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A amargura de Soares

Se Portugal tivesse, como nos Estados Unidos, famílias politicamente famosas, com toda a certeza que a família Soares seria uma delas, senão mesmo a única. Mário Soares, o grande pai da democracia portuguesa, como é chamado, é uma figura desde sempre muito complexa, disruptiva na sua forma de estar, mas, acima de tudo e a meu ver, profundamente inconsistente, mostrando uma faceta muito pouco agradável nestes últimos anos.

Tudo começou em 2006, quando, duma forma pouco astuta, o PS apresenta como candidato presidencial o ex-Primeiro-Ministro e ex-Presidente da República, Mário Soares, sobrepondo-se a uma candidatura já esperada de Manuel Alegre, histórico socialista, e contra Cavaco Silva, ex-Primeiro Ministro. O resultado já sabemos, uma magnânima derrota de Mário Soares. Seguiu-se o início da crise, a relação pouco amigável entre Cavaco Silva e José Sócrates, a demissão deste último e o início do governo PSD-CDS, marcado pelo período de resgate financeiro. Porém, isso é história.

De 2011 para cá, temos conhecido um Mário Soares um pouco diferente. Igualmente interventivo, como desde sempre me recordo, sem grandes papas na língua, dizendo o que pensa sem qualquer tipo de filtro, mas, a cada dia, mais refinado em termos de ideias. Há dois anos que ouvimos um Soares ressabiado, de ideias violentas, quase constantemente, no seu estilo muito singular, a incitar à violência contra o Governo, pedindo incessantemente demissões e eleições, como, aliás, uma grande faixa de políticos, embora muitos deles ainda mais à esquerda que Soares. Curiosamente, muito deste discurso chegou com os grandes cortes, nomeadamente, nas fundações.

Soares, que a meu ver sempre foi um bom exemplo de um lutador pela democracia, hoje começa a mostrar, muito graças a uma comunicação social sedenta de notícias e que, todas as semanas, lhe dá mais tempo de antena, uma faceta amargurada e muito pouco esclarecida, que às vezes parece esquecer-se da democracia que ele próprio ajudou a instaurar. Num discurso monocórdico, incitador do medo duma suposta volta de ares totalitários, Soares perde a oportunidade de ser uma personalidade, juntamente com outros ex-Presidentes e outros ex-dirigentes, que poderia constituir um grupo de consenso, de sabedoria, podendo ajudar o país com um debate sério, construtivo e evolutivo. Contudo, de forma alguma Soares aproxima-se sequer disto, o que fica ainda mais adensado com o constante relembrar de muita gente de alguns factos estranhos da sua vivência política, nos últimos quase 40 anos (nomeadamente no período em que foi Presidente da República).

Se não fosse por tudo isto, a iniciativa de Soares de juntar diversas figuras das várias áreas políticas (e não só) que se irá realizar hoje, em Lisboa, sob o tema “Em defesa da Constituição, da Democracia e do Estado Social”, poderia ser algo de extraordinário, muito interessante e construtivo, mas que corre o risco de parecer mais um confluir de opiniões destrutivas, bem ao estilo que tão em voga anda, demonstrando algo que parece cada vez mais presente na classe política portuguesa, uma ideia de que “se não é da minha cor, é mau e tem de ser destruído”.

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