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Uma paz que se conquista

Natal: momento em que esquecemos as frustrações do quotidiano, a crise que nos invade o bolso e a mente, para partilharmos um pouco de nós aos outros. Abrimos o coração para que se soltem sentimentos. Estamos como que inebriados por uma paz interior, que se estende a todos, de um modo geral. O Natal sempre teve este poder inexplicável, talvez por se situar perto do inicio de um novo ano, onde a esperança se vê renascida para dar lugar a uma consciência renovada. Mais que em qualquer época específica, deveríamos estar em paz, connosco e com os outros, nos 365 dias que o ano tem (ou 66, em caso bissexto), sem ser necessária uma época especial e, definitivamente, sem qualquer excepção à regra.

A origem das nossas motivações é variada. Agora, nesta época natalícia, posso arriscar que por estarmos de coração particularmente preenchido, somos mais generosos, menos atentos a nós, para atendermos aos outros. Nos restantes dias do ano as motivações que nos levam à acção podem existir com vista à satisfação de simples necessidades. A Teoria de Maslow, vulgarmente conhecida por Pirâmide Hierárquica de Necessidades de Maslow, propõe que as mesmas são organizadas por níveis de importância, sendo que na sua base se situam necessidades básicas de carácter fisiológico (entre elas, fome, sede, sono, sexo) e a progressão na pirâmide depende da realização de cada um dos níveis e só é conseguida à medida que cada um é satisfeito.

Maslow define o segundo nível pela necessidade de segurança, que emerge aquando da supressão das fisiológicas, e que é caracterizado pela necessidade que o ser humano tem de se sentir seguro, estável e protegido contra qualquer tipo de violência. Desta segurança nasce a paz. Infelizmente este sentimento não depende só do indivíduo, dado que o mesmo está inserido na sociedade, dependente que esta lhe proporcione tamanha sensação. Assim, a ausência de paz e consequente ameaça da segurança pessoal ultrapassa o nosso Eu e pode mesmo estar associada a períodos de guerra e de violência.

Ao longo da história mundial, a paz foi tantas vezes substituída por confrontos e episódios tristes, onde a segurança foi retirada. Apesar de vivermos numa era evoluída, habitada por seres humanos que primam pela inteligência e possuidores de recursos infindáveis, nem sempre tais recursos são utilizados com o melhor propósito, ou respeitam a nossa evolução. De facto, quanto mais são os recursos, maior é a necessidade fisiológica de poder (leia-se: sede) e menor o respeito pelas consequências do abuso dos mesmos.

Vivemos num mundo tecnológico, onde tudo aquilo que conhecemos é movido a energia. A energia nuclear tem como principal finalidade gerar electricidade, mas, na mesma medida, aliada a mãos “humanas”, foi responsável pela construção de armas nucleares que escreveram dos mais violentos bombardeamentos da história: Hiroshima e Nagasaki. Little boy e Fat Man foram os protagonistas principais de um holocausto nuclear, que teve como objectivo a aniquilação da civilização humana, justificada na rendição do Japão e no consequente cessar da 2ª Guerra Mundial. Justificações à parte e somando as duas, Little boy e Fat Man mataram aproximadamente 220 mil pessoas e as que sobreviveram, viveram numa morte eminente, provocada por um tecto radioactivo. Foram concebidas vidas que nasceram mal formadas, devido à exposição dos seus progenitores a esta radiação. “O Japão já estava vencido, às portas da rendição, e o uso destas armas foi desnecessário” – consideram alguns. No entanto, havia a necessidade de poder, que se sobrepôs a qualquer atenção, ou respeito ao ser humano. É importante salientar que a maioria dos mortos eram meros civis, ou seja, pessoas que foram vítimas desta troca de galhardetes e que somente desejavam que a sociedade em que viviam lhes providenciasse a já referida segurança.

Chernobyl-Today-A-Creepy-Story-told-in-Pictures-funfairJá em Chernobyl, apesar das mãos “humanas” não terem construído bombas nucleares, por serem humanas e não serem perfeitas, podem originar erros. Assim foi: um problema num reactor central conjuntamente com uma possível falha humana resultaram no maior e pior acidente nuclear da história. A nuvem radioactiva contaminou todos os organismos vivos, sendo difícil especificar o número de mortos, prevendo-se apenas que o mesmo se situe entre os 30 e os 60 mil.

