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Viver do passado

Embora nós, portugueses, sejamos um povo saudosista por natureza, não somos os únicos a viver embrulhados nas redes da saudade que sentimos das mais diversas coisas. Enquanto seres humanos, vivemos agarrados ao passado, ao que foi, ao que já não volta, ao que nunca devia ter ido embora. Temos a capacidade quase inata de nos focarmos no que já não pertence ao nosso presente – naquilo que ficou num sítio bem distante, a que costumamos chamar passado.

O passado é o nosso maior fardo. Carregamos o nosso passado às costas como se de uma cruz se tratasse. O nosso passado é uma espécie de cadastro psicológico, que mantemos bem arrumado nas gavetas da nossa mente, e que nos relembra tudo aquilo que já fizemos ou dissemos. Nunca conseguimos esquecer esse cadastro, porque faz de nós quem somos e nos causa, tantas vezes, alguns arrependimentos.

Vivemos a olhar para trás – e não podia haver nada mais errado do que isso. Em vez de olharmos em direcção ao futuro, vivemos o nosso presente, preocupados com o passado, com o que podíamos ter feito e não fizemos, com as palavras que não conseguimos dizer, com os abraços que não soubemos dar, com os beijos que ficaram por acontecer, com os sonhos que desistimos de realizar, com as pessoas que bateram a porta e com aquelas que decidimos mandar embora.

É certo que o passado é uma bagagem importante – senão essencial – nas nossas vidas. Precisamos do passado para nos guiarmos em relação ao presente. Somos quem somos porque, no passado, tomámos determinadas atitudes e dissemos certas coisas. Somos quem somos, porque experienciámos determinadas coisas. E, mais ainda, somos quem somos porque, a certa altura, escolhemos o caminho A e não o caminho B. Somos aquilo que escolhemos e não há nada que nos defina mais do que as nossas escolhas.

No entanto, o que importa nisto do passado é, além de não o esquecermos, conseguirmos manter a distância necessária para perceber que não são tanto as nossas escolhas que definem quem somos, mas sim a forma como lidamos com as escolhas que fizemos. Por isso, resta-nos encarar o passado como uma bagagem e não como um peso, uma aprendizagem e não um arrependimento, uma lição e não uma desilusão – porque só assim é possível crescermos, evoluirmos e tornarmo-nos melhores pessoas.

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Joana Veríssimo

Licenciada em Jornalismo e Comunicação e com uma paixão enorme pela escrita.

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One Comment

  1. Mesmo como bagagem existem coisas que têm que ser largadas. A culpa, as crenças limitadoras e toda uma parafernália de julgamentos. Viver no presente sistemáticamente é impossivel, mas deviamos tentar estar no presente o máximo de tempo possivel. Voltar ao passado apenas para reconhecer algumas lições indespensáveis ao nosso crescimento. O futuro é nada até ao momento de criarmos a nossa realidade.
    Parabéns. Continue. Abraço.

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