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Vocês voltam amanhã?

Num anterior artigo, “Os nossos amigos no Nepal”, contei sucintamente a história de dois jovens que foram literalmente apanhados pelo sismo que abalou o Nepal no dia 25 de Abril de 2015. Não os conhecia e só fiquei a saber da sua existência através do Facebook, uma rede social que também tem aspectos muito positivos. Desde o início que acreditei neles, na sua boa vontade e nas suas intenções altruístas. Nunca houve dúvidas da minha parte e acabei por verificar que não fui só eu que assim pensei e senti. Uma multidão de anónimos tornou-se doadora para uma causa que se tornou comum, ajudar o povo do Nepal a recomeçar a sua vida, e que ganhou nome: Associação Obrigado Portugal.

Estes 2 amigos, através da referida rede social, conseguem angariar mais de 120 mil euros e ajudar a reconstruir um país devastado pela tragédia. Foi uma tarefa árdua, mas intuitiva e espontânea. Não podiam virar as costas ao que se estava a passar e a intenção inicial, de viajar, seguiu outro rumo e outro propósito: a solidariedade. No dia 24 de Abril, quando chegaram ao Nepal, colocaram o seguinte post no Facebook: “(…) Kathmandu, Nepal. Agora é que vão ser elas.” Mal sabiam eles que tinham toda a razão para escrever isso.

No dia seguinte um terramoto de magnitude 7,8 sacudiu aquela terra e destruiu uma parte substancial do chamado Tecto do Mundo. Aquele momento mudou a vida de tantas pessoas para sempre. Num testemunho pode ser lido: “(…) o chão começou a tremer e o edifício abanava de um lado para o outro. Como uma bailarina a dançar (…) mal nos conseguíamos manter de pé, dada a violência. Todos os nossos sentidos ficaram alerta (…) foi um minuto que pareceram horas (…). Num momento como este, em que o chão nos foge debaixo dos pés, muitos pensamentos assaltam a cabeça. Mas acima de tudo pensa-se em sobreviver. “

A verdade é que morreram milhares de pessoas e a destruição foi brutal. Oitocentas mil casas ruíram e o património histórico sofreu danos consideráveis. O edifício mais alto do Nepal, a Torre Dharahara, Património Mundial ruiu e no Campo Base do Monte Everest houve uma avalanche enorme. O facto de ser sábado, o único dia de fim de semana, ” aliviou ” a carga pois as escolas e as empresas estavam encerradas. As pessoas estavam nas ruas e não nas casas, e este foi o motivo para a sua sobrevivência.

Não houve indecisão na cabeça destes amigos. A decisão foi ficar e ajudar aquele povo necessitado e que fez brilhar anda mais as palavras trabalho, transparência, responsabilidade, solidariedade, coragem, altruísmo, paixão e amor. E aos poucos foram chegando voluntários de todos os cantos do mundo, desinteressados, ou melhor, interessados em ajudar a reconstruir, em colaborar com um povo que estava em profundo sofrimento. O trabalho nunca foi problema e este nunca teria fim.

À distância fui acompanhando esta árdua batalha que era vivida por todos os que desejavam que os danos fossem minimizados e que aquele povo recomeçasse a vida, que se levantasse dos escombros e voltasse a sorrir. As mensagens de incentivo terão sido importantes, foram o bálsamo, a energia para a continuação da obra. Nunca pensei, sinceramente, que fosse tão importante para eles, para mim era e nunca parei de os apoiar, no que estava ao meu alcance.

No dia 20 de Junho de 2016, estes heróis de carne e osso, sem poderes especiais e sem capa, lançaram um livro onde relatam a experiência que alterou as suas vidas para sempre. Foi um crescimento interior, uma mais valia que nunca poderá ser contabilizada, uma externalidade positiva que continua a dar frutos. “Vocês voltam amanhã? ” era a pergunta feita pelas crianças nepalesas a todos os envolvidos e foi o mote para o documento escrito.

Este livro, prefaciado por António Guterres, o Alto Comissário para os Refugiados e apresentado por Maria João Ruela, assessora do Presidente da República para os assuntos sociais, é tudo menos uma leitura vulgar. É um relato, na primeira pessoa, dos acontecimentos, das dificuldades encontradas, dos projectos e das ajudas recebidas. Há uma nova palavra neste livro: ” voluntário “. Nova no sentido da prática, da realidade total e do desinteresse de si em prol dos outros. É isso que faz um voluntário, pensa nos outros, dá de si aquilo que tem e pode, misturando esperança e boa vontade para o bolo do objectivo.

Finalmente conheci-os, ao vivo e a cores. Tudo fez ainda mais sentido. Os seus sorrisos de satisfação revelam a excelente formação que estes seres grandes possuem. Educação, sempre a educação. Podia falar do livro mas aconselho vivamente que o comprem e está disponível a partir de 1 e Julho. É uma forma de apoiar a causa. Custa 20 euros e a receita reverte totalmente para a Associação. Outra é tornar-se sócio da Associação Obrigado Portugal ou pode fazer as duas. Estiveram sempre disponíveis para assinar os livros, para um dedo informal de conversa, para uma grande esperança no futuro.

A eles desejo as maiores felicidades. Ao Pedro, que vai entrar num mundo diferente, dos adultos comprometidos civilmente, porque compromissos sabe ele muito bem o que são, ao Lourenço que continue no caminho trilhado e que as pedras sejam todas redondas e à Paz, que a Madalena seja outra luz na sua vida, que lhe dê o sentido que procurava e que foi encontrado tão longe de casa. Quero ainda agradecer-lhes, do fundo do meu coração, por terem lido as minhas mensagens e por terem pensado que eu devia, também, fazer parte do maravilhoso livro: ” Vocês voltam amanhã? “.

They thought it was impossible… so they did it!

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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