O Japão volta a ser protagonista de peripécias nucleares, mas, desta vez, de carácter acidental. Em 2011, a Central Nuclear de Fukushima I é o epicentro do sismo e tsunami Tohoku. Apesar de todas as medidas de segurança previamente tomadas, a central foi atingida por um maremoto que a danificou. Os níveis de radioactividade afectaram os alimentos produzidos na área (que foram proibidos de serem vendidos), a água da torneira (que foi desaconselhado o seu consumo a crianças), os trabalhadores (que foram internados por precaução).

Quando recordamos todas estas tragédias, não podemos ficar imunes, nem tão pouco sentirmo-nos seguros, em momentos em que a história não é distante no tempo e é até bastante actual. 2011 foi somente há um ano e, por mais que todas as medidas preventivas sejam tomadas, os acidentes nucleares continuam a ser uma realidade. Desta feita, a necessidade de segurança é tantas vezes mais importante que a fisiológica. Quando nos sentimos ameaçados, a procura de refúgio é imperativa. Mais que sentir fome, sede ou cansaço, precisamos de nos sentir seguros para que possamos disfrutar de uma refeição, ou dormir em paz. Na busca desta segurança, Chernobyl é ainda uma cidade fantasma e assim se estima que seja durante os próximos anos. Desabitada de pessoas e habitada de medo, Chernobyl existe para que sempre nos recordemos que nem tudo está nas nossas mãos, que somos humanos e que cometemos erros, erros esses que custam vidas.

Fukushima voltou a avisar-nos do perigo da energia nuclear. Não prestámos atenção. Apesar da Central Nuclear de Fukushima I não estar em funcionamento, continua aberta. Em títulos de noticias lê-se: “Fukushima está finalmente estável” e eu questiono-me como pode estar estável se a natureza não o é. Em pleno século XXI, detentores de todo este conhecimento acumulado por anos de pesquisa, de toda a tecnologia desenvolvida até então, continuamos a ignorar os avisos que a energia nuclear nos dá, que a utilização da mesma é perigosa e, por ser controlada pelo homem, está à mercê de erros. É instável, porque também nós não controlamos o meio ambiente, não prevemos as catástrofes naturais, não podemos afirmar com segurança que, caso aconteça uma, a mesma não volte a provocar danos que se voltem a reflectir no homem. Conclui-se que estamos longe de estarmos realmente seguros, nem tão pouco de nos sentirmos seguramente em paz.

pazPara mim, estabilidade e nuclear, na mesma frase ou questão, soa a estranho e contraditório, principalmente quando temos ao nosso dispor na história (se a quisermos verdadeiramente ler), os mais variados episódios nucleares, independentemente da sua índole, provocada ou acidental. Posto isto, haverá mesmo necessidade das centrais nucleares permanecerem abertas? Ao manterem-se em funcionamento é como que se falassem para dizer que não houve qualquer problema que os seus trabalhadores tivessem sido internados, que os alimentos regionalmente produzidos tivessem sido desperdiçados, que a água que escorria da torneira fosse imprópria para consumo. Como se todas as vidas que a energia nuclear já retirou não significassem nada e não fossem suficientes para que aprendessemos a lição. É como que um fechar dos olhos e um passar a mão pela cabeça, dizendo: “já passou, não volta a acontecer, foi apenas um percalço”. Porém, os “percalços” continuam a acontecer e nós continuamos a não considerá-los.

Hoje em dia há outras soluções energéticas, renováveis e menos nocivas que, mais que não colocarem em perigo a existência humana, demonstram respeito a todos os acidentes nucleares e à 2ª Guerra Mundial. Talvez seja preciso uma 3ª para despertarmos desta dormência em que parecemos viver, onde o lucro e o poder são mais importantes que as nossas necessidades básica. Tudo o que acontece no tempo cai no esquecimento, sendo que estes acontecimentos não são excepção. Hoje, são apenas factos históricos aprendidos na escola, provavelmente com desdém.

