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Violência no ADN: o que ambiente pode despertar

Atentados como o de Londres, em Julho de 2005, e o de Madrid, em Março de 2004, reforçaram o carácter prioritário da luta contra a radicalização violenta. Esta realidade, que tem vindo a despertar o interesse de inúmeras organizações, não é indiferente à Universidade de Coimbra, nem a áreas da genética que têm vindo a procurar as causas da violência humana.

Uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra (UC) está a colaborar num projecto de investigação europeu sobre a radicalização violenta na Europa. Este, denominado SAFIRE, é financiado pela União Europeia e envolve, desde 2010, diversos peritos de seis países: França, Holanda, Inglaterra, Itália, Israel e Portugal, representado pela UC. “A equipa portuguesa centrou-se na questão cultural. Estudou os documentos oficiais europeus sobre o tema e fez uma extensa revisão da literatura neste domínio. Depois, realizou um vasto conjunto de análises, utilizando as bases de dados europeias e centrando-se nas variáveis que se relacionam com a cultura”, afirma a redactora do Ciência Hoje, Luísa Marinho. Os resultados preliminares, segundo a jornalista do PT Jornal, Cristina Pinto, mostram a predominância dos aspectos socioeconómicos (como o PIB e o desemprego) e políticos como os principais responsáveis pela violência. Constata-se, ainda, que a participação política dos cidadãos e a confiança nas autoridades estão associadas a valores mais baixos nos indicadores de terrorismo. No entanto, apesar dos resultados, a investigadora que liderou a investigação na UC, Ana Figueiredo, explica que perceberam que os factores culturais, só por si, não podem ser responsáveis por acções violentas.

As causas responsáveis por acções violentas são, hoje, também analisadas pela genética, a qual, na última década, teve um avanço significativo no campo neurocomportamental da agressão e da violência. Porém, apesar do conhecimento das contribuições genéticas implicadas na conduta violenta e da interacção dos factores genéticos com o ambiente, actualmente, não se conhecem os mecanismos exactos pelos quais os factores genéticos contribuem para estas condutas. “Provavelmente, os aspectos genéticos que influenciam os níveis hormonais e os neurotransmissores, entre outros, afectam consequentemente o comportamento”, diz o professor do Departamento de Psicobiologia da Universidade de Valência, Luis Moya-Albio.

Os autores do livro Genetic and Environmental Influences on Antisocial Behavior, Rhee e Waldman, apresentaram uma revisão quantitativa dos estudos genéticos em conduta anti-social e agressiva, na qual incluíram dez estudos de agressões físicas, cinco em crianças e cinco em adultos. Os estudos mostraram que as diferenças genéticas explicam parte substancial da variação da agressividade. No entanto, devemos ter em atenção outros factores, além do próprio gene, quando referimos à expressão do mesmo. É importante, então, ter em mente que nas ervilhas estudadas por Mendel, a relação entre genótipo e fenótipo é directa, ou seja, para cada genótipo existe um fenótipo correspondente, mas “a vasta maioria das características morfológicas, fisiológicas, ou comportamentais não segue padrões tão simples, pelo contrário, o fenótipo dos organismos ao longo do desenvolvimento é marcado por interacções complexas entre genótipo e ambiente”, diz o membro do departamento de Genética e Morfologia da Universidade de Brasília, Rosana Tidon. Assim sendo, podemos concluir que um mesmo genótipo expressa diferentes fenótipos em ambientes variados, de uma maneira não previsível.

Segundo Luis Moya-Albio, alguns factores ambientais, como o maltrato, têm um efeito importante na expressão de genes específicos e, consequentemente, na conduta agressiva das pessoas. No entanto, é provável que existam diferenças genéticas individuais que regulem as respostas mediante estes factores ambientais. Por outro lado, importa ter em conta que não é qualquer tipo de agressividade que pode ser influenciada pelo meio. “Temos que diferenciar entre a agressão persistente e a pontual, ou ocasional, já que a primeira se explica fundamentalmente por factores genéticos, enquanto a segunda seria resultado da interacção dos genes com o ambiente”, aponta Luis Moya-Albio.

É essencial considerar que o ambiente desempenha um papel importante na expressão de um fenótipo que tem uma determinada carga genética, pelo que a sua modelação, controlo e manipulação pode ser fundamental para a prevenção e tratamento dos actos violentos. Assim, podemos tomar consciência do impacto do mundo e da sociedade na expressão das características de violência em cada individuo. Importa, então, agora pensar na responsabilidade que cada membro da sociedade tem na radicalização violenta.

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Marisa Mourão

Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. É apaixonada por uma boa história. Ainda é das que acredita que os media podem ajudar na construção de uma cidadania ativa.

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