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Uma missão intergaláctica muito especial

Em 1977, Mário Soares faz o pedido formal de adesão à CEE, Elvis Presley, considerado o rei do Rock’n’Roll, morre com apenas 42 anos, assim como, Charles Chaplin, o eterno génio do cinema mudo. No meio destes acontecimentos históricos, a navegação espacial também sofre importantes avanços: duas sondas espaciais são lançadas no imenso e interminável universo, com o objectivo de dar a conhecer à Terra os segredos mais bem guardados do outro mundo. Tratava-se do ambicioso projecto “Voyager”. Todavia, tanto a sonda Voyager 1, como a sonda Voyager 2, carregavam consigo uma missão muito especial: o ADN da humanidade, para o caso de serem encontradas por uma espécie de vida inteligente alienígena.

Explicar naquela época um projecto de tal envergadura não era tarefa fácil, que o diga o matemático Michael Minovitch, responsável pela descoberta do uso da gravidade dos planetas para impulsionar as sondas. Minovitch, aquando duma entrevista, admitiu que sentia uma enorme pressão na época por parte dos administradores da Universidade onde trabalhava, uma vez que qualquer falha nos resultados, implicaria, avultadas perdas de dinheiro, podendo até, comprometer o futuro da sua carreira. Posteriormente, cálculos comprovaram, também, que o Sistema Solar estaria em situação favorável no ano de 1977 para efectuar estes lançamentos e que só voltaria a ter aquela conjuntura novamente dentro de 176 anos. Era agora ou nunca.

No dia 20 de Agosto, a NASA aproveita um raro alinhamento planetário, que permitia a inclusão dos planetas Saturno e Úrano na missão, para lançar a sonda Voyager 2. No mês seguinte, no dia 5 de Setembro, foi a vez da Voyager 1 iniciar a sua viagem, através de uma trajectória designada: “grand tour”, que possibilitava uma chegada mais rápida a Júpiter e Saturno. Esta sonda acabaria por ser desviada para Titã, uma lua de Saturno, e seguiria para fora do Sistema Solar, mais exactamente, na direcção da constelação de Camelopardalis. Por seu lado, a Voyager 2 rumou ao encontro de Úrano, concretizado no ano de 1986, e de Neptuno, em 1989, que a acelerou a mais de 80 mil km/h, lançando esta sonda na direcção da estrela mais brilhante conhecida – Sirius.

No decorrer da sua viagem intergaláctica, a sonda Voyager 2 fez chegar à Terra, mais de 67 mil fotografias, fazendo um roteiro histórico, quase completo, dos planetas e dos seus respectivos satélites do Sistema Solar. Ed Stone, cientista-chefe da missão Voyager, aquando o sobrevoo por Saturno, confessou que “a nossa imaginação não chegava nem de perto do que a natureza oferecia”. As imagens revolucionaram a nossa compreensão em temas como a Meteorologia e a Geologia, mas, sobretudo, refizeram a nossa visão sobre o Sistema Solar e sobre a Ciência Planetária como disciplina.

Em 35 anos, estas sondas ensinaram-nos mais sobre os mistérios que guarda o universo, do que todo o conhecimento acumulado ao longo da humanidade, através de civilizações como os Maias e os Egípcios. Esta foi sem sombra de dúvidas, a nossa maior viagem e, talvez devido à nossa natural egocentricidade, a imagem pela qual a missão é mais recordada seja a de nós mesmos. No ano de 1990, a sonda Voyager 1 foi instruída a voltar as suas câmaras para trás e a captar o último retrato possível, numa distância de 6 quilómetros acima do Sistema Solar, da família planetária. Seria a imagem, alguma vez registada, com mais distância do nosso “planeta azul”, traduzido num “pálido ponto azul”, praticamente imperceptível, no meio do oceano negro do espaço, mas que mesmo assim, conseguia ser tão profunda e espectacular, como as imagens capturadas 20 anos antes pelos astronautas da Missão Apollo.

