestral, será uma forma de libertar medos ou uma catarse?

Um livro pode ser um filho, um esquisso do que se pretende, contudo precisa de asas para voar, segurar ramos e ainda as muitas marés que vivem no mar. A Patrícia Rodrigues não é uma desconhecida para mim, que a conheço há muito, ainda bem menina. Perante o fôlego que me mostra, sinto-me um elefante gigante numa loja de cristais.

Margarida – Normalmente as entrevistas começam com uma pergunta clássica, quem é fulano de tal, mas essa pergunta não vai ser feita agora, será depois. Vamos, então, começar pelo agora, uma espécie de in media res. Quando surge a escrita na vida da Patrícia?

Patrícia – Sempre me lembro de escrever. Tinha em casa muitos cadernos, começados e tinham um certo medo de os terminar, dava-me uma certa ansiedade. Lembro-me de um momento importante na minha vida, que foi um concurso de poesia na escola. O meu pai sempre escreveu muita poesia para a minha mãe. Eu sabia que ia ganhar. O meu pai escreveu um poema sobre a escola, mas eu não queria esse tema. Na Bússola, a sala de estudo onde estive muitos anos, a professora Raquel ajudou-me, mas eu não estava completamente satisfeita. Em casa dei a volta e escrevi o poema que ganhou. Tenho muito pena. Não sei onde está. Recebi o prémio, com tudo a que tinha direito, mas o dito, perdeu-se. Ai mar, ai mar. Tinha uma rima sobre o mar e as suas reviravoltas. O mar tem tanto impacto na minha vida.

Além de ser uma questão inata na família, o mar também tem ondas muito longas.

Esforçava-me imenso por escrever. Tenho uma história muito engraçada, se assim se pode chamar, que me deixou muito frustrada. Foi no secundário. Eu tinha uma ânsia tão grande por escrever que ultrapassei as margens da folha num teste e foi considerado erro ortográfico. Claro que a nota foi muito má.

É uma penalização, mas os professores têm que seguir as regras que estão estabelecidas, o que nem sempre é agradável de se fazer.

Mais tarde e ainda no secundário, a professora Margarida convidou-me para o Repórter Sombra e foi muito gratificante. Na altura foi uma catapulta muito boa. O Miguel, o editor, dava-me temas e eu desenvolvia-os com muito gosto. Deu-me um, sobre a autonomia e escrevi sobre os meus avós. Velhos são os trapos. A avó imprimiu-o e está emoldurado em A3.

Mesmo com um tema dado, saía com fluência, sem qualquer problema?

Sim, as artes sempre foram do meu gosto. Tentei outras, com a minha tia, a pintura, sem grande sucesso, mas a escrita era onde me sentia confortável. A minha arte era outra.

Vejamos, então que papel desempenha a escrita, liberdade, catarse, voo especial, mergulho, necessidade de comunicação ou algo diferente?

É uma terapia.

Como funciona esta terapia?

Desde pequena que sempre tive a CPU muito ocupada.

É preciso que se saiba o que é a CPU.

É a memória. A minha memória cerebral esteve bem ocupada. A minha mãe dizia que eu tinha uma antena de rádio sempre ligada e dava muita importância a coisas que os outros nem notavam. Percebi que me sentia bem melhor, mais calma, ao ritmo da sociedade, se enchesse essas páginas de cadernos, durante a adolescência. Agora já não são cadernos, mas, sim, páginas de Word.

Criança, adolescente ou adulta, que ainda não sabemos a idade, o que mudou no discurso da Patrícia?

Que bom! Uma pausa.

Mantém-se a metáfora. O meu discurso é metafórico.

O que posso dizer sobre o Maria do Mar, é que tem imagens maravilhosas e é um mergulho estupendo.

A confiança que temos pode levar-nos a dois caminhos. Ou somos completamente desmistificados e apedrejados ou então conseguimos que nos sigam e nos queriam ouvir, devido à confiança que transparecemos. O que mudou foi a confiança.

Faz todo o sentido pois está ligado ao processo natural de crescimento. A criança é inconsciente, o adolescente vai abrindo o caminho.

Alguma ironia.

Sim, aqui está uma parte importante. As pessoas perderam o sentido de ironia e ficam ofendidas por coisas que não têm valor algum. Andam cansados de viver. É triste.

P – Não conseguem ver as piadas nas coisas mais negras da vida.

