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Uma Narrativa Chamada Battlestar Galactica (Parte 2)

Battlestar Galactica tornou-se distinta de outras suas contemporâneas ao tirar inspiração para as suas narrativas de acontecimentos e de dilemas que compõem a história do século XX, em vez de apostar em questões morais tão características dos dramas passados no espaço. Estes predicamentos tão próximos da actual sociedade são mostrados continuamente, através de personagens complexas, com sentimentos reais e que são confrontadas constantemente com escolhas impossíveis que moldaram as suas identidades e as suas histórias pessoais. É esta teoria narrativa que permite dissecar os acontecimentos e as personagens criadas nesta série, já que é recorrendo às histórias que cada personagem narra sobre si mesma que elas se vão construindo.

Tal como “Daybreak” demonstrou, as histórias de cada um têm implicações para além da noção de identidade que cada pessoa constrói para si, uma vez que também permite retirar pistas sobre o que motiva as acções de uma pessoa e serem a fonte de determinadas opções de vida. São os significados que atribuem uma noção de identificação, encontrando-se presentes em histórias sobre determinada cultura, em memórias que ligam o presente com o passado e em imagens mentais que são construídas baseadas neles. Existe uma narrativa que une o imaginário identitário e que é contado através de mitologias, da literatura, dos média e de contos populares, providenciando um conjunto de histórias, imagens, paisagens, cenários, eventos históricos e rituais que representam o conjunto de experiências vividas por um conjunto de indivíduos. Os membros de uma determinada cultura sentem estas narrativas como sendo suas, retirando significado e importância para a sua existência enquanto sujeitos. A vida começa a ser criada numa narrativa, através da construção de blocos, que, quando colocados numa determinada ordem, compõem uma história coesa, em que momentos importantes se ligam a eventos marcantes, estes, por sua vez, são integrados em episódios, que irão transformar-se numa história que é sentida como verdadeira.

À medida que a narrativa pessoal de cada sujeito vai sendo construída, também vão sendo desenvolvidas expectativas para determinado comportamento e motivações para a realização de acções em determinadas situações. A vida na Era de Battlestar Galactica é fragmentada, em que cada um usa diferentes identidades, em determinados momentos, sendo as situações a ditarem a postura narrativa que cada um adopta. Tal como os vários episódios de Battlestar Galactica indicaram, não existe nenhuma localização central para a criação de uma narrativa coerente e, tal como os Cylons humanóides demonstraram, também não existe uma única forma de se ser humano. Quem observa a acção constrói a narrativa, cada Cylon construiu as suas próprias alianças, apesar das directrizes presentes nas suas programações robóticas, e cada indivíduo constrói o seu Eu, respondendo às opções que a sua narrativa lhe vai apresentando. Em todos estes casos, é através de uma acção activa perante os eventos que vão ocorrendo que a narrativa, o Cylon e o Eu se tornam num só. À medida que cada sujeito vai construindo as suas narrativas recorrendo a várias fontes, também é possível utilizar essas narrativas para construir a sua própria identidade. Na cultura actual, a sociedade está saturada de vários mecanismos mecânicos e de meios de comunicação digitais, que contribuem com fragmentos para produção das várias narrativas da vida de um sujeito. A vida é contada como se fosse um manuscrito épico, ou como um conjunto de enredos que não têm ligação entre si, desenvolvendo nos sujeitos uma noção de pertença a uma determinada identidade cultural. Com as narrativas, o ser humano encontra pontos de identificação com os seus pares, organizando a sua vivência ao nível temporal. Isto é, o meio e o que lhe é transmitido estão a tornar-se uma parte da narrativa de cada sujeito, sendo que, controlar esta narrativa, significa ter a oportunidade de controlar o indivíduo.

O que fez de Battlestar Galactica numa fantástica série de televisão foi a condição narrativa e identitária das suas personagens. Terão sido eles parte de um plano divino, ou simplesmente foram o resultado de um conjunto de acontecimentos dispares? Quantas características bondosas iria cada um eliminar de si para ser capaz de sobreviver à situação de guerra em que se vivia? Nenhuma das personagens poderia responder correctamente. A história desta série podia ser reduzida a um grupo de seres humanos que viajavam numa nave espacial para fugirem de uma raça de robôs, que só os queria ver mortos. Contudo, a ambiguidade das situações que eram vividas por elas tornaram Battlestar Galactica num dos maiores estudos do que significa ser humano.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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