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ContosCultura

Vermelho Escarlate – 2

Quase um mês após o desaparecimento de Dália, os inspectores da polícia andavam de novo pelo bairro batendo a cada porta, uma após a outra, aproveitando o fim-de-semana. Procedimento habitual, anunciavam eles. Estavam de facto a ouvir todos os moradores, pela segunda vez. Com a ausência de qualquer indício sobre a bela Dália, procuravam deste modo encontrar a mínima discrepância que fosse entre os testemunhos recolhidos antes. Ouviram Alice e os outros moradores.

Eram quase 11 horas da manhã quando se aproximaram da casa de Vilar. Iam com alguma curiosidade após terem ouvido rasgados elogios às suas rosas. Também eles se detiveram a olhá-las quando entraram no pequeno quintal em frente da casa, mas interrogaram-se de onde vinham tamanhos elogios. Eles olharam e não se via o vermelho escarlate, não se sentia o fogo das suas pétalas que todos haviam contado. Bateram à porta e esperaram. Sem resposta, voltaram a bater. Só na terceira tentativa ouviram a voz de Vilar vinda dos confins da casa. Pouco depois o rapaz abre a porta a contra gosto, após os inspectores se anunciarem.

Vilar cerrou os olhos num movimento involuntário. A luz do sol feriu-o, acabado de acordar. Respondeu às perguntas que lhe fizeram sem qualquer manifestação no seu rosto, ainda fechado pelo sono. Ouviu o agradecimento e um insincero pedido de desculpas pelo incómodo. Ficou a olhar os inspectores enquanto eles atravessavam o pequeno quintal e num momento irreflectido, num gesto instintivo, soltou um esgar de dor ao ver as suas rosas a perderem a cor. Os inspectores pararam e olharam-no surpresos, sem compreender. Ele correu e ajoelhou-se em frente às rosas. Tocou-as com a sua delicadeza mas duas pétalas caíram. Vilar paralisou a olhá-las enquanto planavam lentamente até tocarem o chão. Os inspectores olharam-se e não mais dali saíram.

Aproximaram-se de Vilar, viram as lágrimas que começavam a percorrer o seu rosto. Em silêncio ouviram-no entre soluços de dor.

– Eu matei a Dália…

Nada até àquele instante os havia preparado para aquela afirmação. Tentaram segurar Vilar para o levar para o interior da casa, mas ele recusou e começou a falar. Revelou como desde o primeiro momento se apaixonou por Dália, em como a sua beleza o inebriou ao ponto de comandar todos os aspectos da sua vida. Relembrou o encantamento que se apoderava dele quando a via passar. Recordou as primeiras palavras que trocaram, sem malícia e vibrantes de paixão. Contou como aos poucos a jovem se deixou entrar na vida de Vilar. Primeiro com palavras de poesia que despertaram a atenção dela, depois com um toque na mão, na face e por fim no coração.

Vilar olhava as rosas fixamente com um olhar distante enquanto falava de Dália. Olhava-as e via-a, também ela distante. As lágrimas começavam a secar e a sua voz deixou de tremer no momento em que contou aquela noite em que a bela Dália se deitou com ele e fizeram amor pela primeira vez. Foi há pouco mais de três meses, ainda ela era menor, mas já uma mulher. Passaram dois meses de uma inebriante paixão que nenhum parecia conseguir saciar. Protegidos pela noite, encontravam-se em segredo, longe das vozes e dos julgamentos do bairro. Até que naquela noite de aniversário Dália conta-lhe que agora, sendo maior, queria descobrir o mundo. Consciente da sua beleza, sabia que o podia conquistar. Mas para conseguir não podia levar Vilar.

As palavras dela, ainda que doces, feriram-no no seu interior. Vilar sentiu-se incapaz de a questionar sobre a sua decisão, até por saber não haver argumentos que a prendessem a si. Naquela noite despediram-se. Deitaram-se para se amarem uma última vez. Mas Vilar não via vida além daquela noite e sob lágrimas, inundado num desespero interior e numa calma exterior que o surpreendeu, segurou o pescoço dela e apertou-o com força. Sentiu-a a espernear tentando libertar-se até a um último momento em que o olhou nos olhos. Vilar sussurrava-lhe ao ouvido o quanto a amava quando a vida abandonou o corpo de Dália.

Nessa mesma noite, regou as rosas com o sangue dela. De manhã encontrou-as a flamejar vibrante vermelho escarlate e passou a cuidar delas como se cuidasse de Dália.

Naquele fim de manhã, todo o bairro assistiu ao momento em que Vilar foi levado pela polícia. Depois do segredo revelado, um enorme pesar caiu sobre todos. Em silêncio, vez a vez, entraram no quintal dele e ajoelharam-se diante das rosas a murcharem, numa última homenagem a Dália, a rapariga mais bela do bairro.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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