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Uma Viagem pela Segunda Temporada de Orphan Black

Com a acção ao rubro, twists surpreendentes e ainda mais clones, a série de culto de ficção científica do canal norte-americano BBC America desenvolveu uma temporada única e especial. Orphan Black é facilmente uma das séries mais ambiciosas na televisão actual. Construir várias teorias da conspiração em torno de clones, criar momentos de acção que se desenvolvem em crescendo, à medida que os minutos vão passando, e uma caracterização cuidadosa de personagens não é uma tarefa fácil, mas grande parte da segunda temporada da série só conseguiu apresentar aos espectadores nada mais, nada menos do que momentos de excelência. Apesar de ter-se perdido tempo a apresentar um conjunto de personagens que nada acrescentaram à narrativa, tenho de dar o braço a torcer e afirmar que Orphan Black conseguiu estabelecer-se como uma série a seguir, durante muitos anos.

Um dos factores que contribuiu para que esta temporada tivesse um grande significado foi a decisão de se tornar mais negra em termos de história e abraçar as temáticas mais longas em termos de desenvolvimento e que foi estabelecendo ao longo da primeira temporada. Orphan Black sempre teve um modo muito seu de começar um debate sobre a clonagem humana e o direito à individualidade de cada um, mas nunca antes foi tão directa na sua abordagem. Desta feita, criou subtilmente uma discussão sobre o corpo das mulheres e como a sociedade, especialmente os homens, veêm a sua utilidade. Quer tenha sido através da linha narrativa sinistra dos Prolethian, que pretendiam recolher os óvulos de Helena, ou o interrogatório devastador a Sarah levado a cabo por Dyad, no episódio final de temporada, esta série soube popular a sua trama com tópicos sociais.

Porém, a verdadeira genialidade provem do facto destas temáticas nunca roubam espaço aos conflitos pessoais das personagens, ou à energia que a narrativa vai construindo. A natureza subversiva da série permite-lhe criar intensas sequências de acção, que convivem em simultâneo com a abordagem de questões sociais mais sérias. Logo no primeiro episódio desta temporada, Sarah aparece a deitar a baixo uma parede da casa de banho de um restaurante, personificando o seu clone Cosima, e a dar um murro em Rachel, outro clone seu. Orphan Black é muito mais do que uma serie de ficção científica complexa. É uma série muito divertida e que sabe prender a nossa atenção ao ecrã.

Apesar das graves implicações associadas à existência dos clones, ainda existem muitos momentos para dar gargalhadas. Por exemplo, Alison, cuja vida disfuncional nos subúrbios parece uma brilhante comédia negra, tem de lidar com o facto de que viu o seu vizinho morrer e de que o seu próprio marido é uma pessoa destacada para monitorizar todos os seus movimentos, ao mesmo tempo que faz parte do elenco de um musical sobre um assassinato intitulado de Blood Ties. Por causa destas situações, acaba por cair numa espiral de destruição com comprimidos e álcool, que a leva a ser internada para reabilitação por uns tempos. Quando regressa à sua vida, acaba por criar uma forte ligação com o seu marido, por causa da questão deste ter morto alguém. Noutra série e com outra actriz, esta história poderia tornar-se num melodrama, mas, com Tatiana Maslany a interpretar uma Alison com uma grande necessidade de estar sempre perfeitamente composta, esta história acaba por ganhar nuances muito especiais.

Orphan Black atinge o seu auge, quando os clones trocam de lugar umas com as outras e assumem as suas vidas, já que permite demonstrar o talento sem fim da actriz principal e o número de linhas narrativas que os argumentistas conseguem trabalhar em simultâneo. No maravilhosamente construído “Knowledge of Causes, and Secret Motions of Things“, é possível acompanhar Sarah a personificar Alison, durante a sua estadia na reabilitação, enquanto a verdadeira Alison, juntamente com Felix, tem de descobrir uma forma de se livrar do corpo de um inconsciente Vick. Ao mesmo tempo, a agente Angie está constantemente em cima de todos os assuntos relacionados com as clones e Donnie se encontra muito próximo de descobrir o grande segredo que a sua mulher esconde dele. Olhando para esta descrição, este episódio parece estar com demasiados acontecimentos em simultâneo, mas a série consegue lidar com todas as linhas sem falhas.

Ao longo da segunda temporada, novas personagens foram sendo introduzidas, variando no seu grau de interesse. Finalmente, fomos apresentados ao pai de Kira, Cal, cujo passado ainda está envolto em mistério, mas que forma um par romântico com Sarah muito credível, mas confesso que gostaria de ver mais lados dele a serem apresentados na próxima temporada, já que, na maior parte das suas aparições, esteve a cuidar da filha. Ou seja, não teve muito espaço para ser desenvolvido correctamente. Contudo, o prémio para a “Nova Personagem Mais Interessante” vai, claramente, para Rachel Duncan. Apesar de ter aparecido por uns segundos no fim da primeira temporada, foi nesta temporada que tivemos a oportunidade de a conhecer devidamente e ficar fascinados com a sua personalidade. Rachel é um clone consciente da sua condição, mas que não teve uma infância normal, como as restantes clones. Quando começamos a conhecê-la, é-nos apresentada como uma gélida corporativista, mas que depressa demonstra o seu lado mais humano, ao dar a conhecer a história de como perdeu os seus pais e a relutância com que leva a cabo determinados trabalhos da Dyad. O que realmente a torna verdadeiramente perturbadora é o quão implacável é forçada a ser. Exemplo disso foi a forma como usou a doença de Cosima para a manipular, ou como recolheu, por despeito, parte dos ovários de Sarah. É verdade que ficou sem um olho no último episódio da temporada, mas tenho a sensação de que não será a última vez que veremos esta vilã extraordinária.

Não se pense que Orphan Black é uma série sem falhas, mas sempre que elas aconteciam eram derivadas do excesso de atenção que era dado a uma personagem menos importante, como era o caso do Instituto Dyad e da seita religiosa Prolethians, que tentaram recolher para si o potencial que os clones representam. Felizmente, estes pontos nunca foram fortes o suficiente para se tornarem numa distracção. Depois do episódio final ter concluído, fica-se com a sensação de que Orphan Black continua a ser um série extremamente original e com a actriz mais excepcional a aparecer na televisão actualmente. Espero que na próxima temporada, este espectáculo televisivo seja capaz de se concentrar naquilo que o torna tão bom e não se perder por linhas narrativas que não são interessantes. Tenho esperança que o consiga fazer, já que os argumentistas já provaram que são inteligentes e que são capazes de aprender com os seus erros, ao contrário dos cientistas que trabalham na Dyad, que não aparentam ser capazes do mesmo.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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