A vida não é só luz, também é escuridão. E há quem tenha medo de cães.

[Risos – É o caso da Patrícia]

Como se processa a escrita, há momentos para escrever, a inspiração chega sem aviso, é para acordar a meio da noite e começar a escrever com um caderno ao lado ou nas coisas mais banais vem a inspiração?

É muito duro. Acaba por condicionar a vida. Quando estive em S. Tomé (uma experiência inesquecível) percebi que havia muitos vícios, como o álcool, a festa, a música e percebi que o meu é a escrita. Amo palavras. Esta semana comecei o meu curso de escrita criativa que acabou às dez da noite e às três da manhã ainda não conseguia dormir. Tinha que escrever, não podia perder nada. A escrita vai e vem. Não há regra. Escrevo nos transportes quando vou para o trabalho.

A escrita acaba por ser uma ditadora e acaba por fazer reféns. Provavelmente terá sido assim que surgiu a Maria do Mar. Pegar nas palavras, mergulhá-las fresquinhas e deixá-las sair. Confesso que não consegui parar de ler, quis saber como acabava e aconselho que o leiam com cuidado. No meu sentir, vejo aqui uma certa libertação de fantasmas, um luto muito duro de várias situações. Terá sido?

Somos o reflexo de cinco pessoas mais importantes da nossa vida, oiço dizer, mas não acredito nisso. Contactamos com tantas pessoas que somos muito mais. A Maria do Mar nasce para que a Patrícia não morra. Quer gritar, são muitas coisas. Foram dois meses de Inverno, que não gosto. Gosto da lareira acesa e ver a lenha. A Maria mostra que posso ser feliz nesta estação.

Já percebi o contexto, foi um parto.

Sim, foi isso.

Foi um parto muito feliz pois a apresentação, a primeira, foi muito bonita. Estão outras agendadas em calha, como em Coimbra e Almada. Houve uma resposta muito positiva do público. Que esperas alcançar com esta Maria do Mar?

O nome não foi escolhido ao acaso. Maria é o nome da maioria das mulheres. Há sempre uma Maria na nossa vida. É infinita. Queria que esta Maria fosse intensa. Entrar no mar e deixar ir até onde se perder. Partilhar dores é sempre mais suave para as carregar.

Temos invólucros diferentes, mas o interior é igual. Há um coração, pulmões e outros órgãos que permitem a vida acontecer. E agora é que surge a pergunta clássica: quem é a Patrícia? Sabemos que tem vinte e dois anos e que lançou o seu primeiro livro. Mas quem é a Patrícia?

A Patrícia é um pouco control freak, tem uma necessidade de controlar tudo, desde pequenina. Sou uma sonhadora, uma mulher do mundo, uma pessoa cheia de medo e com uma coragem que não me permite viver dentro do meu medo. Acabo por pensar tanto e sonhar ainda mais e consigo fazer algumas ginásticas mentais que me fazem colocar os pés no chão. Sou também uma equipa e uma família, um significado de pertença. Sou muita coisa, mas não sei como me descrever. Sou um nada no mundo que é tão grande. Perguntei aos meus amigos qual a palavra que me descreveria e todos, sem o saberem, escolheram a palavra intensa. Palavra perigosa e desafiante.

Na verdade, não é fácil responder a essa pergunta pois podemos sentir que nos percebem de uma forma, mas afinal será de outra. É uma pergunta cheia de truques. Certamente que se passa o mesmo com todos.

Sim, somos diferentes conforme as pessoas com quem estamos. Com tanta gente diferente, não temos comportamentos iguais, pois as circunstâncias não são as mesmas.

Que planos existem para esta escrita e para o futuro? A tua profissão não é esta, por isso a questão colocada é muito pertinente.

Eu faço controlo orçamental. Sou muito grata por estar ocupada, por ter um trabalho, ser bem-sucedida e ter encontrado trabalho na minha área. Paro e penso no futuro, que é muito incerto. No próximo ano espero ter lançado outro livro, no futuro, em cinco anos, espero ter feito muitas viagens, o que gosto muito. Não imagino a minha vida profissional. Neste momento estou a ser enviada num foguetão das palavras que espero terem muitos frutos. Sei que o caminho é longo.

