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União de facto, ou união de afectos?

As férias trazem por vezes episódios que nos põe a pensar na vida. Estamos habitualmente mais descontraídos, com menos que pensar, e se não houver meia dúzia de putos a gritar de volta da piscina, o nosso espírito aproveita para trazer ao de cima questões em que habitualmente não pensamos, na corrente dos dias.

A minha família foi de férias. Fomos 5, que a cadela ficou bem entregue a uma amiga. A nossa família humana é constituída por um casal de 2ª geração, heterossexual não casado, e 3 adolescentes, 1 rapaz de 13, uma menina de 13, e outra de 15.  O menino é meu filho de sangue, um mini-me em versão masculina, e as meninas são filhas de sangue do meu namorido, mini-him em versão feminina. Somos assim 1 morenaço (meu filho G), uma morena (eu) e 3 branquinhos, loiros de olhos claros (R, M1 e M2). Uma família como qualquer, afinal, diversificada como tantas que as há,  mesmo de sangue.

Quando saímos juntos, e as férias propiciam mais esses acontecimentos, ouvimos coisas engraçadissíssimas, embora perfeitamente descabidas.

Certa vez, num restaurante, ouvi alguém comentar que o menino era a cara da mãe, mas as meninas eram a cara do pai. Confesso que sorri, de facto é verdade, mas a perspicácia foi imensa, considerando que nem o pai dele, nem a mãe delas,  estavam presentes para apreciação.

Outra vez, numa feira, eu e as miúdas fomos tirar rifas, e pergunta a vendedora: como é que uma mãe tão morena (era Verão e eu estava bronzeada) teve filhas tão branquinhas e loiras e de olhos claros? A pergunta seria idêntica com a mãe delas, que também é morena.

Em outra ocasião, num baptizado, uma senhora perguntou-me se o parto das gémeas (M1 e M2 que têem 21 meses de diferença) tinha sido difícil. Respondi que não eram gémeas, e que não era a mãe delas. A senhora morreu de vergonha, encavacada.

Uma vizinha chegou a dizer-me que o meu filho era mais parecido com o meu namorido (por ser alto) do que com o pai . Felizmente eu sei o que andei a fazer, antes que os rumores começassem…

Outros vêm perguntar-me por que não me caso, se o meu namorido não se sente desconsiderado por eu ter sido casada com outro mas não com ele. Ou se eu não me sinto desconsiderada por ele ter sido casado anteriormente. Por amor da santa, só consigo responder que devemos aprender com os erros, e rio-me, porque não há outra reacção possível.

Nestas férias, o arrendatário da casa perguntou aos miúdos se eram irmãos, e eles responderam que sim. Porque se sentem irmãos, de facto.

Parece-me natural que as pessoas comentem, mas se pensar bem, porque hão-de fazê-lo? Qual o interesse destas questões a roçar o íntimo? Na minha família há um casal moreníssimo que teve 2 filhos, um idêntico a eles, o outro louro de olhos azuis. E são uma família sanguínea.

Às vezes, as pessoas excedem os comentários. Quando acho que já começa a ser demais, uso da táctica da confusão. O puto e a M2 são da mesma idade, tendo apenas 20 dias de diferença. Mas as meninas são de facto parecidas, de estrutura idêntica, passando por gémeas frequentemente. Para lançar a confusão basta apenas dizer que afinal o G e a M2 é que são da mesma idade, e vejo que a pessoa fica perdida a imaginar como é que um morenaço e uma branquelinha são gémeos, e pior, nasceram com 20 dias de diferença, num qualquer evento digno do Entroncamento. Normalmente desistem e largam-nos com as perguntas, mas ainda assim continuam a olhar para nós como se fossemos algo raro.

Ora, pensei eu, enquanto atentava na piscina a um casal que estava com o filho, apenas dele, que basta estar atento, não precisamos fazer um inquérito às pessoas. No caso, o menino chamava pai e Carla. Pareceu-me esclarecedor. Não precisei incomodar com perguntas invasivas. Atentei a mais, a Carla dizia para o menino: liga à mãe que ela vai ficar contente. Gostei desta boa-drasta, confesso.

Mas voltando ao tema, parece-me que não tenho de andar a justificar a minha família. Não tenho de explicar porque sou ou não casada, se tenho 1 ou 3 filhos, se eles foram gerados em noite de luar e signo de Capricórnio.

A lei, a sociedade, criou o conceito de união de facto para o casal, mas e a família? As pessoas continuam resistentes a famílias não convencionais, apesar de tudo, como se necessitássemos justificar factos. Estarmos juntos é uma opção, consequência do casal, embora legalmente possamos não ser um agregado unificado, muitas vezes subdivididos pelos 4 progenitores, intra e extra o núcleo familiar em consideração.

Por isso, e ter demasiado tempo livre mental dá nisto, considero que mais do que união de facto, deveríamos falar em união de afectos, alargado ao agregado. Se querem por um nome, sugiro esse.

Os putos mergulham, os 3, o meu e as minhas, e não posso deixar de notar que este Verão passei a ser a mais pequena da família, eu no alto (ou será baixo?) dos meus 171 cm. Responder a tantas perguntas ainda vá,  mas ser a mais baixa? Nota para o regresso: comprar saltos altos com urgência.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em 4 Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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