As duas sondas continuam a distanciar-se de nós a 16 km por segundo. Nos últimos meses, a Voyager 1, agora a 18 bilhões de km de casa, tem dado fortes indícios de que pode já ter saído do nosso Sistema Solar, o que a tornaria no primeiro objecto feito pelo Homem a chegar ao espaço profundo, marcando desta forma uma Nova Era da Exploração Espacial. Por seu lado, a Voyager 2, também poderá estar na iminência de mergulhar nesta zona fronteiriça a que os astrónomos chamam de “espaço interestelar”. Para já, a única certeza dos cientistas é que “não existe nenhuma orientação que nos diga o que é sair do Sistema Solar”, explica Krimigis , numa notícia da Nature, apesar de existirem algumas teorias que tentam explicar o que está acontecer. Certo, é que o espaço vai-nos continuar a surpreender, uma vez que as baterias das Voyagers, alimentadas a energia nuclear, vão resistir até 2025.

Mesmo quando estiverem desligadas, as sondas ainda têm o poder de fazer uma revelação fantástica, tudo porque cada Voyager leva consigo uma mensagem sobre o Planeta Terra para o caso de serem encontradas por extraterrestres. O nosso cartão-de-visita consiste num disco “Voyager Golden Record”, feito de uma placa de cobre banhada a ouro, cuidadosamente aparafusada na parte de fora das duas sondas, com informações sobre a Humanidade, que permite a quem o encontrar saber a localização exacta do nosso planeta no Universo, sendo também, revelada a existência do Homem. Na altura, foi o que cativou a atenção do público e reforçou a garantia de que as missões teriam investimento público. “Na época, isso era um pensamento alucinante”, referiu John Casani, engenheiro de sistemas da Voyager.

O conjunto de informação foi seleccionado e organizado por uma equipa liderada pelo astrónomo Carl Sagan. No disco pode-se ouvir 55 vozes a cumprimentarem, em línguas diferentes, “Paz e felicidade a todos”, diz uma mulher em português. É possível também, escutar 35 sons da Terra, como por exemplo o som de um elefante, compreender a química da dupla hélice de ADN e ver 115 imagens, entre elas, a de uma mulher a amamentar uma criança. A música, considerada a melhor forma de comunicar, não foi esquecida. Temas como a Flauta Mágica de Mozart, ou o Johnny B. Goode, de Chuck Berry são algumas das músicas que podem ser escutadas, durante 90 minutos, no outro mundo. “As arrebatadoras emoções da música poderiam ser um mistério para eles, mas, para conseguirmos transmitir algo do que são os humanos, a música precisa ser parte disso”, afirmou Sagan, numa entrevista à rádio BBC4. Para além disto tudo, existe no disco uma mensagem registada: “per áspera ad astra”, que significa: “até às estrelas, em meio às adversidades”.

Apesar da ideia de uma das sondas ser encontrada por vida inteligente ser bastante tentadora, Sagan e a sua equipa, foram suficientemente inteligentes para perceber que seria um feito muito difícil de concretizar. Para eles, o que importava não era tanto o que os discos diriam a outras civilizações, mas sim, o que diziam sobre a nossa, numa altura em que vigorava a Guerra Fria, e era importante preservar os valores inerentes a cada civilização. “Eis um momento em que de repente precisamos de pensar sobre o que da nossa cultura nós gostaríamos que os outros conhecessem, e que nos deixaria orgulhosos”, referiu Sagan em 1982. “O disco deveria representar a espécie humana na sua integridade. Somos uma só espécie sobre o planeta Terra. A unidade da espécie vista aqui é um facto que é essencial para o futuro humano.”

Num ambiente praticamente vazio nos confins escuros do universo, as sondas Voyagers continuam a servir-nos. Possivelmente vão existir por milhões de anos e durar mais que as pirâmides do Egipto e quiçá mais do que nós mesmos e que a própria Terra. Desta forma, perdurará o único registo da nossa existência, dando voltas na galáxia para sempre. Uma mensagem colectiva que pode ser resumida por uma das vozes ali gravada: “Este é um presente de um mundo pequeno e distante, uma amostra dos nossos sons, da nossa ciência, das nossas imagens, da nossa música, dos nossos pensamentos e dos nossos sentimentos. Estamos tentando sobreviver ao nosso tempo, para que possamos viver até ao vosso”.

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Diana Rodrigues

Minhota de gema. Distraída. Aventureira. Gulosa. Crítica. Observadora. Anti rotina. Persistente. Sonhadora. Alguém que vê na evolução um objectivo. A escrita? É mais que uma fuga. É paixão. O jornalismo regional e a imprensa online são os intermediários.

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