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Unbreakable Kimmy Schmidt

Pessoas positivas são irritantes. É por isso que a maioria das personagens de televisão mais amadas da actualidade são grosseiras, cínicas e maldispostas. Nós adoramos rir-nos da sua visão pessimista do mundo, ou da forma como vivem vigorosamente a sua falta de moral. Na realidade, queremos tanto ver personagens negras e repletas de falhas, que muitas delas não podem ser criadas para programas de canal aberto e têm de fugir para canais alternativos, como os serviços de streaming, como o da Netflix. Só assim é possível explorar na sua totalidade a profundeza da sua depravação moral.

Portanto, é algo surpreendente que a Netflix, o mesmo serviço que nos apresentou à personagem demoníaca de Kevin Spacey, em House of Cards, nos apresente agora uma das melhores novas personagens que uma série apresentou nos últimos tempos. O seu nome é Kimmy Schmidt e a sua característica mais definidora é o facto de ter o mais brilhante e cativante sorriso que alguma vez vi na televisão. Não é um sorriso misterioso, nem um sorriso idiota. É genuíno. É agradável. E em Unbreakable Kimmy Schmidt, não existe uma gozação com o mundo que cria. Muito pelo contrário. Convida-nos a sorrir também. Algo que fazemos, muitas vezes, ao longo do primeiro episódio.

Tendo em conta a obsessão que a cultura actual tem com o sarcasmo e a ideia de que nenhuma má acção deva passar sem castigo, é algo progressivo em termos criativos criar uma série com estas características e coloca-la lado a lado com outras tão negras. Só Tina Fey seria capaz de criar esta série e torna-la num guilty pleasure, do qual não nos arrependemos. Tem um sentido de humor muito semelhante a 30 Rock, em que caminha por uma linha comercial, mas mantendo sempre uma identidade muito própria.

A personagem principal é interpretada por Ellie Kemper, com uns olhos grandes e um sorriso ainda maior, é-nos apresentada, enquanto coloca uma estrela numa árvore de Natal. Ela depois vira-se para as suas amigas, para falarem dos seus presentes de amigas secretas. Porém, quando o grupo de mulheres começa a cantar é que começamos a perceber a negritude do mundo em que vivem. “Apocalipse, apocalipse, nós causamo-lo com a nossa burrice”, cantam ao ritmo de “Pinheirinho de Natal.”

Umas quantas cenas depois, as mulheres são resgatadas do bunker, onde viveram nos últimos 15 anos, como parte do culto do juízo final do Reverendo Richard Gary Wayne. São levadas para Nova Iorque, onde aparecem num programa de televisão, para falarem da sua experiência como mulheres toupeira. Os minutos seguintes marcam o tom que a série irá ter: uma premissa elaborada, um argumento atento ao mundo em que vive e uma sensação de tristeza e injustiça, que é ampliada pela energia luminosa que Ellie Kemper transmite (por alguma razão, o nome da série parece ter saído da capa de uma banda desenhada de super-heróis).

Este segmento passa depressa, com a única pergunta do apresentador – como caíram nas malhas deste culto – a arrancar gargalhadas com facilidade. “O reverendo comprou algum do meu cabelo num site na Internet e começámos a trocar alguns e-mails e eu achei que ele tinha muito boas ideias”, respondeu uma. “Eu servia diariamente o reverendo Richard num restaurante e uma noite ele convidou-me para ir ao carro dele, para ver uns coelhos bebés, e, como não quis ser mal-educada… aqui estamos nós”, conta outra. Com a entrevista dada, todas as vítimas são despachadas para fora do estúdio por um dos produtores, que lhes dá um saco de prendas e que lhes deseja boa sorte. Porém, no meio deste tratamento desumano e de tanta negatividade, Kimmy Schmidt decide tentar a sua sorte nesta cidade e fica a viver em Nova Iorque.

Ellie Kemper criou uma Kimmy com uma sensação de espanto que facilmente nos faz lembrar de Will Ferrell, em Elf, Jennifer Garner, em 13 Going on 30, e Tom Hanks, em Big. Ela corre ao lado de pessoas a fazerem jogging, porque, na sua cabeça, porque é que ninguém estaria entusiasmado por correr ao ar livre? Ela ri-se de um lavatório automático, com o mesmo entusiasmo com que Julia Roberts recebeu um colar de pérolas, em Pretty Woman. Ela janta doces e, de um modo geral, a sociedade moderna confunde-a muito, mas de uma forma engraçada e curiosa, em vez de se assustar com tudo.

A despreocupação é uma cor que lhe assenta maravilhosamente bem. “Onde está o teu adulto?”, pergunta a um pequeno rapaz, depois de o ver roubar doces. “Estás sozinho? Ou és uma espécie de homem de negócios anão?” O rapaz decide levá-la até à sua mãe, uma mulher tão rica, quanto narcisista chamada Jacquline Voorhes, interpretada pela excelente Jane Krakowski. Jacqueline rapidamente contrata Kimmy para ser a ama do seu filho e prossegue a sua vida, roubando a nossa atenção em todas as cenas em que aparece e dizendo one-liners deliciosos.

É fácil comparar esta série com 30 Rock, já que, em termos de tom, ambos aparentam ser semelhantes. Ambas exploram os trejeitos culturais norte-americanos e demonstram a forma como são (sem intenção) egocêntricos. Ambas utilizam nas falas dos personagens jogos de palavras que representam o espírito do tempo que é vivido. Contudo, o feito mais notável que ambas as séries alcançam é o de conseguirem de utilizarem de forma criativa e inteligente o enredo mais do que usado da “rapariga solteira que vai para a grande cidade”.

Este conceito, por esta altura, já devia estar esgotado, principalmente depois de Liz Lemon, em 30 Rock. Porém, ver o mundo através do optimismo cego de Kimmy é um contraponto interessante à frustração que Liz demonstrava ter e um testamento à capacidade representativa de Ellie Kemper, que consegue que a sua personagem não se torne num elemento retrogrado. Ela não é igual aos restantes. Ela tem atitude. Tem personalidade e é desafiadora. É por isso que nunca duvidamos de que será capaz de atingir todos os objectivos a que se propuser. O seu espírito é representante demonstra a nova oportunidade na vida que conquistou faz com que qualquer um que esteja a destruir as suas oportunidades na vida pense duas vezes antes de o voltar a fazer.

Unbreakable Kimmy Schmidt não usa a liberdade que um serviço de streaming como o Netflix oferece para explorar a nudez, a profanação das personagens, ou a depravação moral, como outras séries fazem. Em vez disso, usa essa liberdade criativa para aumentar e abraçar a estranheza que é inerente à série (afinal de contas, isto é uma série sobre uma sobrevivente de um culto) e, no fim, tornar todos os elementos relacionáveis a um nível muito humano. Ou seja, como um produto que é feito da soma das suas variadas partes, esta série não necessita de muitos elogios para ser obrigatória na lista de qualquer pessoa.

Este sim é um culto a que vale a pena aderir.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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