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Vitória e Rosa

São exactamente a correspondência em português das palavras islandesas sigur e rós. Quando juntas, numa soma simples que resulta no perfume que é um dos grupos mais respeitados mundialmente, o efeito é comovedor. À imagem do país de onde brotaram, os Sigur Rós pactuam com a actividade vulcânica, tal é a erupção de sensações em quem os ouve. As palavras significam, de facto, vitória e rosa. A música, a deles, que é nossa por extensão, significará o mais belo dos sentimentos e ainda que uma música possa demorar o tempo de leitura de um texto, o gosto fica e deixa-se acompanhar, de braço dado, por uma melancolia inexplicável.

Apareceram em Reiquiavique, capital da Islândia, em 1994, numa história que pode começar com o ‘‘era uma vez’’ e que se cruza com a de tantas outras bandas. Jón Birgisson (Jónsi), Georg Hólm e Ágúst Gunnarsson, três amigos a entrarem na casa dos vinte, perfeitamente apaixonados por música, arriscaram, um dia, todas as suas poupanças na gravação de uma demo, com a finalidade de a propor a uma editora. A Smekkleysa Records, surpreendida, incluiria as faixas do imberbe grupo numa compilação de novos talentos.

sigur_ros_06Daí até Von, o primeiro álbum, lançado três anos depois, para o qual os Sigur Rós começaram a trabalhar desde que a Smekkleysa lhes piscou o olho, foi o desenrolar de um processo natural. Era a pura esperança da banda em poder cumprir o seu desígnio. ‘‘Nós somos música! Não temos a intenção de sermos estrelas, ou milionários, nós simplesmente vamos mudar a música para sempre e o que as pessoas entendem por música’’,  afirmou Hólm, no início do conto que viriam a compor.

Revestidos de mistério e enigmas, os Sigor Rós carregam a bandeira da música que não tem um estilo exacto, sendo literalmente alternativa para os que procuram novas experiências musicais. Jónsi, o vocalista, é igualmente o maestro da banda, mestre no domínio da sua principal arma, a voz, ilusionista pelas constantes surpresas que consegue fazer com a mesma – versátil -, retirando o proveito que deseja para a composição que quer. Tamanha personalidade leva a que o grupo páre em 2009, dando espaço aos discos a solo de Jónsi, em parceria com Alex Sommers (seu namorado) – Riceboy Sleeps e Go.

O carisma do grupo é também vincado pelo facto de parte das músicas dos Sigur Rós ser cantada em vonlenska, uma língua imaginária, de base islandesa, criada pelo grupo, para que casasse com as suas melodias e ritmos. Esta comunhão é descrita por grande parte dos seus fãs como etérea ou arrepiante, passível de causar nos fãs a sensação de estarem a planar, admirando uma realidade aturdidora.

Neste percurso trilhado com ponderação, nunca faltou espaço para a criatividade e para a contínua procura de satisfação dos admiradores. Algo evidente desde o primeiro instante. A Von, sucedeu  Von brigði– uma remasterização dos temas do primeiro disco. Os Sigur Rós lançam, em média, um novo trabalho, a cada dois anos. Em 1999, apresentavam Ágætis Byrjun, algo como ‘‘um bom começo’’, em português. Não é presunção deles. Esta banda, vestida de vitória, começava a deslumbrar. Este disco foi um dos mais aclamados pela crítica especializada, que começava a comparar os Sigur Rós aos Radiohead. Tom Cruise, referiu em 2001, que só aceitaria protagonizar o filme Vanilla Sky, caso a banda sonora contivesse, no mínimo, uma música destes islandeses – na verdade, três músicas da banda fizeram parte do repertório do filme.

O mais curioso de todos os trabalhos discográficos surge em 2002 e dá pelo nome… bom não tem propriamente um nome. É um par de parêntesis, o símbolo escolhido para caracterizar o disco. As músicas não tinham títulos e o disco surge com a novidade do vonlenska. Ainda que careça de confirmação oficial, a verdade é que este ponto na carreira dos Sigur Rós poderá estar relacionado com a saída de um dos fundadores do grupo – Águst – cuja substituição ficou garantida com a entrada de Orri Dyrason.

Talvez seja de Takk – o quarto álbum – que tenham saído alguns dos maiores êxitos da banda. Este disco, que Jónsi referiu como sendo uma ‘‘feliz aventura’’, tinha o propósito de romper com aquilo que o grupo já tinha passado aos seus seguidores. ‘‘Era preciso introduzir uma maior sonoridade, sair do registo mais melancólico, que viam em nós’’, disse Hólm, na altura. Dos singles, destacaram-se os aclamados Hoppípolla e Sæglópur.

Með suð í eyrum við spilum endalaust, foi o último dos trabalhos dos Sigur Rós, antes da paragem, para o desafio a solo de Jónsi, tendo sido editado em 2008. Muitos consideraram-no a evolução natural de Takk, com melodias mais populares. Exemplo disso foi a primeira música em inglês – All Alright, editada pela banda, onze anos depois de ter lançado o primeiro trabalho. Porém, foi Festival, que entrou no filme 127 Horas, de Danny Boyle, a música mais marcante do álbum.SigurRosPicks

Ainda assim, cinco anos depois, e com o sexto trabalho editado, Valtari, os Sigur Rós mantém-se iguais a si próprios, revelando uma capacidade invejável de conseguir recuperar na totalidade a sua essência. Varúð, que conduziu o texto, e Fjögur píanó, no qual o norte-americano Shia LaBeouf surge no videoclipe, são boas razões para se acreditar que o espírito permanece imutável. A 13 de Fevereiro, no Coliseu do Porto, e no dia seguinte, no Campo Pequeno, serão certamente aplaudidos, pelos fãs portugueses que aguardam a apresentação ao vivo de Valtari. Em Setembro, num festival em Inglaterra, pediram desculpa aos admiradores, por um concerto abaixo das expectativas. Um exemplo de vitória, fazendo figas para que no próximo mês seja diferente, e mereçam rosas atiradas ao palco.

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Vítor Teixeira

Gosta de letras e do que se pode fazer com as mesmas. Interessa-se por compreender e comunicar tudo o que se passa à sua volta, exactamente um género de repórter-sombra, solto, por aí.

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