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Vai-se a História, fica a memória

Em Maio, já se falava, um pouco por todo o mundo, na invasão de Palmira pelo grande califado da actualidade. Por terras lusas, o Público citava, a 25 de Maio, um crítico de arquitectura, que descrevia, num artigo para o periódico britânico The Guardian, essa cidade como “um lugar de tolerância, onde pessoas de vários países e culturas podiam viver juntas.” Entretanto, o arqueólogo responsável pelas ruínas endógenas é morto pelos militantes do EI, anúncio feito há, sensivelmente, um mês. Nos finais do mês de Agosto, é destruído um dos principais templos da zona, a que se seguiram as torres funerárias, descritas como “as mais preservadas e belas” pelo director de antiguidades da Síria.

Mais episódios semelhantes existem. Basta ver como alvejam zonas de influência reconhecidas pela UNESCO, como é o caso de Nimrud. Remontada a sua origem ao século XII a. C., essa cidade iraquiana é considerada o berço civilizacional. Num vídeo publicado na Internet, em Abril, vários indivíduos surgem a brutalizar rastos ancestrais de um museu da mesma localidade.

Táctica. Limpar tudo por um novo começo. Porquê? A explicação pode ser uma: almejando reconstruir um novo Estado, um novo império, onde imperem os valores islâmicos, mas, acima de tudo, a imposição da autoridade e a formatação das mentalidades, associadas a uma crença de adopção de bons hábitos e oferenda de qualidade de vida. Nisto, de forma sucinta, vem a questão dos homossexuais que são atirados de um muro abaixo, ou da figura feminina sem idade que é sexualmente explorada. Estas últimas revelam-se formas de mostrar a necessidade de impor uma ideologia.

Pegando na ideia da imposição ideológica, destrói-se fisicamente, avassala-se sentimentalmente. Mais do que arqueologia, existe a História, todo um conjunto de objectos, visões, acontecimentos, figuras representados para recordar, viver, sentir. Se, enquanto ciência social, se preocupa em basear-se no passado para perceber o presente e construir o futuro, este avassalar massivo dificulta o próprio avanço desta, fazendo com que se inicie uma espécie de mundo novo.

Um ataque, uma ameaça. Um avanço? Na verdade, quanto mais fica destruído, maior é o bel-prazer da purificação, ou seja, as suas colónias ficam libertadas do mal mundial, como os respectivos crentes entendem ser, chamado globalização, que envolve os EUA e outras potências mundiais intervenientes no conflito. Há cerca de três meses, o DN partilhou um mapa colocado pelo dito califado no Twitter e que chegou a aterrorizar alguns europeus. Aí, onde se previa a conquista dos países a serem parte do supracitado califado.

A destruição do património arqueológico tem sido uma aposta recorrente. Muito embora a garantia do director sírio de antiguidades da embalagem e da catalogação das obras de arte, na Síria, como forma de encontrar uma protecção para elas, este fenómeno prossegue. Até quando pagarão as relíquias e as exclusividades? Até quando pagarão as pessoas? É caso para afirmar: vai-se a História, fica a memória.

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Pedro Ribeiro

Nascido em 1996, por terras vimaranenses, tem como principal ocupação os estudos na licenciatura de Ciências da Comunicação. Apreciador das relações Media e Sociedade e Sociedade e Cultura, o seu objetivo passará por se especializar na área do jornalismo. Nesse sentido, conta com várias colaborações, a desenvolver atualmente, de forma simultânea: para o jornal ‘ComUM’, no qual é redator nas secções de Cultura e de Sociedade, para o jornal ‘Académico’, juntamente com a sua participação semanal no ‘Repórter Sombra’, onde opina nas áreas de Sociedade, Cultura e Política. No seguimento desta última área, milita na Juventude Socialista, tendo-se revelado publicamente ativista da candidatura de António José Seguro. Além disso, desenvolve um certo carinho pela sociologia, a que se junta a filosofia e, ainda, uma enorme paixão por viagens.

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