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Viver ou sobreviver?

O ser humano é um ser muito diversificado em si mesmo. Consegue lutar para mudar, mas, na maior parte das vezes, preservar o que tem, porque pensa para si que mais vale manter o que se tem do que tudo perder.

Existem dois conceitos que definem uma vida: viver e sobreviver. São mais os que sobrevivem do que os que vivem.

Os homens e as mulheres são seres, na sua essência, adaptáveis: ao clima, à geografia, a um padrão cultural, a ritmos de vida. A experiência de vida diz a muitas mentes que nem sempre o desejado corresponde ao obtido, tendo que o seu percurso vital sofrer alterações, por vezes, radicais, impedindo a concretização de sonhos bem como o alcance de objetivos, que qualquer ser humano comporta.

Afinal, também há quem consiga concretizar sonhos bem como alcançar objetivos? Verdade. Quem encontra o verdadeiro ímpeto, que lhe impede de adaptar-se facilmente. Muitas vezes, as próprias circunstâncias o motivam. Por exemplo, nas décadas do pós-25 de Abril (70, 80, 90), a qualidade de vida, por terras lusas, revelava-se ainda frágil estruturalmente e as oportunidades eram difíceis de agarrar, formatando homens e mulheres a uma personalidade mais adaptativa. Hoje, continuando a exemplificar, a melhoria da qualidade de vida acompanhada de um avanço supersónico das bases tecnológicas abriram novos caminhos e trouxeram novas mentalidades. Provavelmente, a atualidade tem menos lugares para os humanos, mas mais liberdade para o pensamento, motivada pelas conjeturas políticas atuais, o que faz com que haja mais pessoas a tentar lutar e a querer viver, não sobreviver.

Agora, esclareçam-se devidamente os conceitos acima referidos. Viver corresponde ao estado de concretização, inspiração e superação adquirido por cada pessoa, fazendo com que a vida se baseie na máxima “mais vale lutar por uma vida digna do que não se ter vivido o que ela melhor tem para nos dar”. Sobreviver corresponde ao estado de suportação, conformismo e manutenção adquirido por cada pessoa, fazendo com que a vida se baseie na máxima “mais vale o que se tem do que nada”.

No padrão ocidental, a infância e a juventude precedem a fase adulta, em que o jovem, após a sua formação académica, procura a sua estabilidade. No padrão oriental, africano e sul-americano, existem variações quanto à realidade do trabalho, onde uma grande percentagem começa a trabalhar cedo e poucos são os jovens que se formam. Desse ponto de vista, diferentes olhares sobre a vida se confrontam, sendo que os “ocidentais”, designe-se assim, tentam mostrar aos “orientais” que colocam em causa os Direitos Humanos por tais percursos; se bem que servem-se uns aos outros (ver como existem fábricas no Bangladesh que trabalham para os países da Europa e Estados Unidos da América, consideradas por estes desumanas). Assim, cada uma das partes do mundo tem uma forma de ver a vida; o sobreviver pode representar a felicidade plena para aqueles que têm um lugar no mercado de trabalho, mesmo que possa ser considerado desumano.

Porém, existe a necessidade de mais e melhor, de viver mais e sobreviver menos. O próprio mundo necessita. Pegue-se numa situação: um jovem licenciado sai da universidade e procura emprego quer ganhar dinheiro para ter estabilidade, só que, depois de tanto tentar, perde motivação e acaba por se candidatar a um posto num hipermercado na zona. O destino deste jovem estará, a priori, estável, até porque as grandes superfícies comerciais ganham cada vez mais influência, pela sua variedade de produtos e pela sua variedade de vendas. E a luta para viver? Podem ser traçados dois rumos: ou acaba por se tentar lançar na sua área, aproveitando uma oportunidade de emprego, começando a trabalhar por conta própria, emigrando ou permanece na ocupação. Quais as razões de uma possível e viável permanência? A estabilidade existe; melhor, o dinheiro existe.

Sendo assim, atinge-se uma grande questão: o capital estrutural que tanto nos domina, que nós o dominamos e pelo qual nos deixamos dominar. O capitalismo acérrimo impõe uma filosofia de vida também ela muito acérrima: viver pelo dinheiro. Esta máxima obriga-nos a optar mais pelo sobreviver. E a esquecer, inclusive, as mais pequenas coisas. Por exemplo, David Robson, para o website da estação televisiva britânica BBC, lançou, há uns meses, um artigo onde falava na complexidade de certos sons e na problemática “tudo o que ouvimos nem sempre corresponde à realidade”. Nem tempo para apreciar isso existe. Várias vozes dizem que a culpa reside nas novas tecnologias que retiram tempo em família, em círculos amistosos ou em, mesmo, comunidade, outras dizem que se trata da própria evolução do Homem, que procura novas necessidades, motivadas pelo sistema capitalista, aliás, já proveniente da época remetente à Revolução Industrial (séculos XVIII-XIX). O certo é que as mais pequenas coisas encontram-se em sucessiva desvalorização, muito embora as tentativas que se exercem para tal reverter, como o mais recente anúncio publicitário de uma conhecida marca de cervejas, que apela a algo simples: sentir mais intensamente a amizade.

A que se deve todo este raciocínio? Talvez se tenha exteriorizado com o intuito de fazer pensar sobre possíveis motivos que ajudem a justificar porque o sobreviver pode ser mais forte do que o viver. Se se reverter a situação, percebe-se que, houvesse mais momentos e fossem estes mais aproveitados, o viver valeria a pena. Mais a médio e longo prazo do que a curto prazo, pois os proveitos entendem-se mais prolongadamente do que no imediato, ao passo que o sobreviver traz mais benefícios no imediato.

Enquanto pensador, como todos nós o somos, o objetivo foi lançar ideias sobre a vida, resultando daí o alargamento dos horizontes. Se pensamos mais em função do passado, do presente ou do futuro, é uma escolha de cada um. O grande desafio da vida passa por decidir se queremos sobreviver ou viver. É preciso que também exista muita força interior e que a mente seja exercitada nesse sentido. Especialmente, num mundo como aquele em que vivemos, que se encontra repleto de desafios, de surpresas, resultantes da imensa diversidade.

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Pedro Ribeiro

Nascido em 1996, por terras vimaranenses, tem como principal ocupação os estudos na licenciatura de Ciências da Comunicação. Apreciador das relações Media e Sociedade e Sociedade e Cultura, o seu objetivo passará por se especializar na área do jornalismo. Nesse sentido, conta com várias colaborações, a desenvolver atualmente, de forma simultânea: para o jornal 'ComUM', no qual é redator nas secções de Cultura e de Sociedade, para o jornal 'Académico', juntamente com a sua participação semanal no 'Repórter Sombra', onde opina nas áreas de Sociedade, Cultura e Política. No seguimento desta última área, milita na Juventude Socialista, tendo-se revelado publicamente ativista da candidatura de António José Seguro. Além disso, desenvolve um certo carinho pela sociologia, a que se junta a filosofia e, ainda, uma enorme paixão por viagens.

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