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Vende-se

Era-lhe desconcertante a forma como a sua pequena casa cabia naquela rua. Tinha as paredes de madeira pintada com cores pastel evocando o verão. Um alpendre onde a vida muito o convocou a sentir a alegria de se estar vivo. Uma pequena cerca branca como que indicando a fronteira da sua realidade com o exterior. Exterior de onde a sua casa parecia apenas um pequeno caixote de madeira subjugado ao betão das construções vizinhas. Era assim que todos viam aquela casa quando a olhavam.

Mas ninguém conhecia a beleza simples das suas paredes. Todos os sentimentos que as paredes carregavam e protegiam eram os de alguém simples, feliz, humilde, humano. Alguém a quem queriam retirar a terra onde assentavam as suas raízes. Não podiam adivinhar a promiscuidade entre alguém e a sua casa. Eram segredos.

Um dia bateram à porta e anunciaram-se, “é o progresso”. A porta manteve-se fechada mas tal figura invasora entrou sem ser convidada. Invadiu a pequena casa pelas janelas abertas carregando um ar que não era o fresco de maresia pelo qual estavam abertas. Carregou um ar pesado de pó com cheiro a betão, aço, tecnologia e tristeza.

O rapaz não teve como lutar. Nunca fora ensinado a combater o tempo de frente. Sabia que não havia no mundo quem o pudesse ensinar. Lutou com o que tinha, consigo próprio. Mas nessa luta viu-se derrotado pela inevitabilidade. Alguém que não conhecia decidiu por si. Disseram-lhe que foi a ordem jurídica. Uma ordem que o ordenou a deixar a sua casa e como consequência desordenou a sua vida. Apenas lhe foi dado um cheque, triste e leve compensação, como que comprando as memórias que tinha que deixar naquela casa. Estava assinado pelo juiz que lhe disse que aquela rua, a rua que sempre fora sua, era agora uma rua de todos e exclusiva ao comércio. Habitar ali era agora um delito. “Quer dizer, Sr. Juiz, que está a pagar-me para não cometer um delito?”

O olhar de sentida humanidade do Juiz era o que se lembrava enquanto empilhava cadeiras, mesinhas, móveis, prateleiras, candeeiros e tudo o mais que eram pedaços da sua vida. O passeio da agora rua exclusiva ao comércio começava a ficar preenchido enquanto esperava a carrinha que o iria ajudar a abandonar-se. Alguém gritou para o alpendre onde se encontrava, “desculpe, quanto custa este conjunto de prateleiras?”. Não está para venda. Disse-o três vezes até que trocou o não por um sim. Depois voltou a colocar todos os pertences na casa que era e sempre seria a sua.

Poucos dias depois, as mesmas mesas e cadeiras, móveis e prateleiras, molduras e candeeiros, estavam expostos no passeio e no pequeno relvado em frente ao alpendre de onde ele sorria e respirava a paz. Aquele que um dia fora o juiz que o ordenara a viver diferente, lia atentamente todas as etiquetas penduradas com preços nos mais diferente objectos. Todos eles tinham após os números uma frase simples e inconclusiva: “ou algum artigo para troca”. O homem arrancou a etiqueta de um espelho alto com uma velha moldura envernizada. Levou-lhe o papel e pagou. Sorriu e agradeceu. Içou o espelho carregou-o rua abaixo até desaparecer. Voltou mais tarde com uma velha mesa de madeira apodrecida. O rapaz sorriu e passou a tarde a lixar a madeira da velha mesinha. Tratou-a, pintou-a, envernizou-a. Embelezou-a e deu-lhe uma nova vida. Pendurou uma etiqueta e expôs a mesa em frente ao alpendre da sua loja. Que era também, ainda e sempre, a sua casa.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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