Somos parte de uma era que toma a segurança como garantida, mas se pararmos para pensar é a era que mais devemos temer. Temos a tecnologia, mas não temos a consciência. Temos o dinheiro que parece nunca chegar, independentemente se nas notas que se ganham estejam estampadas caras de vidas. Somos movidos a ganância, tantas vezes com vista à ostentação. De que serve possuirmos se não somos? Mais que seres, tornámo-nos “teres”. A sede ultrapassa a necessidade fisiológica de beber e é agora definida pela necessidade de poder. É como que se tivéssemos invertido a pirâmide e começássemos por satisfazer necessidades que em tempos nem tão pouco eram atingidas. Porque em tempos vivia-se com pouco, mas vivia-se em paz.

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Sara Pereira

O que me define não é a formação académica ou estudos complementares.
Sou isto: nem mais nem menos que alguém, mas ninguém é igual a mim. Sou única, com os meus defeitos e virtudes.
Sou complexa e simples ao mesmo tempo. Por vezes complexa nas alturas em que deveria ser simples, nunca ocorre no tempo certo ou na medida exacta. Sou descomedida na medida do equilibrado. Sinto muito mas esqueço depressa. Apaixono-me constantemente pela paixão e sofro desilusões assolapadas. Cada dia, mais que em qualquer outro tempo, tento equacionar que não é nem será a ultima vez que as sofro e assim aprendo a senti-las menos.
Sou sonhadora e vivo a sonhar com um mundo que seja um lugar melhor para nós. Gosto de viver alienada desta dita realidade que me rodeia, para não sabotar quem sou. Sou uma alma em constante desconstrução para que me possa continuar a construir. Tenho eternas perguntas que nunca serão respondidas.
Gosto de escrever. O que me falta na comunicação verbal, compenso na escrita. Gosto da fluidez das palavras, do peso que podem adquirir, da maneira como podem tocar, do significado escondido que podem ter. Para além do que dizes ser óbvio há sempre mais, se escolheres ler-me. E quando verdadeiramente me lês, sou isto: nem mais nem menos, mas feliz por ser assim.

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4 thoughts on “Uma paz que se conquista”

  1. Olá Sara:-) o Pedro Biscaia da Silva deu-me a conhecer o seu texto e pediu-me uma opinião sobre o mesmo. Se tiver a amabilidade de visitar quando lhe apetecer o meu blogue ( http://vdeguaratiba.blogspot.com) verá que o defino como subversivo e prazenteiro. Eu, como a Sara, gosto muito de escrever e uso um bem que para mim é incomparável: a liberdade. Escrevo sobre o que gosto, como quero e sem me importar com os destinatários, porém sempre com respeito e dignidade.

    Dito isto, a sua escrita é solta e bem pontuada, os raciocínios estão lógicos e a sintaxe é irrepreensível.

    Duas observações que saltam à vista de imediato:

    a ) o texto é longuíssimo e quase ninguém gosta de ler sobre temas ainda que interessantes e bem desenvolvidos, mas um pouco maçudos, uma tão grande prosa;

    b) mistura o Natal que ia a desenvolver bem com bombas atómicas e seus efeitos perniciosos…pena porque ambos os temas são susceptíveis de interessar leitores distintos.

    Temos em comum uma coisa boa: ambos gostamos de escrever.

    Bons sucessos!

    Vicente aka Manuel

    1. Olá Vicente!
      Antes de mais agradeço a sua observação, a crítica construtiva bem como o elogio. São pontos importantes a considerar, com vista ao meu crescimento, digamos, ‘literário’. Espero que me acompanhe nos próximos artigos e sinta-se à vontade para partilhar a sua opinião.
      Obrigada e tudo de bom!

  2. Olá Sara,

    Assim farei com o maior gosto. Mas peço-lhe que faça o mesmo em relação aos meus escritos no meu blogue! Direito de reciprocidade:-)

    Um abraço

    Manuel

    1. Assim o farei, aliás, só é justo desta maneira. Mantenha-se atento, para a semana sairão artigos fresquinhos 🙂

      Saudações literárias!

      Sara

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