Desporto

Wawrinka: a consagração aos trinta

Nos primeiros 8 anos de carreira, quatro títulos em torneios menores e, vá, uma medalha de ouro olímpica em Pequim, nas duplas. Nos últimos três, três Grand Slams (Austrália, França e Estados Unidos), um Masters 1000 e onze vitórias consecutivas em finais. Pode parecer que vou falar de dois tenistas diferentes, mas estes são dois momentos bem distintos da carreira de um único jogador. Jovem promissor, mas que penou durante anos na sombra de Roger Federer, Stanislas Wawrinka, ou o Stan, tirou as lições dos desaires do passado e hoje procura firmar seu lugar no topo do ténis internacional.

Apesar de ter falhado os Jogos Olímpicos do Rio devido a uma lesão na coluna, o suíço compensou a falha com uma performance maiúscula no U.S. Open deste ano. Ainda na terceira ronda, contra o britânico Daniel Evans, salvou um match point que o mandaria para casa demasiado cedo e aguentou-se para ganhar a partida em cinco sets; nas fases finais, superou três adversários de peso: o argentino Juan Martín del Potro nos quartos de final, o japonês Kei Nishikori nas meias-finais e o sérvio Novak Djokovic, ganhando de todos por 3 sets a 1 e alcançando o terceiro título de Grand Slam da carreira.

No universo dos vinhos, discute-se muito se a expressão “quanto mais velho o vinho, melhor” é verdadeira, mas no universo do ténis, assenta como uma luva para descrever o actual momento de Wawrinka. A onda de sucessos em torneios grandes vem desde 2013, ano em que finalmente seu talento começou a desabrochar nas quadras de gala do ténis mundial.

Porém, não sem algumas provas de fogo: naquele ano, na quarta ronda do Open da Austrália, encarou uma maratona de 5 horas contra Novak Djokovic, acabando por cair perante o sérvio. A despeito da derrota, esse foi o jogo que mais marcou a carreira do suíço. A seguir, na primeira ronda da Taça Davis, em dupla com o compatriota Marco Chiudinelli, lutou num épico de 7 horas (!), mas caiu perante os checos Lukás Rosol e Tomás Berdych.

Daí para a frente, apesar de não ter ganho nenhum torneio além do Portugal Open, conseguiu resultados sólidos e consistentes em torneios de maior porte: final do Masters 1000 de Madrid contra Rafael Nadal, quartos de final do Open da França, também contra o espanhol, meia-final em cinco sets contra Djokovic, meias-finais nos três Masters 1000 que se seguiram, duas das quais contra os mesmos dois que havia enfrentado e, no fim do ano, a grande estreia no World Tour Finals, onde alcançou mais uma meia-final contra o sérvio, para quem perdeu pela quarta vez no ano.

Nessa altura, já se sentia que ganhar um Masters 1000 ou um Grand Slam era questão de tempo. Em 2014, Wawrinka fez ambos. Em janeiro, foi no Open da Austrália que despontou de vez como estrela. Após as quatro rondas iniciais, encarou Djokovic nos quartos e venceu por 3-2 com 9-7 no último set; nas meias, superou o checo Berdych, para encarar Nadal na finalíssima. Venceu com autoridade em quatro sets e assim chegou ao primeiro título de Grand Slam da carreira, aos 28 anos de idade. Mais tarde, em abril, na terra batida de Monte Carlo, compôs uma final suíça com Federer, a qual venceu por 2-1.

No ano seguinte, também obteve bons resultados, conseguindo quatro títulos individuais, entre os quais a vitória no Open de Roland Garros. Após vencer em Chennai, foi mais uma vez à Austrália, desta feita, parou na meia-final frente a Djokovic. Ainda assim, conseguiu mais um triunfo em Roterdão, derrotando Berdych na final. No entanto, foi eliminado nos cinco Masters 1000 que se seguiram, incluindo uma derrota frente a Federer, em Itália. Chegava junho, mês de Roland Garros. Após quatro vitórias nas rondas iniciais, veio mais um confronto contra Federer, mas nessa vez, Stan não lhe deu hipótese: 3 sets a zero. A seguir, venceu o francês Jo-Wilfried Tsonga nas meias e, na final, superou Djokovic, ambos por 3 sets a 1, para se consagrar campeão de Grand Slam pela segunda vez.

Paciente, gosta de jogar no fundo da quadra, a devolver os golpes dos adversários e procurar aberturas para definir o ponto na hora certa, no entanto, ele não se esquiva de ir à rede assim que necessita. Nos tempos recentes, o suíço tornou-se um jogador de topo tanto no piso rápido, quanto na terra batida, a qual considera seu melhor piso.

Com um estilo agressivo, Stan é dono daquele que é considerado um dos melhores backhands de uma mão do circuito mundial. Com essa técnica devolveu bolas vencedoras, algumas das quais em ângulos que beiram o absurdo. Mande-lhe uma diagonal a atravessar a quadra que, mesmo assim, ele puxa dos galões e devolve rente à linha (ou até mesmo por fora da rede) para ganhar o ponto. Essa estratégia é especialmente eficiente contra aqueles que tentam a táctica de serviço e voleio e se expõem a ir directo à rede na troca de bolas.

Entre as características do antigo Wawrinka estavam a inconsistência: num torneio podia fazer estragos aos adversários e chegar longe, no seguinte, podia cair perante adversários de fora do top 100 mundial. Além disso, o emocional podia aflorar nas horas erradas e resultava em eliminações, quase sempre em quartas rondas. No entanto, essa fraqueza psicológica do suíço foi um dos pontos mais trabalhados pelo ex-jogador sueco Magnus Norman, técnico de Wawrinka desde 2013.

O novo Wawrinka já não se deixa abalar tão facilmente. Antes temperamental e nervoso, agora canaliza as emoções para os golpes com a raquete e comanda o jogo assim que precisa, mesmo nos momentos de pressão. Foi justamente com essa resiliência e capacidade de resistir aos percalços que ele conseguiu vencer partidas importantes e com autoridade.

Com um total de 15 títulos individuais na carreira, ele está longe das marcas dos quatro grandes: Murray tem 41 (3 Grand Slams, os mesmos de Stan); Djokovic tem 66 (12 Grand Slams); Nadal tem 69 (14 Grand Slams) e Federer, 88 (17 Grand Slams). Frente a essas estatísticas, fica difícil dizer se ele, de facto, chegará a esse patamar, sobretudo com atletas jovens como Dominic Thiem, Alexander Zverev e Milos Raonic entrando de rompante na cena internacional. Apesar disso, os sucessos recentes fizeram-no ser cotado como um forte candidato a transformar o Big 4 do ténis mundial em Big 5.

Djokovic já afirmou que o suíço merece estar entre os grandes do ténis, mas o próprio Stan, quando lhe falam disso, remete-se à humildade: a falta de títulos em Masters 1000 é o principal motivo para ele rejeitar esse estatuto; e outra, ele nem se preocupa muito com isso. Actualmente em 3º no ranking da ATP, e já nos seus 31 anos de idade, Stan tem a consciência de que tem menos tempo do que os pares para competir e tentar títulos. Mesmo assim, tem também a capacidade de provar que enfrenta os grandes tenistas em pé de igualdade e surpreender.

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Victor Leôncio

Jornalista de formação, viajante de coração. Nasci no Brasil, mas se me perguntarem, sou brasileiro com costela portuguesa, sangue japonês e influências inglesas. Cidadão do mundo, talvez? Viajar é minha paixão, escrever é meu amor. Gosto de esportes, música, línguas estrangeiras e aventuras, tanto as do mundo real, quanto da imaginação.

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