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West Side Story – Amor sem Barreiras

Se Richard Wagner (1813-1883) artista de renome, compositor e ensaísta alemão fosse vivo aquando do surgimento do cinema e ainda mais aquando do cinema sonoro/falado observaria um verdadeiro reflexo da sua “obra de arte total”. Se descobrisse West Side Story ainda mais, mas ao que sabemos ninguém vive eternamente e esse mesmo género cedo entraria também em colapso. Não obstante, a versão cinematográfica do musical da Broadway de Leonard Bernstein – por sua vez, adaptação homónima da tragédia mais conhecida de todas, Romeu e Julieta da autoria de William Shakespeare -, mantém-se como um reflexo da capacidade de uma narrativa clássica adaptar-se aos tempos de hoje.

Amor sem Barreiras, como é conhecido por terras lusitanasestreava na Broadway em 1957 e o seu estrondoso êxito permitiu pensar de imediato numa versão cinematográfica (também teve recentemente direito, em Portugal, a uma encenação a cargo de Filipe la Féria), que não ficaria aquém das expectativas. West Side Story chegou às salas em 1961 e foi globalmente aplaudido pela crítica, que via agora no musical uma oportunidade de contar os dramas sociais e não apenas de transpor o slogan ‘e viveram felizes para sempre’ que os filmes com a dupla Fred Astaire e Ginger Rogers visavam passar. Inclusive, a película alcançaria um feito marcante ao arrecadar 10 estatuetas douradas (Óscares da Academia), das suas 11 nomeações. Venceu melhor filme, melhor realizador (Robert Wise & Jerome Robbins, a primeira e única vez que este troféu foi partilhado), melhor actriz secundária (Rita Moreno), melhor actor secundário (George Chakiris), melhor fotografia a cores, melhor direcção artística a cores, melhor guarda-roupa a cores, melhor montagem, melhor som e melhor banda-sonora, perdendo apenas melhor argumento adaptado para O Julgamento de Nuremberga.

West Side Story

Como já referido West Side Story renova o princípio das adaptações literárias que desde sempre estiveram em voga em Hollywood. Em vez de um comum Romeu e Julieta a namoriscar por Itália, o enredo transcreve-se para o século XX e baseia-se nas disputas de dois grupos do West Side de Nova Iorque, que não apresentam os nomes das famílias rivais da peça (Capulet e Montecchio), mas de gangsters, os Jets (jovens americanos, na sua maioria loiros de descendência polaca) e os Sharks (jovens provenientes do Porto Rico que migraram para os Estados Unidos na procura de melhores condições de vida). Só por aqui percebemos que o filme repensa as atitudes de uma juventude frustrada dos anos 60. Seria a década dominada por um conjunto de manifestações de cariz social e político.

Entre os Jets, existe o seu líder Riff (Russ Tamblyn) e o seu melhor amigo Tony (Richard Beymer), que não está nada interessado em voltar ao grupo. Entre os Sharks existe o líder Bernardo (George Chakiris), cuja irmã Maria (Natalie Wood), ainda na flor da idade, apaixona-se à primeira vista por Tony. A disputa mantém-se até ao fim e gesticula-se no movimento dos corpos dos actores, com destaque particular para a luta inicial, meticulosamente filmada nos locais reais, uma das melhores aberturas de sempre.

West Side Story

De facto, sobressaem os números musicais bastante rigorosos, não fosse Jerome Robbins um profissional insistente, mas em que vez estes constituírem apartes no enredo, inserem-se em jeito do espectador perceber aquilo que decorre no mundo das personagens (seja exterior ou interior). Nenhum outro filme havia alguma vez prestado tanta atenção a este elo, patente numa mise-en-scène que salvaguarda todo contínuo narrativo através da extravagância de luz e cor, que encontra o seu referente no teatro. Em certos momentos, como a passagem do final da canção ‘Something’s Coming’ para a janela da casa de Maria ou quando Maria rodopia até sermos transportados para o salão de dança, parecem não haver cortes na edição, isto é, em falsos planos-sequências cujo fluxo nunca se perde.

West Side Story

Nos desempenhos, mesmo que Natalie Wood e Richard Beymer não cantem as suas próprias músicas é algo que certamente não nota, mesmo para quem já viu o filme milhões de vezes. O que de certeza não lhe será despercebida é a presença de Rita Moreno. A actriz tornou-se a primeira pessoa a receber um Óscar, um Emmy, um Tony e um Grammy, os maiores prémios das indústrias do entretenimento americano e no filme percebemos bem porquê. Os seus gestos, os seus olhos e o seu corpo mexe-se sem cessar com um toque ‘caliente’, por exemplo na sequência ‘America’ (uma sátira ao american way of life).

Para muitos West Side Story não tem o mesmo impacto de Serenata à Chuva, com Gene Kelly e Debbie Reynolds, actualmente considerado o melhor musical de sempre, contudo este é um riquíssimo objecto fílmico cheio de energia e no qual percebe-se como o cinema é a arte de um fazer, desde os primeiros passos e estalares de dedos, até ao final trágico, no qual todos saem de cena, como quem sai de um palco maior do que a própria vida.

West Side Story
poster do filme

Ficha técnica

Ano de Produção: 1961/ Título português: West Side Story – Amor sem Barreiras / Título original: West Side Story/ Realizador: Robert Wise & Jerome Robbins / Argumento: Ernest Lehman / Elenco: Natalie Wood, Richard Beymer, Rita Moreno, George Chakiris, Russ Tamblyn, Simon Oakland, Ned Glass, Tucker Smith/ Música: Leonard Bernstein/ Duração: 152 minutos

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Virgílio Jesus

Licenciado em Ciências da Comunicação e com Mestrado em Cinema e Televisão pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou um apaixonado por cinema desde os meus 10 anos. Todos me conhecem como o 'viciado em filmes' porque na realidade estou sempre interessado em ter a sétima arte como tema de conversa.

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