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Venezuela: um poço sem fundo com muito petróleo, mas pouco mais

Do ponto de vista histórico, uma das críticas que prevalece em relação ao Marxismo é a facilidade com que um sistema político dependente da figura única de Chefe de Estado – mais cedo ou mais tarde – se torna num despotismo esclarecido com resultados miseráveis, quer do ponto de vista económico, quer humanitário. A Venezuela é o exemplo mais recente, onde se destaca uma hiperinflação catastrófica que delapidou toda a sociedade da riqueza e valor que detinham. Dois milhões de pessoas abandonaram o país e mais de 90% da população que lá permanece vive em condições de pobreza. Estes valores são chocantes, mas previsíveis para quem acompanhou o desempenho económico do país nos últimos 35 anos.

A partir da década de 50, a exploração petrolífera no país abriu horizontes surpreendentes para a população venezuelana, que tinha acesso a salários e serviços públicos invejáveis para países vizinhos da América do Sul. O panorama animador, que fazia prever um estatuto cada vez mais consolidado da Venezuela, alterou-se no decorrer da década de 1980. A queda do preço do petróleo significou, em simultâneo, uma contração da economia e taxas de inflação altamente penalizadoras, o que se traduziu num aumento da população em condições de pobreza de 36%, em 1984, para 66%, em 1995. Pelo meio, a liberalização de vários setores serviu para uma recuperação forte do PIB, o que não acalmou a sociedade venezuelana, uma vez que os quadrantes mais pobres não provaram qualquer melhoria da sua condição.

Perante este cenário, a desconfiança na classe política aumentou progressivamente – até culminar na eleição de Hugo Chavez, em 1998. O desempenho do célebre ex-Presidente na condução do país foi flutuante[1] e, em retrospetiva, correlacionado com os preços do petróleo, sucesso das indústrias associadas e do próprio contexto macroeconómico. Esta tendência verifica-se nos mandatos de vários Presidentes do país, todos eles incapazes de promover uma diversificação da economia venezuelana[2]. Ainda assim, Chavez sempre gozou duma popularidade generalizada, devido aos programas sociais que ergueu.

Com a sua morte, a Venezuela foi brindada com Nicolás Maduro, apontado como o sucessor da dinastia socialista e posteriormente o criador do inovador cargo de Vice-Ministro para a Felicidade Social Suprema. Reforçado pela vitória nas eleições de 2013[3] e herdeiro dum Estado abrangente, Maduro rapidamente começou a governar de forma arbitrária, revivendo um estilo absolutista que evita a aprovação em parlamento dos decretos presidenciais. O insucesso das suas políticas públicas e consequente decréscimo de popularidade levaram Maduro a silenciar oposição e imprensa, alimentando a perspetiva dum líder incompetente, mas inamovível, que arrasta consigo todo um país para o poço sem fundo.

Que a direita aproveite esta situação para descredibilizar o Socialismo é completamente normal, até porque, diga-se, a personagem e comportamento de Maduro justificam o receio da dependência excessiva de um único sujeito. O que nos deve preocupar mais é a forma como partidos ideologicamente próximos à administração venezuelana sintam pudor de condenar Maduro e a eliminação dos princípios democráticos nesta sociedade. Repudiar um líder político que tem um pensamento semelhante ao nosso, mas que não respeita regras básicas da democracia liberal deve ser possível – aliás, devia ser natural. Ninguém é adepto do capitalismo sem freios só porque não se revê nesta administração tirana e incompetente.

[1] Não esquecer o impacto da tentativa de coup d’état em 2002 e especialmente da paralisação da indústria petrolífera nas grandes greves gerais de 2002-2003. Esta última representou uma contração de 27% do PIB da Venezuela nos 3 primeiros meses de 2003!

[2] É evidente que, tendo governado nos últimos 20 anos, a frente socialista é a principal responsável pelo cenário atual, mas importa não esquecer o escasso sucesso económico do país desde 1980, independentemente da orientação ideológica dos líderes políticos.

[3] Um sufrágio não isento de polémica, com o adversário de Maduro a rejeitar o resultado.

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David Gil Gonçalves

A política é o vetor que une os meus principais interesses: economia, sustentabilidade, comunicação e filosofia. Gosto de análises imparciais, de ouvir e ler um pouco de tudo, porque não acredito em preto e branco. Nos meus tempos livres podem encontrar-me a fazer desporto, ler ou, como todos os outros humanos do século XXI, a viajar.

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