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Crónicas

Vou amar-te para sempre

Desta vez trago-vos um assunto triste. Porque a vida nem sempre é um mar de rosas e a mim faz-me sempre questão de me lembrar disso.

Quem me conhece sabe que nasci com um gosto especial pelos cavalos. Desde miúda que lido com esses seres magnificos. O meu pai sempre viu o brilho nos meus olhos, quando eu ouvia a palavra cavalo e, por isso, há 10 anos, no meu aniversário o meu pai deu-me a melhor prenda de todas. Disse-me que tínhamos de ir a um sítio falar com um cliente. Era tudo mentira. O meu pai já tinha tudo planeado e já tinha falado com um senhor para lhe comprarmos uma égua, pois ele fazia criação de cavalos. Fomos a uma quinta e olhámos para três cavalos que estavam lá a pastar. Virou-se para mim e disse: “Qual deles gostas mais?” E eu sem demora disse: “Aquela”, apontando para uma égua malhada, linda e com ar de rebelde. O meu pai apenas me disse: “Então, é essa a tua prenda de anos.” Foi amor à primeira vista e sabia que esse amor ia ser para a vida toda. Ou pelo menos achava eu. Veio comigo para casa e aí começou a maior aventura da minha vida.

Durante semanas, aquela égua rebelde, com o nome de Boneca, fez-me a cabeça em água. Não me obedecia, ignorava o que eu dizia e, como era bem mais alta que eu, ela, esperta, abusava disso, olhando para mim com aquele ar de eu ser quase uma formiga ao pé dela. Era como se ela estivesse a dizer que quem mandava ali era ela. E às vezes parecia. Depois de tantas birras uma com a outra, finalmente começámo-nos a entender. E digo-vos uma coisa: era a melhor relação que poderíamos ter! Ela começou a apanhar as minhas manias e defeitos, ficando quase como que uma fotocópia minha, mas em forma de animal. Era teimosa como o raio, mas teimosa a sério. Começámos a ir aos passeios equestres que existem perto da Guarda. Comecei a mostrar a “minha menina” ao mundo. Comecei a mostrar a cumplicidade que tínhamos uma com a outra, ainda que às vezes nos “chateássemos” forte e feio uma com a outra.

A nossa cumplicidade ficou ainda maior, quando num passeio equestre, nós iamos a galope e ela simplesmente escorregou e caíu em paralelos. Tentei trava-la antes, mas a emoção de ela estar a galopar era tanta, que ela nem se apercebeu que ia entrar num pavimento de paralelos. Naquele momento em que ela estava deitada e eu continuava sentada na sela, porque tinha a minha perna direita presa em baixo do corpo dela sem conseguir mexê-la, vi o sofrimento no olhar da minha Boneca, em querer levantar-se e não conseguir. Eu, simplesmente, acalmei-a e disse-lhe: “Eu vou-te ajudar. Vou fazer contrapeso e vou-te ajudar a levantar. Tem calma.” E assim foi. Isto tudo em questão de segundos. Ela viu que eu a estava acalmar e estava ali para ajudar. Posso-vos dizer que a partir daí, a nossa ligação foi maior! Tornou-se ainda mais única. É um sentimento que jamais conseguirei explicar. Ela conhecia o meu assobio, bem como o som do meu carro. Ouvia-o ao longe e vinha logo a galope toda contente para me receber. Levava-lhe sempre um doce. Ou uma maçã, ou uma cenoura e ela regavala-se toda!

Era um cavalo acarinhado por todos aqueles que a conheciam. Ela era carismática. Sabia cativar com aquele feitiozinho especial. Ela sabia sempre o que eu estava a pensar e punha em prática, quando estavamos nos passeios equestres. Só não saltava muros. Não me perguntem porquê. Nem nunca percebi.

No entanto, ela fazia mesmo birras comigo. Acreditem. Dou-vos um simples exemplo.

Há uns anos, passou a ser obrigatório os cavalos possuírem chips e eu chamei um veterinário para lhe o colocarem, mas avisei atempadamente o veterinário de que ela era um animal extremamente dificil. Cheguei perto dela acompanhada de três homens e ela olhou logo para mim com ar de desconfiada. Uma hora e meia depois, conseguimos pôr-lhe o chip. Acreditem ou não, ela esteve uma semana e meia sem olhar para mim. Eu chamava-a e ela simplesmente ignorava o que eu lhe dizia. Só uma semana e meia depois, é que me perdoou. Eu não disse que ela era teimosa?

As histórias com ela são mais que muitas. Uma outra história que me ficou gravada, aconteceu na casa do meu avô.

Temos lá dois tanques com água, um pequeno e um grande, para ela poder beber água fresquinha do poço à vontade. Como ela tinha um tanque enorme para usar, o meu pai decidiu colocar no tanque mais pequeno uns pexinhos. Quer dizer, peixinhos que já davam para pôr na frigideira. Mas adiante. A minha Boneca, ciumenta como ela era, achou que os peixes a estavam a incomodar. Que aquele era o espaço dela. Então, não descansou enquanto não partiu a torneira que fazia retirar a água do tanque. Qual o espanto do meu pai, quando lá chega e vê o tanque vazio, os peixes todos mortos no chão e ela com a maior lata a comer a ervinha verdinha, como se nada tivesse sido com ela. As histórias são mais que muitas.

Entretanto, já devem ter reparado que estou a falar dela no passado. Porque, infelizmente, 10 anos depois o meu cavalo deixou-me. Partiu.

Escrevo este texto com as lágrimas a caírem-me pelo rosto. Ela sofreu a noite toda com cólicas e só de manhã, que é quando vamos sempre ter com ela, é que o meu pai deu conta dela no chão a sofrer. Eu, em Lisboa, recebo uma chamada da minha irmã, às 9:30 da manhã a dizer que a minha égua estava a morrer. Caíu-me tudo. As lágrimas começaram a cair-me pelo rosto, fiquei completamente desesperada. Pedi por tudo para a minha irmã não a deixar sozinha, ser forte e aguentar até eu chegar lá. Momentos depois, recebo um vídeo da minha irmã. Foi a última vez que vi a minha Boneca. Deitada no chão, a sofrer. Aquela imagem vai-me marcar para sempre.

Entretanto, o veterinário chegou e deu a pior das notícias para um amante dos cavalos: “Vamos ter de a abater.” A minha irmã liga-me a chorar desesperada a dizer que a Boneca ia ser abatida. A minha companheira de 10 anos ia morrer. Chorei tanto. E ainda estou a chorar. A dor que sinto é tão grande que não vos consigo explicar. Nunca mais a vou ver. Ela já não vai estar ali para me receber sempre que lhe fazia aquele assobiou. Já não lhe vou poder dar as maçãs à boca como ela gostava. Já não a vou poder abraçar.

O que mais me dói, é não ter estado lá. Não me ter despedido dela, não ter visto o último suspiro dela e ter-lhe dito ao ouvido que ia correr tudo bem. Já não tive coragem de pegar no carro e ir. A dor é tão grande.

Este texto é uma forma de me despedir dela, uma homenagem aos magnificos anos que ela me proporcionou. Vou guardar para sempre todas as boas memórias que tenho dela. Amo-te do fundo do meu coração e irei amar-te sempre.

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