Um livro é o mesmo, mas pode ser interpretado de maneiras particulares conforme o leitor. É essa a magia destas viagens. Ainda tenho algumas questões a colocar. A primeira é, ou pode ser, complicada: qual o momento mais traumático que não ficou arquivado e que está sempre a saltar? Alguns persistem e insistem.

Não estava nada à espera desta pergunta. É irónico. Não tenho um momento que possa dizer que seja esse. Os pensamentos podem ser controlados. O que não me esqueço é o primeiro momento à séria, ou seja, quando falhei e foi no exame de código. Foi o primeiro contacto com a frustração. Temos um senhor dentro de nós, o impostor, e vem bater à nossa porta para dizer: já falhaste, falhaste com palavras. Não sou uma mulher de traumas.

Ainda bem. E agora a outra, qual foi o momento mais feliz? A felicidade acontece sem darmos por ela, talvez por estarmos enfeitiçados ou enleados nela que não a sentimos na altura. Somente mais tarde, quando olhamos para trás é que percebemos como fomos felizes.

Esta é fácil. O dia mais feliz, com a distância de hoje, sei qual foi. Desmaiei de tanta felicidade. Foi com uma vida que estava a começar. Estava numa incubadora e era o meu irmão. Senti que nunca poderia falhar, que eu estava ali para ele. Todos podiam desaparecer, mas o meu irmão nunca. Ele nunca me vai deixar desamparada. Quero acreditar nesta ideia.

Agora se percebe a escolha do nome do irmão da Maria do Mar, Salvador.

Porque me salva. Tantas vezes. Lembro-me do que senti. Apaguei em êxtase. É poético. Os meus pais ficaram muito assustados, como se pode calcular. Apenas temos seis anos de diferença, mas a nossa ligação é única, somos uns eternos companheiros. O meu medo é que deixemos de ser comparsas para a vida, um para sempre, um do outro.

Chegámos à última pergunta, como é que te sentes?

Sinto-me muito calma. Sempre fui muito agitada, mas agora estou em paz com o meu percurso, com esta fase. Sinto-me, feliz, muito grata. Por cada livro que vendo, a minha gratidão aumenta. Estou a trabalhar para a permilagem. Sinto-me expectante pelo futuro e ao mesmo tempo não me sinto ansiosa.

Para terminar partilho dois excertos do livro Maria do Mar.

“(…) Maria descasca batatas como gostaria que a sua vida não ficasse, também ela, sem aquela fina película protectora contra feridas e insucessos do acaso (…)”

“(…) Maria acredita que no dia em que cortar mais casca do que batata pode finalmente calçar-se e casar, mesmo que o filme que esteja a dar na altura não tenha sido aquele que sonhou anos e anos seguidos (…)”

Descascar batatas. Este momento específico aconteceu no seguimento de um dia em que pensei que não sabia descascar batatas sem um descascador. Todas as mulheres têm que saber descascar batatas. idealizamos muito o casamento. Ninguém gosta de estar só, só que não é o mesmo que estar sozinho. O presente é imutável e confiamos na vida. Outra ideia feita. Contudo esta é imprevisível. Tudo muda e podemos não saber descascar as batatas, mas não deixamos de ser mulher e de ser Maria. Ninguém é dono de ninguém. Calçar-se significa que deixa de ser do mundo para se ser de uma parte, uma família. O chão é duro, as pedras são muito pontiagudas e o alcatrão queima. A mensagem é de esperança num mundo que seja cada vez melhor.

Terminamos com uma Carochinha que se chama Maria do Mar. Só que esta é uma mulher independente que ganha o seu dinheiro e tem muitos cinco tostões. O livro está disponível para ser vendido autografado, basta contactar a autora que terá muito gosto em o partilhar com os interessados. Na verdade, este não é um livro qualquer, é bem diferente do que se possa pensar, este livro é um verdadeiro manual de emoções.

Há lutos que podem ser de roer as entranhas e de picar o coração. Há outros que libertam o que se desconhecia ter. O choro também é terapêutico e este solta todos os fantasmas que definham em lugares que nem deveriam conhecer.

Uma entrevista pode ser malévola, é uma intromissão, é penetrar na intimidade do entrevistado. Contudo, se este o permitir, será um modo de ser mostrar ao mundo e dizer que são bem-vindos à sua casa de ser.

Patrícia, que é minha, do meu mundo, desde os dez anos, levanta voo e vai até onde o seu enorme entusiasmo e fôlego, a conseguir levar.

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