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Uma Obra-Prima chamada Paths of Glory

É, sem sombra de dúvida, o melhor filme sobre a I Guerra Mundial e, possivelmente, o melhor filme feito por Stanley Kubrick. Paths of Glory (1957), que teve direito a uma nova edição para a comemoração do centésimo aniversário do conflito de 1914, é um brilhante conto sobre a futilidade macabra e o horror vivido nas trincheiras da guerra, adaptado por Kubrick, Calder Willingham e Jim Thompson, tendo como base o romance de Herbert Cobb. O título do filme é uma expressão irónica e inapropriada, já que a guerra não é um “caminho de glória”, e que surge analisado na 36ª linha do poema de Thomas Gray, Elegy Written, através da seguinte afirmação: “The paths of glory lead but to the grave.”

George Macready interpreta o General Mireau, um oficial que, em 1916, ordena um ataque suicida sem qualquer sentido a um reduto alemão conhecido como “Ant Hill”, numa clara inspiração no genocídio que durou seis meses em 1916, durante a Batalha de Verdun, na qual se lutou pela manutenção de uma fortaleza francesa e que acabou por cair em mãos alemãs. O longo conflito acabou por reivindicar a vida de 315 000 soldados franceses, na frente oeste da Grande Guerra. Depois do inevitável fiasco, o General ordena que três homens sejam escolhidos por sorteio para serem mortos por cobardice, numa clara alusão crítica às autoridades militares francesas, que, durante a guerra, executaram três homens escolhidos de forma aleatória por cobardice. Mireau é uma personagem que segue a linha de raciocínio demonstrada pelos franceses, durante a I Guerra Mundial, e pelo General Jack D. Ripper de Dr. Strangelove, calculando percentagens aceitáveis de perdas de forma muito racional e tornando as cenas das execuções em momentos repugnantes de crucificação de três ladrões sem Cristo, ou de três Cristos sem um ladrão. O longo conflito acabou por reivindicar a vida de 315 000 soldados franceses, na frente oeste da Grande Guerra.

No início, a câmara segue o herói do filme, o Coronel Dax, interpretado por Kirk Douglas, numa inspecção a uma lamacenta trincheira fortificada, que aparenta não ter fim. Mais tarde, a câmara segue o caminho percorrido pelos militares condenados na sua missão suicida, através da lama, das bombas que explodem, das trincheiras, das crateras, dos corpos que vão caindo inanimados no chão. Mais perto do fim, durante uma elaborada parada militar de um esquadrão de tiro, a câmara acompanha os três homens condenados, à medida que andam e andam e andam em direcção à sua morte. Estas cenas de longa duração imprimem no espectador a importância dos seus intervenientes para a total compreensão do que é a guerra: a proliferação de trincheiras de guerra, a devastação dos ataques, a hipocrisia da classe governante, o pavor dos homens condenados. A justaposição entre as cenas de batalha e a tirania louca que é vivida nas trincheiras é feita de forma genial, principalmente, quando um dos homens condenados afirma, pouco tempo antes da sua execução, que não tem um único pensamento sexual, desde que o tribunal marcial decorreu. Se os momentos demorados que Kubrick emprega em filmes subsequentes, como é o caso da filmagem dos corredores do hotel em The Shining, aparentavam ser exercícios de estilo de realização, em Paths of Glory estas cenas são usadas para comunicarem com as nossas emoções.

A gravação a preto e branco foi uma escolha acertada, já que este é um mundo de formas e sombras, lama e fumo. Não é, tal como a guerra, um mundo com cor. A perda de vidas é devastadora. Os avanços e recuos constantes. Mesmo quando Dax descobre que Mireau havia dado ordem de se disparar contra tropas francesas, usando artilharia francesa, a faísca da esperança desaparece rapidamente, uma vez que, num filme de guerra convencional, este seria o momento em que o mau da fita é castigado e os inocentes libertados, mas isso não acontece aqui. Kubrick consegue desenvolver uma forma de concluir todas as linhas narrativas, sem comprometer o seu tema difícil e sem perdão. O enredo tem o seu fecho, mas a crueldade e a duplicidade sobrevivem e os soldados, numa guerra, continuam ser meros peões. Broulard acredita que as execuções serão um “tónico perfeito” para o exército e que “uma das formas de manter a disciplina é matando um homem de vez em quando.”

Paths of Glory termina com uma cena que aparenta não ser orgânica, comparativamente ao resto do filme. Somos presenteados com uma carnificina no campo de batalha, um tribunal militar com falta de moral, generais franceses corruptos e extremamente cínicos e como é que este cenário termina? Com soldados bêbedos, num bar repleto de pessoas, a brindarem com as suas canecas de cerveja, à medida que o dono do estabelecimento leva para o palco uma jovem rapariga alemã, repleta de medo.

Fazendo insinuações sexuais sobre a sua figura e afirmações cruéis sobre a sua falta de talento, o dono do estabelecimento obriga a rapariga a actuar para os militares. Depois de ouvir apupos e assobios da plateia, começa a cantar. O barulho feito pela plateia desaparece. A sua voz assustada enche a sala por completo. Ela canta The Faithful Hussal. O silêncio começa a desvanecer-se e alguns soldados começam a cantar a música, mesmo não sabendo a letra. Se cantar La Marseillaise num bar, em Casablanca, foi uma chamada para o patriotismo, esta cena em questão é um argumento contra esse sentimento fervoroso. Cria um momento de silêncio e de alguma ternura no dia-a-dia repleto de horrores que estes homens vivem, um mundo em que generais estimam casualmente que 55% destes soldados deverá ser morto num ataque sem objectivos e acha isso aceitável.

Músicas no fim dos filmes, por norma, existem para que o espectador se sinta bem com o fecho da história. Elas fazem parte do processo de conclusão. No entanto, esta música no fim do filme faz com que qualquer um se sinta ainda mais perdido. Não é uma forma de libertação, mas antes mais um golpe dado pela faca de Kubrick. Quando François Truffaut afirmou que era impossível fazer um filme anti-guerra, porque a acção exige esses momentos de guerra, de certeza que não teria em mente o melhor filme sobre a I Guerra Mundial, Paths of Glory.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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