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CinemaCultura

Voyons voir un film?

Os nomes de Jean Renoir, Jean-Pierre Jeunet, ou de Christophe Barratier soam-lhe a algo conhecido? Faz parte dos milhares de pessoas que já assistiram a filmes de Alain Resnais e que ficaram obcecados pelo filme Hiroshima mon Amour? Se não sabe quem são estes senhores (excelentes realizadores franceses que desenvolveram a cultura cineasta francesa, por sinal), venha perceber porque é que, nos próximos anos, serão os filmes produzidos por estes a invadir os ecrãs portugueses.

Tradicionalmente, o cinema francês desperta críticas intensas e polares, que vão desde a paixão ao ódio, repudiando qualquer sentimento de ignorância. É como uma comichão que, irritantemente, se faz sentir: não há como negar a sua existência e, nada mais se pode fazer, além de se render e coçar, ou evitar total contacto.

Como refere Inês Marques – licenciada em Física, pela Universidade do Minho, e tendencialmente obcecada pela cultura cinemática –, em entrevista ao Repórter Sombra, “a verdade é que o cinema francês, assim como, por exemplo, o dinamarquês, têm uma identidade muito própria.” É exactamente esta identidade, muito distinta e peculiar, que leva a que muitos espectadores considerem os filmes, realizados por franceses, como sendo demasiado complexos, com muita controvérsia e inúmeros detalhes, mas que levam à rendição dos críticos mais cultos.

Denunciando a necessidade de cativar audiências além-fronteiras, os realizadores franceses procuram já uma mudança metodológica, entenda-se, menos redundante e mais linear. Esta mudança, que se vem sentir, sobretudo, na Novelle Vague (uma tendência iniciada nos anos 60, mas com uma dinâmica actual, criada como forma de obstinação e pontuada pela irreverência), não desencanta críticos, mas é entendida como mais uma forma de revelação do espirito particular e cativante do cinema francês e dos realizadores que lhe dão vida. Isso mesmo revela Inês Marques, quando sublinha: “qualquer cineasta tem as suas próprias influências – que podem derivar de qualquer género, ou tradição cinematográfica – e, no plano técnico, as suas próprias vicissitudes, demarcadoras da sua identidade. Mas também não é ‘apenas mais do mesmo’. Cada filme tem a sua identidade e – felizmente – não deixa a sensação de cópia, ou plágio.”

A tendência para descomplicar este tipo de cinema, reflecte-se já em narrativas mais simplistas e objectivas, mas não menos inteligentes e sofisticadas. Exemplo deste tipo de evolução verifica-se em filmes, mais recentes, como Le Scaphandre et le Papillon (O Escafandro e a Borboleta) dirigido por Julian Schnabel, que conta já com um sucesso, não só de bilheteiras, como perante críticos mais experientes e exigentes. Apostando nesta simplicidade poética da narrativa, que prima pela exposição do real, os filmes franceses vão ganhando terreno face a outros mais “fantasiosos”, tal como demonstra a opinião de Inês Gonçalves, licenciada em Línguas e Literaturas Modernas – Variante português e inglês pela Faculdade de Letras do Porto, que confidencia ao Repórter Sombra: “O cinema francês continua, na minha opinião, a ser mais cru, exprime tendencialmente a mensagem pretendida sem grandes adornos, ou parafernálias de efeitos especiais. E essa genuidade, essa verdade, é o que mais me atrai.”

Exigindo uma constante renovação, que permita cativar até o público mais céptico, o cinema francês tem provado que uma competição com o cinema americano não é um obstáculo, mas uma verdadeira aventura. Segundo Inês Marques, “o cinema francês, com os seus movimentos [e. g., a nouvelle vague], é uma das manifestações artísticas mais profícuas e fecundas da história (…) é a capacidade para ter a sua própria produção cinematográfica mainstream com relativo sucesso nas salas de cinema.”

Tendo em conta a promoção do cinema francês, quer em Portugal, como a nível internacional (do qual se destaca, o mediático, Festival de Cannes), realizam-se inúmeras festas e eventos que nada mais são do que exposições daquilo que melhor se faz a nível cinematográfico em França.

Assim, é cá dentro que a Festa (anual) de Cinema Francês marca território. Receptora de RS_voyonsvoirunfilm_1um inúmero auditório e contando já com 16 edições, todos os anos são promovidas diferentes actividades, nesta festa, que aproximam portugueses e o cinema francês, numa relação que já se adivinha inseparável.

Exibindo uma considerável panóplia de géneros – desde o drama até ao terror e, não esquecendo, o porno – o cinema francês vem conquistando críticos, audiências e seguidores. Desde o início de Hollywood e o desenvolvimento de Bollywood, que mais nenhuma cultura cinematográfica tinha ganho tanto destaque. Estaremos perante uma nova potência cinematográfica? Segundo Inês Marques, esta é uma possibilidade a considerar. “No caso do cinema francês, eu creio que veio a influenciar toda a cultura cinematográfica europeia, ou, pelo menos, dos países mais a sul da Europa. Repare-se que realizadores como Manoel de Oliveira, João César Monteiro, João Botelho, Pedro Costa, Miguel Gomes, para elencar alguns nomes da nata do cinema nacional, foram/são fortemente influenciados pelas tendências do cinema europeu, onde, naturalmente, o francês assume um lugar de destaque.” Não obstante, para Inês Gonçalves, esta é, apenas, uma utopia. “Infelizmente considero que o cinema francês em Portugal não tem, ainda, conseguido cativar a atenção do grande público, na medida em que, os grandes sucessos de bilheteira são – única e exclusivamente – atribuídos a produções hollywoodescas. A língua, apesar de tão semelhante à nossa, causa mais estranheza no público do que a inglesa, o que continua a causar algum afastamento das pessoas para este tipo de cinema.”.

Ultrapassados os estigmas e estereótipos, associados à cultura cineasta francesa, o público vê-se rodeado por uma autêntica metamorfose de pensamentos. Do paradoxal cinema francês resta-lhes, agora, um novo mundo a explorar, repleto de um realismo cru, que chega mesmo a ser desarmante.

Para os mais cépticos, recomendo um balde de pipocas e um mergulho nestes filmes: La vie en Rose realizado por Oliver Dahan; Les Choristes dirigido por Christophe Barratier; Entre Les Murs, um drama realizado por Laurent Cantet; Deux ou Trois Choses Que Je Sais D’elle produzido por Godard.

Então, voyons voir un film?

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Raquel Soares

Aluna de Direito na Universidade Do Minho com uma paixão por livros, filosofia, psicologia e o mundo. Não procuro um mundo melhor, mas esforço-me para construí-lo! Sou activista da Amnistia Internacional em Portugal e participante em projectos que visam a dinamização e a efectivação dos Direitos Humanos. Membro da Associação Universitária de debates nacional e colaboradora da ELSA UMinho.

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