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CulturaLiteratura

Uma história de luz nos tempos de sombra

Marie-Laure nasceu saudável e igual a tantas outras crianças, mas um dia foi-lhe diagnosticada uma cegueira gradual e genética incurável, e era filha de um serralheiro do museu de História Natural de Paris.

Werner nasceu normalmente como todas as crianças alemãs, mas cresceu pobre. Filho de um mineiro que cedo faleceu, viu os seus primeiros tempos de descoberta do mundo num lar para órfãos, nos primórdios da ascensão de Hitler.

Toda a luz que não podemos ver é sobre Marie-Laure e Werner e o seu muito improvável encontro, numa história passada num dos momentos mais violentos e difíceis da Europa. Tempos de violência, de perseguição, de fuga, de escassez e durante os quais a desintegração familiar era um padrão comum.

Uma escrita original, rápida, quase erudita, muito bem fundamentada em conhecimentos desde mineralogia e a electrónica das transmissões de rádio da época, que nos agarra na procura do essencial. E o essencial é toda essa capacidade humana, no caso dos muito jovens, quase deixados entregues a si mesmos, pelos tempos da violência que foram esses dos anos trinta e quarenta do século XX europeu.

A luz que não podemos ver é a que Marie-Laure não vê, ou a que a Werner dissera um dia ser invisível? Ou antes a luz que esse conflito não permitia vislumbrar? Esta leitura traz-nos aos dias de hoje essa memória sangrenta de como uma Europa se transformou num espaço de loucos e de desalojados, de famílias desintegradas, dispersas, ou tão-só destruídas.

Essa luz está em toda a viagem a que esta obra nos transporta. É uma luz que procuramos com a sua leitura, mas que está nas palavras e no estilo de um jovem escritor que, com poucas obras publicadas, já granjeou a fama com a atribuição do último Pulitzer. Anthony Doerr decerto nos trará mais horas felizes, ou apreensivos, mas sempre pensantes, colados às suas páginas encantadoras. Esperemos que sim.

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A estratégia quase policial de intercalar capítulos entre locais e personagens, sempre com algum suspense para nos agarrar talvez nem seja o fundamental, pois o esforço de compreensão do que se espera que aconteça, acompanhando o desenvolvimento e crescimento, a descoberta da vida e o choque da sua descoberta por dois jovens, que, por força de circunstâncias muito pouco favoráveis, tiverem de acelerar seu crescimento e o encontro com uma realidade impossível de se encarar. Claro que outra parte da estratégia inteligente do autor está nas impossibilidades que os tempos fora do comum transformam em probabilidades credíveis, como o encontro entre uma jovem invisual francesa e um jovem e dotado soldado alemão. Um condimento que é a cereja num bolo surpreendentemente saboroso.

O fundamental está no carinho e apego que se adquire por estas personagens sempre em situação de frágil existência, deixando-nos mais de uma vez na expectativa do pior. Não é uma obra policial, não é uma obra sobre a Guerra, não é uma obra ligeira e pouco pensada. Porém, o ingrediente da trama policial está lá, numa busca por um diamante dito mágico, que justifica parte do enredo e tece encontros de outra forma impossíveis. Saint-Malo também nos cativa e dá-nos o desejo de lá irmos, tentar adivinhar, nos seus recantos e com os seus encantos, a construção desta história.

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É um livro muito humano, no que mais humano pode ter acompanhar a luta de duas crianças e jovens num oceano de destruição total e de desilusão dos grandes sonhos. É um fresco sobre o que pode ser um espaço como a Europa que sempre imaginamos o paraíso deste mundo. Tornado cinzas e miséria pela loucura de um homem. Tornadas difíceis, ou impossíveis as vidas de todas as promessas das sociedades, os seus mais promissores jovens.

A luz, está sempre lá. Nas páginas, na força das personagens, enganadoramente frágeis, porque tornadas inquebráveis pela tão humana capacidade que é a vontade de continuar. Na escrita, essa mesmo luminosa, refrescante e inovadora.

Uma luz que, se não conseguirmos ver, devemos todos tentar encontrar. Com esta leitura, talvez se torne mais evidente. E fica-nos a ideia da fragilidade da luz que se pode sempre um dia perder. Nesses tempos, como pelos tempos que agora vivemos.

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Alexandre Bazenga

Licenciado em Agronomia e com uma pós-graduação em Gestão. Leitor adicto, a escrita é uma inevitabilidade. Música, Literatura, Pintura, Fotografia, Culinária e a demanda do Conhecimento, são outros dos meus trajectos.

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