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Uma música no ouvido

A rotina sempre cumprida nas primeiras horas da manhã, em cada dia da semana, todas as semanas. Um despertar cedo com a luz do novo dia a penetrar pelas cortinas. Um banho a repor energia, roupa vestida e as primeiras notícias do dia lidas na diagonal enquanto toma o pequeno-almoço. Pouco depois já segue ao volante do seu carro, descontraído na companhia da sua estação de rádio favorita. A viagem de vinte minutos permite-lhe ouvir quatro a cinco músicas e cada uma delas cai-lhe nos ouvidos com satisfação. Raramente sabia o nome daquelas canções. Os ritmos suaves eram apenas uma forma de amenizar a paisagem urbana que encontrava no seu caminho. Cada canção era como uma pincelada de paz numa imagem do caos que é a cidade.

Naquela manhã, algo foi diferente. Uma música prendeu-lhe a atenção de forma inesperada. Uma bela harmonia tocada na simplicidade e cantada num registo contido de suavidade. A letra relatava a história de um amor verdadeiro entre um jovem casal e era um reflexo de sonhos que ele mantinha dentro de si. Não conseguiu tirar aquela música da cabeça, não mais deixou de ecoar no seu ouvido. Mas não fazia ideia de quem era a voz que a cantava, nem o nome da própria canção. Não sabia como nem onde a procurar. Quis ouvi-la de novo, escutar cada palavra. Quis entrar naquela história.

No trabalho, apenas os momentos de pausa, entre cafés tirados, pequenos-almoços servidos e clientes aviados, permitiam-lhe manter-se atento a um pequeno rádio sintonizado na sua estação. O ouvido encostado à coluna e a esperança de voltar a ouvir aquela música. Mas a seguinte nunca era a que ansiava. Frustrava-se mas não desistia. Aproximou-se mais um cliente e desligou o rádio. Era a rapariga que todos os dias a meio da tarde ia tomar um café. Era a sua cliente preferida, talvez a única que o fazia esquecer a canção perdida. Naqueles cinco a dez minutos, falavam um pouco, sempre sobre nada. O clima, a crise, um excêntrico que viam passar. Despediam-se invariavelmente com um até manhã. Era sempre assim, sem intimidade além dos sorrisos que trocavam. Dela apenas o seu nome sabia, Alice.

Os dias foram passando como páginas de um diário mantido imutável. O tempo cumpria o seu desígnio de viajante e ele continuava com aquela música no ouvido, sem saber de quem era. E continuava a ver aqueles momentos com Alice como o melhor do seu dia. Estava numa tarde distraído a meio de uma pausa proporcionada pela ausência de clientes. Ligou o rádio e pouco depois ouviu a música que tanto ansiava ouvir. Finalmente! Permitiu-se um pequeno momento de êxtase interior. Rejubilou com esta pequena conquista, resultado da sua resiliência. Logo deixou-se embalar pela harmonia e sentiu-se apaixonar pelo poema que aquela voz desconhecida cantava. Abstraiu-se de tal forma que não sentiu Alice a chegar. Ela aproximou-se do balcão e reparou que ele estava absorto colado ao pequeno rádio, num qualquer mundo distante. Deu dois passos para o lado de forma a ficar de frente para ele. Ouviu a música e sorriu na sua timidez. Um sorriso genuíno não premeditado. E alegre, luminoso ao ponto de o conseguir resgatar de volta à realidade. Ele olhou para ela.

– Alice, desculpe. Estava distraído a ouvir uma música lindíssima.

– Boa tarde. Eu vi, estavas noutro mundo. – Respondeu ela, sorrindo, sempre.

– Boa tarde. Hoje estás bem alegre. – Foi falando enquanto lhe tirava o café.

– Sim, estou. O dia está a correr-me muito bem. E essa música lindíssima?

– Ouvi uma vez na rádio e nunca mais a esqueci, mas não sei de quem é. Agora voltou a passar e por isso distraí-me e nem te vi chegar.

– Eu sei. Chama-se Young True Love. É do meu primeiro álbum.

Ele ficou de boca aberta sem compreender o conceito do que era acreditar nas palavras dela. Apenas olhou-a fixamente, fundo nos olhos. Era o mais improvável que podia acontecer. Ter naquela rapariga que lhe alegrava o dia por cinco minutos a autora de uma música que o apaixonara, parecia-lhe surreal. Talvez a vida o fosse mesmo, sempre assim o desejou. Permaneceram silenciosos, olhando nos olhos um do outro. A música entre eles.

Nesse dia, a vida de ambos prometeu mudar. Combinaram encontrarem-se ao final da tarde e falar sobre a música, sobre a história daquele jovem verdadeiro amor. E revelaram-se quem eram afinal. Apresentaram-se e conheceram-se. Sentiram que aquele encontro podia ter acontecido antes, mas souberam esperar. Souberam que tiveram que esperar aquele momento. E esperaram.

Esperaram até que uma música lhes deu uma razão para alterarem as suas vidas.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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