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Uma Passagem para a Índia

 “Food is our common ground, a universal experience.

James Beard

 

Jonathan é um homem na casa dos trinta, de fisionomia afável, tez morena e ar exótico.

Conheci-o no Martim Moniz, numa tarde solarenga, em que me sentei no largo a tomar o meu café pingado, distraída a ver os rapazes de descendência indiana a jogarem uma espécie de Cricket (resquícios prováveis da colonização da India por Sua Majestade). Vou lá às compras muitas vezes, em busca de alguns ingredientes, por vezes impossíveis de encontrar por outras paragens.

Meteu conversa comigo. Muito simpático, explicou-me que aqueles meninos o fazem sempre que possível. “Aquele ainda é um pedaço da cultura deles” – disse-me. A meio da conversa apercebi-me que a sua filha, a Orange, se encontrava no meio dos “meninos grandes”. Era rechonchuda e a mais pequenina de todos, porém, vangloriosa, de quem fazia frente a qualquer rapaz por maior que fosse. Os olhos de espanto que fiz, com a pele clara cheia de sardas e o cabelo arruivado da pequenita, foi visível demais. Jonathan fez, então questão, com um grande sorriso, de me contar a sua história.

Jonathan, de sobrenome Curry, era filho de uma inglesa que se perdeu de amores por um jovem indiano. Pai e mãe, depois de viajarem muito, acabaram por se estabelecer em Portugal com os seus três filhos. Jonathan era o primogénito e aquele que ajudava o Pai na loja, que hoje detém.

“Agora já começam a vir cá muitos portugueses, mas antigamente tinham muito receio de entrar aqui. Parecia que tinham medo de nós…” – Explicava-me. Reparei nisso nas minhas primeiras incursões por lá. Entramos num mundo aparte e pessoas existem que têm receio de lá irem sozinhas, para depois descobrirem que não existem quaisquer motivos para tal.

Após a morte do seu pai, Jonathan Curry assumiu a responsabilidade da loja, dando-lhe mais diversidade: procurou outros ingredientes e começou a fazer as suas próprias misturas de especiarias. Sentia-se um alquimista, sendo que era feliz apenas com o que fazia e com a responsabilidade de cuidar dos seus irmãos e da sua mãe.

Para além do mais – dizia – que mais poderia pedir eu? Existem tantas pessoas que não têm a felicidade de retirarem prazer no que fazem… Eu tinha isso. Porém, um dia entrou na minha loja a mulher mais bonita que já vi… Sabe quando se olha para Aquela Pessoa e nos apercebemos que é a nossa alma gémea?” Lisboeta de gema, uma portuguesa comum como muitas outras, entrou um dia na loja em busca de gengibre. Ele ficou tão embaraçado, que deixou de saber onde estava fosse o que fosse. Já recomposto, mas a gaguejar, lá apontou para o local onde estava a raiz. Ela pagou, ofereceu-lhe um sorriso e desejou-lhe um bom dia. Desse dia em diante, o Sr. Curry passou a acordar e a adormecer a pensar naquela ruiva, de pele clara e sorriso franco.

Esteve meses sem a ver. De vez em quando, visitava as lojas dos seus conterrâneos, em busca daquela rapariga, e chegou mesmo a perguntar se alguém a conhecia, sem qualquer sucesso. Uma tarde, em que se encontrava a arrumar alguns produtos novos que tinham chegado, ouviu um grito abafado. A loja do Sr. Curry tinha três degraus na entrada e lá estava ela sentada no chão, agarrada ao tornozelo.

“Não sabia o que fazer! Estava preocupado porque tinha caído, mas não conseguia disfarçar o meu sorriso de felicidade por ela estar ali… Deve ter pensado que era doido!”

Já refeito da surpresa, ajudou-a a levantar-se e encaminhou-a para o seu escritório. Fui buscar gelo, mas só pensava que depois de tanto tempo, se ela voltara a aparecer e me caíra aos pés, só podia ser o destino.” – disse-me sorrindo.–E quando o destino coloca uma visão daquelas à nossa frente, não a podemos deixar escapar…”

“Pois, e após mais algumas visitas à loja, dei-lhe o meu contacto. Tive de ser eu a tomar a iniciativa, pois ele conseguia ser mais tímido do que eu!” Mary Carrot era o seu nome; tinha-se aproximado de nós e sentou-se ao lado de Jonathan, dando-lhe a mão.

“Mas eu conheço-a!” – Disse-lhes. “Sim, é cliente da nossa loja, sou eu que a costumo atender.” – respondeu-me. Nessa tarde, depois de fazer as minhas compras habituais, resolvi ir para casa e fazer uma receita em honra daquele casal e da sua filha. A forma como olhavam um para o outro demonstrava Amor, mas acima de tudo, harmonia. É também harmonia entre ingredientes o que se pede na cozinha, certo? Mesmo que por vezes, à primeira vista, eles não pareçam de todo compatíveis…

Creme de Cenoura com caril e laranja

Vamos às compras?

  • 600 grs de cenoura
  • 1 courgette média
  • 1 cebola média
  • azeite q.b.
  • 1 cubo de caldo de vegetais
  • 1 colher de sobremesa de caril
  • Sumo de uma laranja média
  • sal q.b.
  • Pimenta q.b.
  • Cebolinho fresco picado q.b.(opcional)
  • Creme Fraiche q.b. – nata azeda, vendida fresca em qualquer supermercado (opcional)
  • Queijo de cabra q.b (opcional)

E agora… preparar (Serve 4)

  • Descasque os vegetais e coloque-os ao lume, com o azeite, o caldo de vegetais, sal e pimenta, em um litro e meio de água.
  • Deixe ferver até estarem bem cozidos.
  • Apague o lume, misture o caril e triture com a varinha mágica ou se preferir num liquidificador.
  • Misture o sumo de laranja e retifique o sal e a pimenta

Nota: Deve ser servido quente, com uma colher de creme fraiche e cebolinho picado; ou simplesmente com um pouco de queijo de cabra (Chevre), que derrete e deixa este creme ainda mais delicioso.

As simple as that!

Viva o amor!

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Marisa Coelho

Eu, curiosa aprendiz de tachos e letras, inspiro-me nas referências do digníssimo trabalho de outros e dou-lhe o meu cunho pessoal. Conto estórias com personagens, tempos e espaços, condimentadas q.b.
E sempre em busca do ingrediente perfeito que muitas vezes se encontra na Dita paixão do que se faz.

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